Tentando o sacerdote e indo para o inferno - Capítulo 02
— Talvez ela me odiasse por eu ser um capacho.
Ela realmente me olhava com desprezo. Chegou até a me chamar de “a maior tola da vida dela” na carta de maldição.
Rarien admitiu que era uma boba. Sua própria aparência era a “cara de uma boba”. Seu rosto pálido e os olhos redondos e ligeiramente caídos passavam uma impressão tão gentil que qualquer um acharia fácil se aproximar. Ela parecia mais frágil do que um herbívoro, como um cervo ou um coelho.
Não era apenas sua aparência; suas ações eram iguais. Se o sacrifício dela pudesse deixar os outros felizes, ela se sentia em paz. Ela sempre escolhia ser um capacho.
E ela reconhecia que algumas pessoas poderiam não gostar de alguém que fosse assim.
— Mas só porque você desgosta de alguém não significa que precise matá-la.
Estava chateada. Mas o que a deixou ainda mais louca foi outra coisa.
“Mesmo se você tivesse apenas 100 dias de vida, ainda viveria assim?”
A pergunta que Madame Rosalie fizera ecoava nos ouvidos de Rarien.
Rarien não conseguiu responder de imediato. Deus havia instruído as pessoas a viverem uma vida dedicada aos outros. Já que esse era o modo correto de viver, deveria ter respondido que, mesmo com apenas 100 dias restantes, viveria dessa forma. Mas, covardemente, ela não conseguiu.
A pergunta sem resposta parecia bloquear sua garganta como um espinho que ela não conseguia engolir.
Rarien se perguntou:
— Rarien Claude. Vamos ser honestas. Só restam 96 dias. Você realmente quer viver assim?
— …Não.
Rarien murmurou tão baixo que mal era audível. Não valia a pena refletir mais. Ela não queria mais viver sendo um capacho.
Não queria desperdiçar sua vida restante fazendo trabalho para os outros ou assumindo tarefas que todos evitavam.
Sim, esse era seu verdadeiro sentimento.
Rarien Claude nasceu como a segunda filha de uma família de barões decadentes. Sua família era nobre apenas no nome, vivendo na miséria. Se não tivesse se tornado freira, teria sido vendida como segunda esposa para algum homem de meia-idade.
No templo, ela poderia resolver seus problemas de comida e moradia. Foi permitido que se tornasse freira sob a condição de enviar a maior parte de seu salário para casa, já que não havia outro lugar para gastar dinheiro.
Sua visão era ruim, mas como precisava enviar uma quantia fixa para casa, levou vários meses para economizar o suficiente para comprar esses óculos.
Ela não queria mais viver daquele jeito.
‘Quero viver para mim pelo tempo que me resta.’
Sua determinação era firme. Iria morrer em breve. Não havia motivo para hesitar ou ter medo.
— Agora, teremos o sermão do Sumo Sacerdote.
Naquele momento, um feixe de luz iluminou o pódio. Rarien olhou como se estivesse em transe.
O Sumo Sacerdote, Nicholas Reinhart.
Ele era o homem mais nobre deste templo. Com seus brilhantes cabelos loiros e olhos dourados, ele tinha uma aparência surpreendentemente graciosa.
Sua estatura alta, que ofuscava até os cavaleiros sagrados, sua natureza gentil, sua excelente educação e a dignidade inata que convinha ao filho primogênito da família do Grão-Duque Reinhart.
As pessoas o elogiavam como o “filho perfeito de Deus”.
‘…E aquele sorriso angelical.’
Nicholas sorriu gentilmente ao ficar diante do púlpito.
Toda vez que via o Sumo Sacerdote sorrir, Rarien achava que valia a pena ter comprado seus óculos, mesmo que com dificuldade, porque podia ver aquele sorriso com mais clareza.
O único conforto em sua árdua vida no templo era “o rosto de Nicholas Reinhart”.
Ela não era particularmente devota desde o início. Rarien entrou no templo inteiramente por causa de Nicholas.
Ela o encontrou pela primeira vez em uma missa à qual compareceu por acaso durante o festival da colheita. Ela foi à missa com a intenção de receber o pão e os ovos que eram distribuídos depois.
Ela se apaixonou à primeira vista ali. Rarien esqueceu completamente o pão e os ovos e ficou cativada pela aparência radiante de Nicholas. Desde então, estava em um amor não correspondido por cinco longos anos.
Não havia nada grandioso nesse amor unilateral. Observar de longe era tudo o que fazia.
Rarien nunca perdia uma missa por Nicholas e garantia um assento relativamente à frente.
Ela escolhia a quarta fila de propósito, com medo de que seu rosto bobo fosse notado se sentasse muito perto. Era o assento central de frente para o pódio. E ver seu rosto lhe dava forças para aguentar ser tratada como um capacho por mais uma semana.
Ela escrevia meticulosamente o conteúdo dos sermões e os lia sempre que se sentia para baixo. Tentava viver de acordo com os sermões de Nicholas. Isso era tudo.
Para ela, a fé não era acreditar em Deus, mas no próprio Nicholas Reinhart.
Ela frequentemente se entregava a fantasias de estar com Nicholas. Em seus sonhos, Rarien beijava Nicholas e dormia na mesma cama.
Eles tinham três filhos parecidos com ele, e todos iam fazer um piquenique num campo de flores com sanduíches.
As crianças riam e corriam pelo campo de flores, e ela e Nicholas se beijavam escondidos sobre a toalha…
Vivendo uma vida cheia de graça. Felizes para sempre.
A simples imaginação fazia seu coração inflar de emoção a ponto de tremer. Mas ela sabia que fantasias eram apenas fantasias e jamais poderiam se tornar realidade.
— Foi um culto longo, mas você achou entediante?
— Não, claro que não. O rosto do Sumo Sacerdote nunca poderia ser entediante. Oh, Deus. Esta é a sua obra-prima. O senhor está vendo?
As mãos entrelaçadas de Rarien se apertaram.
Uma vez por semana, por cinco anos. Com cerca de 52 semanas em um ano, isso dá 260 vezes, sem contar as muitas outras vezes em que ela o encontrava por acaso. Ainda assim, o rosto dele sempre parecia novo a cada vez que o via.
O rosto era uma coisa, mas sua voz grave era tão suave e doce quanto mel.
Se ela pudesse capturar aquela voz em algum lugar, ouviria todas as noites antes de dormir. Rarien se entregava a essas fantasias frívolas.
— Hoje, serei breve. Deus deseja que Seus filhos também tenham descanso suficiente.
O clero reunido na capela riu agradavelmente da piada de Nicholas. Ela gostava de seu jeito confiante e descontraído.
Ele parecia exatamente o oposto de si mesma, que sempre estava preocupada e ansiosa com a opinião dos outros. Ela o invejava.
Nicholas Reinhart era, sem dúvida, um homem perfeito, digno do título de “filho perfeito de Deus”.
“E a sua vida? Você já fez sexo com um homem?”
Por que um pensamento tão irreverente veio à mente neste momento sagrado?
Rarien balançou a cabeça vigorosamente, como se quisesse afastar o pensamento sujo. Ela não deveria estar pensando nisso.
Uma vez que pensamentos impuros surgiam, eles persistiam em sua mente.
“Você já fez sexo com um homem?”
“Não.”
‘Não fiz. Não pude. Droga…! Isso está me deixando louca.’
Só podia ser a maldição de Madame Rosalie.
“Você nem consegue aproveitar as coisas mais básicas, então quem você pensa que é para cuidar de alguém?”
Ela queria negar, mas sexo era um desejo e direito básico que todos deveriam desfrutar.
Ela se sentiu injustiçada. Iria morrer sem nunca ter feito sexo com um homem, depois de uma vida inteira sendo um capacho para os outros.
Rarien se sentiu tão patética em sua situação que queria morrer.
‘Mas…, nunca nem me declarei, muito menos fiz sexo.’
Provavelmente nunca faria. Exceto por estar no mesmo templo, ela não tinha nenhuma conexão significativa com Nicholas, e mesmo ter uma conversa com ele era raro.
— Que os filhos de Deus recebam bênçãos gloriosas.
Para Nicholas, que realizava a bênção cerimonial com água benta.
— O-obrigada….
Tudo o que ela conseguia fazer era responder com uma voz trêmula.
‘O que aquele homem perfeito iria gostar em alguém tão insignificante quanto um capacho como eu? O que ele poderia estar precisando?’
Até ela achava que não fazia sentido. Eles nem estavam no mesmo nível. Era uma fantasia impossível desde o início.
Mas depois de cinco anos de amor não correspondido, era difícil imaginar outro homem como parceiro sexual. Mais difícil do que isso era imaginar a si mesma fazendo sexo com Nicholas…
Quanto mais pensava, mais triste ficava.
— Você acha que é impossível?
Os olhos de Rarien se arregalaram com o sermão de Nicholas.
— Em nome de Deus, nada é impossível.
Naquele momento, os claros olhos dourados de Nicholas encontraram os dela. Seu coração disparou e afundou.
Pareceu uma espécie de revelação.
— Se existe algo impossível, isso é criado pelo seu próprio coração fraco. Deus nos ensinou assim.
Um coração fraco que desiste sem nem tentar. Era uma afirmação que atingia em cheio o cerne.
— Se há algo que você deseja, desafie. O fruto de seus esforços será doce. Estenda a mão, agarre e saboreie.
Desafiar, agarrar e saborear.
Rarien ponderou lentamente seu aforismo, como se o estivesse gravando no coração. Era uma bela frase.
— Se você não abandonar a fé e a coragem, a graça de Deus certamente o seguirá.
Rarien Claude tomou uma decisão.
Antes de morrer, ela certamente iria foder com aquele filho perfeito de Deus.
Continua…
Tradução: Elisa Erzet
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Amo que ele deu o click do gatilho pra ser atacado lkkkkkk rachei , obrigada Lisa por mais um cap 😍