Solstício (novel) - Capítulo 19
River foi conduzida pela mão de Marta até a porta da frente. Ficou decepcionada por não ter visto o escritório, mas, afinal, Lily era a parceira de Alessandro. Para o mundo exterior, ela era a amante do Sottocapo, então precisava esquecer o escritório por enquanto e cumprimentá-lo calorosamente para evitar suspeitas.
Marta o recebeu com um sorriso radiante em italiano.
— Sandro, bem-vindo.
E então algo surpreendente aconteceu. Alessandro deu em Marta due baci sem hesitação. Marta também aceitou o cumprimento naturalmente, sem qualquer constrangimento. Observando a interação afetuosa entre os dois, pareciam uma mãe e seu filho já adulto.
Claro, era um cumprimento comum entre italianos, mas era difícil acreditar que “aquele Alessandro” se curvaria e seria tão afetuoso.
— …Bem-vindo.
Ela sempre falara com ele em inglês, mas dessa vez falou em italiano. Já que estava naquela casa, sentiu que precisava se adaptar.
Mas Alessandro a encarou por um momento e então respondeu casualmente.
Em inglês, claro.
— Pode falar inglês comigo. O que for mais confortável para você.
Com essas palavras, Alessandro entrou na mansão. Paolo, que estava levando a bagagem do dono, sorriu para River quando seus olhos se encontraram. Mas mesmo que os cantos da boca dele se curvaram para cima, seus olhos não sorriam; era um sorriso um tanto profissional.
— O jantar será em uma hora, então descanse até lá, Lily. Há algo que você não possa comer? Hoje é um dia especial, então pedi a Silvio que comprasse filé de vitela…
A tensão não diminuiu nem com o falatório de Marta. River, que respondia de forma apropriada, subiu para se trocar. Alessandro estava no escritório; quando ela passou pelo corredor, ouviu vagamente ele falando ao telefone através da fresta da porta. Não teve escolha a não ser desistir do plano de fingir que iria conversar com ele para espiar o escritório.
Mas ainda era cedo para desistir. River teria que ficar ali por um tempo, querendo ou não, então haveria muitas oportunidades.
O jantar não foi nada menos que um banquete. Marta havia preparado uma refeição farta para celebrar a visita de River. Mas River e Alessandro eram os únicos sentados à mesa cheia de iguarias.
Quando perguntou a Marta, ela apenas respondeu que ela e o marido, Paolo, sempre comiam separados.
Ela pensava que eles eram tão próximos quanto família, mas a esse respeito, eram tão rigorosos quanto uma lâmina afiada. Sabia que ele era um homem cujos limites eram difíceis de avaliar, mas não sabia que seria tão complicado.
No ambiente silencioso, foi River quem quebrou o silêncio novamente.
— Hum, Alessandro.
— O quê.
— Ouvi dizer que você nunca trouxe outra parceira aqui antes.
Então Alessandro parou e encarou River. Com um olhar que parecia dizer “continue”, ela hesitou e prosseguiu:
— Então por que me trouxe?
Era algo que ela queria perguntar, mesmo que quebrasse sua própria regra de evitar palavras desnecessárias. Como River Winstead, não como Lily Gray.
Ela sabia que não receberia uma resposta como “Porque gosto de você”. Palavras açucaradas não combinavam com esse homem. Ela só queria saber a razão fundamental. Por que Lily, entre tantas mulheres, se tornara a exceção de Alessandro.
Ele não respondeu de imediato. Encontrou o olhar de River como se tentasse discernir a intenção da pergunta, então perguntou de volta:
— Você viu todas as pinturas nas paredes, as esculturas alinhadas no corredor?
— Vi.
— O que achou?
— Eram boas. A maioria eram obras com uma estética que agradaria ao público em geral, e estavam bem cuidadas, mesmo sendo de propriedade privada.
A palavra “boas” foi bastante sincera. Ela pensou que provavelmente examinaria a coleção dele várias outras vezes enquanto morasse naquela mansão.
— Todas eram valiosas. Obras de pintores e escultores cujos nomes você reconheceria só de ouvir, e havia até algumas que poderiam ir para um museu…
— Você gostou delas?
Quando River assentiu, Alessandro respondeu brevemente:
— É por isso.
Poderia ter soado como um comentário sem sentido, mas River logo entendeu o significado por trás disso.
Assim como as obras de arte expostas em sua mansão, ela também tinha esse tipo de valor, e ele a trouxe porque gostava dela.
Sua curiosidade foi satisfeita, mas sentiu algo estranho após ouvir aquilo. River mudou de assunto para aliviar o clima.
— Marta e Silvio trabalham aqui há muito tempo?
— Há bastante tempo. Por que está curiosa sobre isso?
River pegou sua taça de vinho e umedeceu os lábios e a garganta. Uma vez iniciada a conversa, não era difícil fazer outra pergunta, mas precisava ter cuidado para não parecer invasiva.
— Fiquei sinceramente um pouco surpresa ao ver Marta cumprimentando você com ¹due baci mais cedo.
— Por que?
— Porque você nunca fez isso comigo.
— Você também quer ser cumprimentada assim?
— Não, não foi isso que quis dizer… Só pensei que vocês deviam ser muito próximos, então imaginei que se conheciam há muito tempo.
Ao acrescentar isso apressadamente, com medo de parecer ciumenta ou emburrada, os cantos da boca de Alessandro se curvaram levemente, como se achasse graça.
— Eles dois eram membros da organização trabalhando sob o comando da minha mãe. Então eu os ajudei com uma coisa, e desde então eles trabalham como zeladores da mansão.
— Ajudou com o quê?
— Vingança.
Ele, que falava em inglês, respondeu em italiano pela primeira vez.
River sabia o que vingança (vendetta) significava no mundo da máfia. Não podia pedir mais detalhes, mas certamente não fora algo trivial.
— …Entendo.
River imaginou Marta e Silvio em sua mente, como os vira durante o dia. Era difícil acreditar que aquele casal aparentemente simples do interior fosse, na verdade, membro da organização. Não sabia por quem buscaram vingança, mas se o próximo herdeiro da organização havia interferido pessoalmente… era compreensível que fossem subordinados leais por anos.
Talvez por causa do peso da palavra “vingança”, não houve mais conversa até o fim da refeição. Foi só depois de terminar toda a mousse de chocolate com figos que veio como sobremesa que ele voltou a falar.
— Você deve estar cansada da longa viagem, então relaxe, suba para o seu quarto e durma. Preparei móveis e roupas, mas se precisar de mais alguma coisa, peça à Marta.
— E você?
— Tenho trabalho no escritório.
— Então… devo esperar?
A pergunta pareceu inesperada para Alessandro, pois ele a encarou por um momento antes de balançar a cabeça.
— Não.
De volta ao quarto, River pegou o celular que recebera da central. Precisava fazer o relatório diário mesmo que não houvesse nada especial. Mas, quando estava prestes a digitar a primeira palavra, ouviu alguém bater.
— Com licença, senhorita Lily.
Paolo a chamava do lado de fora do quarto.
River guardou o celular na gaveta da penteadeira e abriu a porta.
— Desculpe incomodar a essa hora.
— O que houve?
— Poderia me entregar seu celular e passaporte?
— Por quê?
Ela perguntou inocentemente, mas a razão era óbvia. Ele provavelmente não queria que a parceira do Sottocapo ficasse postando isso e aquilo nas redes sociais.
Mesmo algo trivial poderia conter informações problemáticas se vazadas. Pedir o passaporte era mais como um aviso educado para não fazer nada imprudente — nem fugir, nem falar demais, já que conheciam seus dados pessoais.
— Este lugar é completamente isolado do acesso externo. Pedimos sua compreensão, pois precisamos recolher esses itens por questões de segurança. Espero que não se ofenda.
Era a resposta esperada. Relutante, River pegou o passaporte falso da mala e o entregou junto com o celular fornecido quando se tornou parceira. Mas aquele truque superficial não funcionou.
— Por favor, entregue também o celular que usava originalmente.
Ele queria o celular pessoal também? Sua mente deu um nó. Segundo Federico, Alessandro nunca havia tentado controlar os pertences pessoais de suas parceiras. Ele estava tentando controlar completamente a vida privada da nova amante?
— Até meu celular pessoal? Mas…
— Mesmo que eu pegue seu celular, vou apenas guardá-lo, não vou olhar o conteúdo. É claro, devolvo quando você for embora.
Provavelmente não estava pensando em investigar Lily Gray agora. A verificação de antecedentes devia estar concluída desde o momento em que Alessandro a escolheu.
Mas River queria resistir de qualquer forma. Precisava do celular da central para se comunicar com o exterior, e havia várias ferramentas nele úteis para sua missão.
Ela não tinha visto um desktop ou laptop naquela casa, então o celular era o único canal para se comunicar com a sede. Se fosse esse o caso, ela não poderia recuar mais.
— Pode ficar com meu passaporte, mas não posso continuar usando meu celular? Quero falar com meu tio às vezes. Ele pode estar preocupado com a mudança de planos.
Paolo pensou por um momento e respondeu, relutante:
— Então providenciaremos outro celular para você amanhã. Não terá internet, mas poderá fazer chamadas e enviar mensagens. Podemos ceder nisso.
Diante disso, era difícil argumentar mais. Reprimindo o incômodo, River sorriu como quem se rende.
— Não tenho escolha. Então posso usar o meu só hoje? Estava prestes a ligar para meu tio.
— Ah, não precisa se preocupar. Eu mesmo avisarei Federico que você chegou em segurança.
Que sujeito meticuloso.
No fim, River desligou o celular da gaveta e o entregou a Paolo. Após o desejo de boa noite, a porta do quarto se fechou firmemente.
Depois de tomar banho, vestiu o pijama preparado no armário e examinou o quarto. Ou melhor, procurava escutas ou câmeras escondidas. Uma pessoa normal não faria isso num quarto de hóspedes, mas, considerando que haviam levado seus documentos e celular, precisava ser cautelosa.
Ao confirmar que não havia nada suspeito, finalmente se deitou. A cama era grande demais para uma pessoa só.
Enquanto olhava para o teto escuro, o rosto de Alessandro surgiu em sua mente. O homem que trouxe a amante até sua casa e depois se trancou no escritório sem sequer tocar nela.
Justo quando achava que o entendia um pouco, ele fazia algo incompreensível. Ainda era um homem imprevisível, mesmo depois de todo o esforço que ela havia feito.
Continua…
Tradução: Elisa Erzet