Tentando o sacerdote e indo para o inferno - Capítulo 03
Assim que deixaram a capela, os fiéis, que haviam saído primeiro, se aglomeraram em volta de Nicholas.
Com um olhar rápido e objetivo, Nicholas avaliou o tamanho da multidão e ergueu deliberadamente os cantos da boca enquanto caminhava em direção ao prédio principal do templo.
O cortejo de fiéis se reuniu como uma nuvem, formando uma longa fila atrás de seus passos.
— O sermão de hoje foi tão comovente, Sumo Sacerdote.
— Isso mesmo, quase chorei ao ouvir.
— O senhor é verdadeiramente incrível, também gravarei suas palavras no meu coração e reunirei coragem!
Cada um despejava elogios e admiração. A maioria dos seguidores eram jovens nobres solteiras e damas devotas.
— Vocês me lisonjeiam. Sou apenas um mensageiro da palavra de Deus.
Nicholas respondeu, como sempre, com um sorriso gentil e um toque de modéstia. Mesmo diante dessa reação mínima, as fiéis exclamaram em admiração.
Enquanto conversava levemente com as devotas, uma mulher de repente bloqueou o caminho de Nicholas, inclinando a cabeça educadamente. Como resultado, ele precisou parar.
— Sumo Sacerdote, eu estava em apuros por ter derramado o suco naquela vez… Graças ao lenço que o senhor me deu, fui salva. Muito obrigada.
Era a senhorita Adeline, filha de um Visconde. Ela era tão entusiasta que sempre se sentava na primeira fila durante os cultos conduzidos por Nicholas.
— De modo algum. Qualquer pessoa teria feito o mesmo ao ver uma fiel em apuros.
Mesmo após ouvir a resposta, a senhorita Adeline não se afastou e, de repente, estendeu ambas as mãos.
— Eu queria devolver o lenço. Eu o lavei bem. E isto é um presente para demonstrar minha gratidão…
Nicholas alternou seu olhar entre as mãos que seguravam o lenço e o presente, e o rosto da senhorita Adeline.
Suas mãos tremiam, e suas orelhas ficaram vermelhas, incapaz sequer de encará-lo.
— Claro.
Nicholas se inclinou para encontrar o olhar da senhorita Adeline.
— Deus não desejaria que seus preciosos filhos estivessem em apuros. Eu apenas fiz o que devia como mensageiro da palavra Dele.
Nicholas pegou apenas o lenço dentre o que ele oferecia. Naquele momento, a jovem tentou segurar sua mão, fazendo com que as pontas dos dedos se roçassem, mas ele não se importou e sorriu brilhantemente.
— Aceitarei o presente em espírito. Que você esteja sempre sob a graça de Deus.
🌸🌸🌸
Somente após entrar na parte interna do prédio principal Nicholas finalmente ficou sozinho.
Ele parou de andar ao alcançar um lugar onde não havia ninguém por perto. Então soltou um longo suspiro e olhou para o lenço que acabara de receber de volta.
Havia um bordado floral denso em um dos cantos. Parecia que ela não só o lavou, mas também o bordou à mão com cuidado.
— … Droga. Imundo.
Era uma expressão difícil de acreditar que saíra de um rosto tão nobre quanto o de um anjo vivo.
Recordar a sensação das pontas dos dedos úmidas, possivelmente do suor do nervosismo, tocando-o fez com que sentisse arrepios percorrendo todo o seu corpo. Ele só havia aceitado o lenço na frente dos fiéis, mas pensar em como ela o havia bordado enquanto o acariciava com aquelas mãos o deixava louco.
Nicholas jogou o lenço no lixo e lavou meticulosamente as mãos na pia.
Ele não sentia remorso algum por descartar o afeto puro de alguém no lixo.
🌸🌸🌸
O filho perfeito de Deus.
Era um apelido usado para elogiar Nicholas Reinhart. Naturalmente, ele concordava com isso. Apesar de possuir um corpo tão perfeito, não se deixava seduzir por desejos baixos como a luxúria.
Na frente dos outros, ele modestamente dizia que era um elogio exagerado, mas Nicholas entendia perfeitamente por que os outros não tinham escolha a não ser dizer isso. Era difícil encontrar palavras para descrevê-lo além de ‘perfeito’. Portanto, não se tratava de arrogância fútil, mas um fato. Não se pode negar a verdade.
Após terminar suas tarefas diárias, Nicholas se purificava da sujeira que se acumulava nele em sua banheira pessoal. Hoje, como havia pregado em uma capela lotada e estava cercado de pessoas, ele lavou-se ainda mais minuciosamente.
Para Nicholas, o banho era um ritual limpo e pessoal para encerrar o dia, semelhante a uma recompensa perfeita que concedia a si mesmo.
Embora houvesse um banho coletivo usado no templo, a ideia de compartilhar um objeto tão sagrado quanto uma banheira com outros era arrepiante.
Sua obsessão por limpeza, uma condição crônica desde a infância, conferia-lhe uma imagem limpa e nobre e, de alguma forma, dava-lhe uma aura de distanciamento.
Quando ele sorria gentilmente, as pessoas nunca percebiam que ele considerava a presença dos outros como nada mais do que contaminantes sujando-o.
Após terminar seu banho, Nicholas saiu da banheira, secou-se e vestiu um roupão de dormir. Em seguida, pegou uma das toalhas perfeitamente arrumadas e agitou seus cabelos loiros ainda úmidos.
— Ah, revigorante.
Sentia-se lânguido e satisfeito. Lavar a sujeira dos outros e desfrutar de um espaço preenchido apenas por si mesmo era seu momento favorito do dia.
Ao sair do banheiro, encontrou uma correspondência endereçada a ele sobre a mesa. Trazia o selo dos Reinhart. Pelo lacre dourado, era uma carta de sua mãe, a Grã-Duquesa de Reinhart.
— Ela está tendo seus ataques novamente.
O conteúdo era óbvio mesmo sem abrir. Um pedido, tedioso como sempre, para o casamento de seu único herdeiro antes que fosse tarde demais.
Ela imploraria para não deixar a linhagem da família morrer. Argumentaria que, no mínimo, ele deveria ter a dignidade de encontrar seus ancestrais após a morte.
Lamentaria como seu precioso Nicki havia se tornado um rebelde que não compreendia o coração da própria mãe.
Desde notícias de que ainda havia muitas jovens desejando casar-se com ele até como renunciar à posição de herdeiro traria infortúnio, a carta estaria repleta de súplicas ansiosas e sinceras.
Não havia necessidade de estragar seu bom humor lendo-a. Nicholas amassou a carta sem abri-la.
Se ele não respondesse, ela certamente viria visitar. E se ele expressasse recusa, isso levaria a outra longa carta tentando persuadir o filho.
[Obrigado pela sua preocupação.
Gravarei suas palavras em meu coração
e as considerarei cuidadosamente.
Sua enxaqueca melhorou?
Sempre rezo por sua saúde.
Que esteja sempre sob a graça de Deus.
— Nicholas Reinhart —]
Isso deve manter as coisas quietas por um tempo. Como herdeiro de Reinhart, Nicholas foi forçado a ser perfeito desde a infância.
Não era difícil. Ele era quase perfeito na realidade. Ocasionalmente, revelar até mesmo uma pequena falha seria mais problemático.
Talvez por isso. Era mais fácil mostrar aos outros a imagem que desejavam ver. Isso se aplicava até mesmo à mãe que o dera à luz.
Ele vestia deliberadamente uma fachada, não por bondade, mas por conveniência. Nicholas era naturalmente mordaz e sensível, mas vivia usando uma máscara de sorrisos gentis.
Herdeiro, herdeiro, herdeiro.
Conforme a Grã-duquesa Reinhart envelhecia, talvez os laços de sangue a puxassem, pois ela sempre insistia na questão do herdeiro quando o assunto era esquecido.
Para ter um herdeiro, ele teria de manter relações sexuais. Nicholas desprezava sexo. Odiava no passado, odeia agora e odiará para sempre.
Nicholas entrou no templo e se tornou um sacerdote para evitar tais atos imundos de trocar fluidos corporais com outros. Era melhor ser uma existência inatingível do que manter os rumores confusos de ser um sodomita.
Uma existência inalcançável, intocável. Isso estava alinhado com a autoimagem que Nicholas perseguia desde o início. Ele não gostava de humanos, ou mais precisamente, dos outros.
Sodomita, sim. Era absurdo, não importava como ele pensasse sobre isso. Era um boato espalhado por uma jovem que guardou rancor após ele rejeitar sua declaração.
O boato, aparentemente convincente o suficiente para aparecer em revistas baratas de fofoca, chegou até a fazê-lo receber cartas de homens desconhecidos propondo sexo. O mundo era desalentador.
Ele não suportava sequer a ideia de tocar os outros, muito menos ter relações sexuais.
De repente, recordando o incidente desagradável em frente ao edifício principal mais cedo, a irritação surgiu. Nicholas voltou ao banheiro e lavou as mãos compulsivamente mais uma vez.
Pensar que teria que permitir que algum ser humano inferior carregasse seu nobre sangue… só de imaginar era tortura. Não, mesmo que a encarnação de uma deusa surgisse, ele recusaria.
Através do roupão ligeiramente aberto, um pênis enorme foi revelado. Sua forma e cor eram perfeitas. O pau impecável tinha um tom delicado como flores da primavera. Talvez por isso parecesse mais um artefato sagrado do que um pênis.
Ele detestava tanto ejacular que nem mesmo se masturbava. Se isso acontecesse inevitavelmente, simplesmente lavaria, mas não tinha intenção de estimulá-lo com a mão.
Por quê, afinal iria a tais extremos?
Ele não conseguia compreender. Nicholas considerava a masturbação um ato extremamente vulgar e grosseiro.
Ele não gostava nem mesmo de segurá-lo e sacudi-lo ele mesmo. A ideia de entrar no corpo pegajoso de outra pessoa era, ah, o pior. Nicholas fechou o roupão novamente, cobrindo seu pau.
Jamais teria relações sexuais até morrer.
Parado diante do espelho de corpo inteiro, Nicholas admirou sua forma perfeita e reafirmou mais uma vez sua resolução.
(Elisa: itimalia. Veremos Nick.)
Continua…
Tradução: Elisa
Marília Roberta
tô louca pra ler essa obra toda, espero que vcs de continuação, por favor ☺️