Uma Proposta Vulgar - Capítulo 06
Um suspiro pesado misturou-se ao ar.
O casamento estava prosseguindo apesar da oposição tanto da nobreza quanto do templo. O fato de até mesmo fortes vozes de dissidência estarem sendo ignoradas significava que não havia volta.
‘No final, continuarei sendo sua mancha, Carlos.’
Chegar a essa conclusão fez sua cabeça girar. Seu estômago revirou novamente, provavelmente por causa da comida que ela havia se forçado a comer.
Incapaz de se conter por mais tempo, Ines correu até um canto e se curvou.
— Ugh.
Naquele momento, conteúdos desagradáveis jorraram de sua boca. Diferente de antes, quando apenas tinha ânsia seca por não ter comido nada, desta vez parecia estar expulsando tudo o que havia ingerido. Por um tempo, Ines precisou permanecer curvada.
Quando a náusea diminuiu, Ines limpou a boca com a respiração trêmula.
Era difícil, mas familiar. Desde a infância, ela frequentemente vomitava assim quando finalmente comia depois de passar fome por muitos dias. Ainda assim, sempre que isso acontecia, quem permanecia ao seu lado era…
Uma mulher passou por sua mente.
— Ah.
Como ela pôde ter esquecido? A existência daquela pessoa. Ela percebeu que nem sequer tinha verificado se ela estava viva, porque tanta coisa havia acontecido.
‘Talvez ela ainda esteja viva.’
Ao pensar na pessoa que sentia falta, uma saudade avassaladora a dominou. Ela era uma das poucas que a ajudaram a suportar o mundo hostil. A única aliada que teve naquela casa sufocante…
— Preciso encontrá-la.
Ela não sabia se estava viva, mas certamente não teriam matado todos que trabalhavam na propriedade do duque. Especialmente sendo uma criada que permanecia apenas no anexo, teria sido mais fácil para ela escapar.
Ao perceber isso, Ines sentiu urgência.
🌸🌸🌸
Hoje foi o dia da primeira reunião regular.
Embora tenha terminado há muito tempo, alguns nobres permaneciam, cada um levantando a voz.
No entanto, como se não pudesse ouvi-los, Carlos recostou-se em sua cadeira, perdido em memórias.
Ele amava Ines. Para se casar com ela, aceitou a proposta do duque Claudia.
“Vá à guerra no lugar do meu filho. Então permitirei que se case com Ines.”
Apesar de ser desprezado como filho ilegítimo, Carlos carregava o sangue do rei. Diferente dos nobres que eram obrigados a servir no exército, Carlos não precisava ir à guerra.
“Não há necessidade de se preocupar demais. Você só precisa ganhar tempo na retaguarda. Enquanto isso, cuidarei da esposa do conde Ankerid.”
A promessa do duque de cuidar de sua mãe frágil pôs fim à hesitação de Carlos. Ele pensou que seria suportável ficarem separados por apenas cerca de dois anos.
Mesmo quando foi designado para a linha de frente em vez da retaguarda, como prometido, ele aceitou.
Conseguiu suportar mesmo quando o serviço militar de dois anos se estendeu.
Até que aquele incidente aconteceu, há quatro anos.
Num instante, a pergunta de Ines passou pela mente de Carlos.
“Você ainda… tem sentimentos por mim?”
‘Sentimentos’ — pensou ele. Não havia como tais sentimentos existirem.
O dia em que soube que Ines o havia abandonado e ficado noiva de seu irmão.
O dia em que ouviu Ines confessar que nunca o amara.
Seu afeto por Ines havia se transformado em raiva e ódio. Se ter sentimentos restantes significava ódio em vez de amor… então sim, ele ainda tinha sentimentos por ela.
Com esse único sentimento, Carlos havia chegado onde estava agora. Movido pelo desejo obstinado de se vingar daqueles que o haviam lançado no inferno.
Finalmente, no momento em que Carlos deveria colocar uma espada no pescoço de Ines, ele mudou de ideia e decidiu deixá-la viver. Foi apenas um capricho.
Quando viu o rosto de Ines, que parecia ter se rendido ao destino, de repente perdeu a vontade de matá-la.
Resolveu deixá-la viver, mantendo-a nobre e ao seu lado, para poder observá-la sofrer pelo resto da vida.
Enquanto Carlos se perdia nas memórias do passado, alguém se aproximou.
— Vossa Majestade, não podemos apoiar esse casamento!
Carlos saiu de seus pensamentos e olhou para quem falava. Era o marquês Descartes, que desempenhara papel significativo no recente golpe.
— O casamento com Ines Claudia é absolutamente inaceitável.
Ah, sim. Estavam discutindo essa questão novamente.
Era um ciclo interminável de debates tediosos.
Apesar de sua posição, os nobres se opunham ferozmente.
Quando ele os impediu de enviar petições, passaram a desafiá-lo abertamente.
— Achei que tinha dito que eu cuidaria disso.
— Estamos lhe implorando que reconsidere, pois o senhor está tão determinado que até rejeita petições.
— Além disso, soubemos que o senhor doou 300 moedas de ouro anteriormente. Acha razoável pagar tal quantia por este casamento?
Também trouxeram à tona a doação de moedas de ouro ao templo. Isso era até esperado. Os nobres não ficariam de braços cruzados enquanto tal quantia era doada ao templo.
No entanto, para silenciar o templo, era necessário colocar aquela quantia de ouro em suas mãos.
— Exatamente! É absurdo. Por favor, revogue imediatamente!
— Nós absolutamente não podemos aceitar este casamento!
O fervor deles era como se lutassem pela independência.
Carlos suspirou, exasperado. Seu rosto parecia um tanto cansado. Todos, nobres e plebeus, pareciam se opor a ele. Em seu íntimo, queria decapitar todos que o desafiavam.
Mas, se o fizesse, não restaria ninguém vivo. Além disso, Carlos não podia simplesmente ignorar as opiniões dos nobres. Embora seu status de herói de guerra tivesse ofuscado seu nascimento ilegítimo e ele tivesse tido sucesso no golpe, a autoridade real ainda era instável.
E, além disso, ele não podia negar as contribuições deles para o sucesso do golpe.
Para realmente fazer de Ines sua rainha, ele precisava persuadi-los com uma explicação razoável, em vez de uma decisão unilateral.
Após refletir por um momento, Carlos falou.
— Todos sabem que, embora tenhamos confiscado todos os bens domésticos da família Claudia, não podemos apreender seus bens no exterior.
Particularmente, a maior parte dos bens no exterior do Duque Claudia estava em Brillant, a terra natal da falecida rainha e família materna de Joseph.
Portanto, não havia como entregar facilmente os bens da família Claudia a Tezever. Assim, Ines, a única sobrevivente da família Claudia, era a única herdeira que poderia possuir esses bens.
— É por isso que estou me casando com Ines Claudia. Ao me casar com a única herdeira da família, seus bens se tornarão exclusivamente propriedade da família real.
Não é um mau negócio.
— Bem, isso é verdade, mas…
Os bens da família Claudia em Brillant eram substanciais. Ao se lembrarem, havia até uma mina lá. Poderia valer mais do que 300 moedas de ouro.
Enquanto os nobres se calavam, achando seu raciocínio um tanto válido, Carlos proferiu suas palavras finais.
— Vamos encerrar o debate aqui.
Com isso, Carlos levantou-se. Seu olhar para os nobres carregava uma intimidação que não permitiria mais discussões.
— Falar mais será apenas perda de tempo.
Os nobres, sem ter o que dizer, responderam com silêncio. Assim, Carlos deixou a sala de reuniões sem qualquer hesitação.
Alguns nobres que haviam permanecido no salão apressaram-se em se aproximar do marquês Descartes.
— Vai deixar isso acontecer? Usar os bens estrangeiros como moeda de troca…
— Mas ouvi rumores de que a mina está quase esgotada. Foi por isso que o duque Claudia perdeu o interesse nela há muito tempo. Mesmo que ainda haja recursos viáveis para explorar, exigiria um investimento significativo. Isso é apenas Sua Majestade criando desculpas.
— Exatamente. O senhor deve continuar se opondo ao casamento. A rainha deve ser escolhida dentre nossas filhas. Devemos lembrar das dificuldades que enfrentamos para tornar o golpe bem-sucedido.
Todos concordaram. Para além da questão dos bens, eram contra o casamento com Ines. Nesse momento, um homem que observava a conversa à distância aproximou-se cautelosamente.
— Acho que talvez seja melhor respeitar a vontade de Sua Majestade por enquanto.
Era o Barão Delmonsi. Ele fora um aliado próximo do Duque Claudia, mas o traiu pouco antes do golpe. Por causa disso, sua posição atual era instável.
Ao ver Delmonsi se intrometer desnecessariamente, um dos nobres franziu a testa.
— O que está dizendo? Sente pena daquela mulher perversa porque já serviu à família Claudia?
Delmonsi balançou a cabeça em negação.
— Claro que não. Eu ouvi algo estranho, e é por isso que estou falando.
— O que foi?
Após hesitar por um momento, Delmonsi aproximou-se de Descartes e curvou-se.
— Posso falar em particular com o senhor, Marquês? É um assunto muito importante.
— Ei, você…
Enquanto os outros nobres começaram a protestar, Descartes ergueu a mão para detê-los.
— Saiam todos.
— Mas…
Quando Descartes gesticulou novamente para que saíssem, os nobres finalmente começaram a deixar o salão.
Assim que a vasta sala de reunião ficou apenas com os dois, Descartes falou, instando-o a continuar.
— Muito bem, agora que todos se foram, qual é esse assunto importante que tem a me dizer?
Finalmente, Delmonsi, que estivera em silêncio, começou a falar lentamente.
— Parece que permitir o casamento com a Senhorita Claudia pode ser a decisão correta.
— E por que isso?
— Há uma possibilidade de que a senhorita Claudia possua alguma habilidade especial.
Continua…
Tradução: Elisa Erzet