Uma Proposta Vulgar - Capítulo 05
A serenidade de Ines vacilou diante da ameaça absurda.
— O que você quer dizer…?
— Se continuar se recusando, mesmo depois de eu cortar os dedos da criada, cortarei os do chef em seguida.
— Carlos!
Ines, que estava deitada apática, chamou o nome de Carlos para detê-lo.
— Como pode fazer uma ameaça tão terrível?
— Há apenas uma de você, mas muitos trabalham no palácio. E eu sei que essas ameaças funcionam muito bem com você.
Sem conseguir argumentar, Ines mordeu o lábio em silêncio. Essa era exatamente a reação que Carlos esperava. Desde criança, ela detestava ver os outros sofrerem por sua causa.
Os olhos de Ines, que demonstravam ansiedade, observaram cautelosamente a expressão de Carlos. Ela duvidava que ele realmente fosse capaz de fazer algo assim.
Percebendo seus pensamentos, Carlos murmurou suavemente:
— O quê foi? Acha que eu não faria?
Carlos já não era o jovem desprezado por todos. Agora era o líder dos rebeldes e o rei de uma nação. Ainda assim, não podia ignorar completamente a opinião dos nobres e do povo. Ines o encarou diretamente.
— Se fizer isso, enfrentará a crítica das pessoas.
— Isso pode ser melhor do que deixar você morrer de fome ou enviá-la a um convento.
— Além disso, não será pior do que o que Joseph e sua família fizeram.
Ines sentiu um gosto amargo na boca.
Seus lábios, que estavam prestes a protestar contra sua crueldade, ficaram rígidos. Não havia nada de errado no que ele disse. As coisas que sua família e Joseph fizeram aos cidadãos foram indizivelmente cruéis.
Havia uma razão para ninguém criticar o irmão ilegítimo por tomar o lugar de seu irmão. A opinião pública em relação à dinastia anterior estava no fundo do poço.
Nenhum dos remanescentes da antiga dinastia vivia mais neste país. Estavam mortos ou haviam fugido para outras nações. E Ines também era uma dessas remanescentes.
Ela baixou a cabeça, percebendo que também era cúmplice. Sabia que não tinha direito de criticar Carlos. Ainda assim, havia algo que realmente não conseguia entender.
‘Por que Carlos estava fazendo isso?
— Por que está indo tão longe? Qual é a verdadeira razão para querer me tornar rainha, mesmo que isso signifique enfrentar a condenação de todos? É…? — Após breve hesitação, continuou: — Você ainda tem sentimentos por mim?
Não conseguiu pronunciar a palavra “amor”.
Os olhos de Carlos se arregalaram levemente, como se a pergunta o tivesse surpreendido. Logo depois, porém, ele soltou uma risada franca.
— Está perguntando se eu a amo quando pergunta se ainda tenho sentimentos?
Ines respondeu com silêncio. Carlos assentiu, como se concordasse.
— Suponho que possa parecer assim. Mas não é presunçoso demais pensar que eu a amaria?
Era a resposta que ela esperava. Ines também acreditava que Carlos não poderia mais amá-la.
— Então está buscando vingança? Porque eu o traí?
— Isso parece mais preciso.
— Já não é suficiente? Minha família foi destruída, todos os meus parentes estão mortos.
— Não.
Carlos ergueu o queixo dela e sussurrou:
— Ainda não é suficiente para mim. Ines, você precisa ser mais infeliz.
Os olhos de Carlos Ivan ardiam com intensidade enquanto a fitava.
Nesse momento, Ines apertou a saia com força. Então ouviu-se outra batida na porta, seguida pela voz da criada.
— Entre.
Assim que a permissão foi dada, a empregada entrou, empurrando um carrinho carregado de comida.
Ines alternou o olhar ansiosamente entre os pratos e o rosto despreocupado da criada.
A jovem não fazia ideia de que seus dedos haviam sido tema da conversa poucos instantes antes. Naturalmente, o olhar de Ines pousou nos dedos que seguravam o carrinho.
A ameaça de Carlos ecoou em sua mente. Seu coração disparava cada vez que a criada colocava um prato sobre a mesa. Quando tudo finalmente estava servido,
Carlos estendeu a mão para Ines.
— Não deveria comer?
Ines, olhou entre a mão estendida do homem e a empregada, eventualmente soltou um suspiro baixo. Então, sentindo-se resignada, pegou sua mão.
Carlos sorriu satisfeito ao segurá-la. Ele gentilmente deu tapinhas em seu ombro enquanto a ajudava, com seus passos vacilantes, a sentar-se à mesa.
— É hora de comer. Por favor, vá em frente.
Sua voz era suave, mas autoritária, levando Ines a pegar lentamente uma colher de sopa. Apesar do aroma saboroso provocar seu nariz, seu estômago embrulhava por comer pela primeira vez depois de um tempo.
Mas ele não se contentaria com apenas uma colher. Com medo de novas ameaças, continuou a tomar a sopa.
Ela não conseguia realmente saborear. Não podia avaliar quais ingredientes foram usados ou se o tempero estava certo. Seu único pensamento era mostrar a ele uma tigela vazia.
Graças ao esforço de Ines, a sopa logo acabou. Após engolir a última colherada, enxaguou a boca com a água ao lado e encarou Carlos.
Seu olhar parecia perguntar se aquilo bastava. Só então ele se levantou, como se sua tarefa estivesse cumprida.
Em seguida, limpou com os dedos os lábios dela, ainda úmidos. Por um breve instante, seus olhares se cruzaram.
Mas logo, Ines virou a cabeça para evitar o contato. Carlos riu baixinho e continuou:
— Espero que recupere suas forças logo. Você vai querer estar com sua melhor aparência no casamento, não vai?
— …Vou tentar.
Sem dizer mais nada, ele começou a se afastar. Antes de sair, ordenou à criada:
— Me informe se a senhorita faz todas as três refeições todos os dias.
— Sim, Vossa Majestade.
Ao ouvir isso, Ines fechou os punhos.
🌸🌸🌸
A partir daquele dia, a rotina de Ines tornou-se monótona.
A criada, que antes não se importava se ela comia ou não, agora permanecia por perto, aguardando que terminasse as refeições.
Era como se estivesse sendo vigiada. Ainda assim, com a ameaça de Carlos rondando sua mente, Ines forçava-se a esvaziar o prato e depois se recostava no sofá.
Comer três vezes ao dia, diferente de seu hábito, fazia-a sentir-se mal diariamente. Nem antes da rebelião ela fora tão disciplinada com as refeições.
— Talvez eu devesse dar um passeio…
Esperando que o ar fresco ajudasse, abriu a porta, arrastando a perna instável. Então—
— Ouvi dizer que ela estava pronta para morrer de fome até o casamento ser cancelado. Mas assim que Sua Majestade chegou, ela pegou a colher como se estivesse esperando por isso.
Ouviu as criadas cochichando no corredor.
— Deve ter sido encenação o tempo todo.
Achou que estava perdida, mas agora pode ser rainha de novo — quem não iria querer? Sinceramente, é repugnante. Teria sido melhor se tivesse morrido de fome.
As palavras afiadas perfuraram o coração de Ines. Ainda assim, logo esboçou um sorriso amargo.
‘É natural que pensem assim’— refletiu.
Sabia que se tornara motivo de escárnio. O que as criadas não sabiam era que realmente pretendia não se casar, mesmo que morresse de fome — pelo menos até Carlos fazer aquelas ameaças. Embora não estivesse ressentida, não podia evitar sentir uma pontada de amargura.
‘Mas suponho que isso também seja inevitável.’
Considerando os problemas que sua família causara, achava que precisava suportar ao menos isso.
Permaneceu um momento junto à porta.
Somente quando já não ouviu passos no corredor é que saiu.
Ver o corredor vazio trouxe-lhe alguma paz.
Pelo menos não haveria ninguém para cochichar ao passar.
Decidiu dar uma pequena volta nas proximidades, apenas pelo jardim dos fundos do Palácio dos Lírios. Afinal, com a perna naquele estado, não podia ir longe.
Logo chegou ao jardim e respirou fundo. O ar fresco a fez sentir-se um pouco melhor.
— O casamento provavelmente seguirá como planejado— percebeu.
No instante em que viu Carlos ameaçar cortar os dedos da criada, entendeu. Mesmo que recusasse e protestasse, ele levaria o casamento adiante.
Eventualmente, se tornaria rainha.
Continua…
Tradução: Elisa Erzet