Solstício (novel) - Capítulo 18
— Já chegamos?
— Quase lá, Srta. Gray.
River se recostou no banco do carro e ficou olhando distraidamente pela janela. Já haviam se passado sete horas. Quantas vezes ela já tinha ouvido aquele “quase lá”? Ainda bem que não enjoava em viagens.
Paolo foi o único que veio buscá-la no Hotel Fortuna logo cedo.
Ela estranhou ver o banco de trás vazio, mas ele explicou que Alessandro só sairia mais tarde. Não que isso a incomodasse. Era uma boa oportunidade para explorar a mansão antes da chegada dele.
Onde eles estavam? Parecia ir cada vez mais ao sul.
Não era exagero dizer que a residência particular de Alessandro nunca havia sido exposta. Mesmo tentando desesperadamente espiar pelos vidros escurecidos, era difícil adivinhar a localização exata. Quando tentou abrir a janela com a desculpa de que estava abafado, só ouviu que não podia.
Já fazia um tempo que tinham entrado em uma estrada isolada. Não tinham passado por um portão indicando propriedade privada há alguns minutos? Quão vasta poderia ser aquele lugar para que ela ainda não visse nenhuma construção?
— Vamos chegar antes do pôr do sol, né?
Assim que ela falou em tom de brincadeira, finalmente saiu da boca de Paolo a frase que ela tanto esperava:
— Veja ali. Aquela é a mansão do Sottocapo.
Só depois de atravessar um olival excessivamente denso, aparentemente mal cuidado, River finalmente conseguiu ver a mansão.
Era uma casa antiga, com telhado alaranjado e fachada de tijolos, lembrando uma típica vila aristocrática. O jardim, que se estendia ao longo da escadaria, era cheio de árvores baixas e canais de água, e havia uma pequena fonte ao fundo.
O sedã em que River estava parou no final de uma entrada circular. Ao sair com a ajuda de Paolo, um casal de meia-idade já os aguardava.
— Signorina Gray?
— Lily Gray. Por favor, pode me chamar de Lily.
A mulher soltou uma leve exclamação ao olhar para River. Pela maneira como a examinou com um olhar curioso, parecia surpresa ao ver uma mulher ali.
— Bem-vinda. Sou Marta, e este é meu marido, Silvio.
Eles eram realmente um casal. Uma esposa baixinha e rechonchuda e um marido alto e magro — uma combinação tipicamente vista em filmes e novelas, o que a fez rir um pouco.
— A viagem foi difícil?
O sotaque era estranho, como se não fosse fluente em inglês. River respondeu gentilmente em italiano:
— Foi tranquila. E pode falar em italiano.
— Ah, que alívio. Somos péssimos em inglês. Silvio, leve a bagagem da nossa jovem até o quarto dela.
O homem chamado Silvio pegou a mala de River com Paolo e entrou na mansão. Pelo breve aceno que fez antes de sair, parecia ser naturalmente calado.
— Marta, e Alessandro…
— Ah, ele disse que chegaria mais tarde, não foi? Recebi o recado. Mesmo sendo ocupado, mandar uma mulher sozinha assim é muita falta de consideração. Vou te mostrar o primeiro andar. A casa é bem grande.
O interior era surpreendentemente moderno, ao contrário da sua aparência externa. Pisos de mármore elegantes, paredes recém-pintadas e móveis e iluminação de estilo moderno. Não se via um grão de poeira, como se tivessem se esforçado bastante na limpeza.
Em meio a tantas coisas novas, apenas as obras de arte que decoravam as paredes e corredores exibiam suas antiguidade. Havia várias peças famosas o suficiente para serem reconhecidas à primeira vista.
Como se fosse uma prova de que cada uma era autêntica, câmeras de vigilância estavam instaladas em todos os lugares.
Isso era problemático. Desse jeito, quase não haveria pontos cegos no primeiro andar. Era por isso que ela não tinha visto outros seguranças vigiando o local?
— Não tem muita coisa no primeiro andar. O banheiro fica ali, e esta é a cozinha. Fica à vontade para usar qualquer coisa da geladeira, mesmo quando eu não estiver aqui. E a sala de jantar fica do outro lado daquele aquário.
‘Mesmo quando não estiver aqui.’
Aquilo fez o coração de River afundar. Isso significava que ela ficaria sozinha com Alessandro à noite?
— Vocês não moram aqui com o Alessandro?
— Esta casa é grande, mas não tem muitos quartos. Silvio e eu moramos numa casa separada. Fica a dez minutos de carro, não se preocupe.
Dez minutos de carro era uma distância considerável a pé.
Ela ficou preocupada, mas decidiu ver isso como vantagem para a missão. Mesmo que tivesse conquistado a confiança dele, a investigação tinha que ser conduzida discretamente.
Enquanto isso, Marta batucava no vidro do aquário, dizendo que os peixes reconheciam quem os alimentava. Peixes tropicais coloridos nadaram até ela.
— Olha só, não são fofos? Você gosta de animais?
— Sim, mas nunca tive nenhum.
— Que bom. O Sandro também gosta. Ele costuma observar os peixes deste aquário. Tem até dois cavalos no estábulo. E tem um gato de rua que vive entrando e saindo do jardim, ele pediu para cuidarmos bem dele.
As pessoas na organização ficariam chocadas ao saber disso, mas River não ficou particularmente surpresa.
Quando criança, Alessandro tinha um Rottweiler. O nome dele era “Noce”, que significava noz. Era grande, mas dócil. Eles até passeavam juntos.
— Para onde leva aquela porta?
Havia uma porta que dava para fora na sala de jantar. Olhando de perto, parecia ser a única entrada além da porta da frente.
— Ah, ali fica à piscina. Silvio acabou de limpá-la, então se quiser nadar, é melhor aproveitar antes que o tempo esfrie muito.
Enquanto River assentia lentamente, Marta, usando um sorriso orgulhoso, começou a andar em direção às escadas novamente.
— Aqui ficam seu quarto, o de Sandro e o escritório.
À medida que as portas bem fechadas surgiam, havia um cômodo com pilares arqueados que permitiam uma visão clara do interior. Os únicos móveis eram um piano de cauda branco e um longo sofá colocado atrás dele.
— O escritório fica ao lado, e este é o quarto do Sandro… Um momento, espera!
Marta, que vinha mostrando a casa gentilmente, apressou-se em bloquear River quando ela tentou abrir a porta do quarto. Respirou fundo e falou apressadamente.
— Não se pode entrar no quarto sem permissão. O Sandro não gosta.
Esta era uma informação intrigante. A razão para proibir até mesmo a governanta de entrar não podia ser simplesmente porque ele não queria que sua privacidade fosse invadida. A ideia de que a informação que ela tanto desejava poderia estar ali dentro fez seu coração disparar de expectativa.
Marta levou River para um quarto no final do corredor, não muito longe do quarto de Sandro.
Era espaçoso, iluminado, com roupas de cama macias e cheiro de sol.
Todos os móveis e objetos no quarto de hóspedes eram novos, mas apenas uma coisa, uma elegante penteadeira, tinha uma aparência antiga. Ele tinha o hobby de colecionar móveis antigos? Ele disse que gostava de arte, então talvez se interessasse também por móveis antigos.
— É espaçoso…
River soltou uma pequena exclamação. O banheiro anexo ao quarto tinha um box de chuveiro e uma banheira espaçosa. Era um ambiente mais confortável do que a maioria dos hotéis. Já que era o quarto no final do corredor, seria bom para se comunicar secretamente com Federico.
— Coloquei roupa de cama nova, então vai conseguir dormir bem esta noite. Vamos para o terceiro andar?
River, olhando com pesar para a porta fechada do escritório, seguiu Marta para o terceiro andar. Uma porta de vidro que levava a um jardim no terraço, cheio de várias flores e arbustos, e um espaço inesperado a receberam.
— Há uma capela… anexada à casa.
— Este é o lugar mais bonito da casa. Continua igual a antes da reforma.
O lugar que River realmente queria entrar era o escritório, mas ela abriu a porta sem pensar.
O cheiro de madeira seca dominava o ambiente.
A primeira coisa que chamou sua atenção foi o crucifixo. Abaixo dele, sobre a mesa, estavam estátuas da Virgem Maria e velas, e no centro da sala havia uma longa cadeira de madeira.
River estava prestes a abrir a Bíblia antiga colocada ao lado da estátua da Virgem Maria, mas se conteve. Não queria tocar nos pertences pessoais de Alessandro que pareciam irrelevantes para a missão.
Enquanto a luz do sol, passando pelos vitrais coloridos, adornava lindamente as paredes e o chão da capela, Marta disse animada:
— É lindo, não é? Representa a Assunção da Virgem Maria. O jovem mestre também às vezes…
Mas logo fez uma expressão como se tivesse dito algo que não deveria, e agarrou a mão de River, dizendo que mostraria o jardim no terraço, meticulosamente decorado.
Depois de um pequeno passeio pelo jardim externo, as duas sentaram lado a lado em um banco. Enquanto River olhava para os canteiros de flores que Marta mesma cultivava, esperou o momento certo para falar:
— Hum, estou perguntando só por curiosidade, mas… o que Alessandro costuma fazer em casa? Acho difícil imaginar como ele é, como ele vive no dia a dia.
Marta sorriu e olhou para River com um olhar cúmplice.
— A rotina dele é comum. Quando acorda, dá uma volta no Jardim, se exercita, e depois das refeições, fica principalmente no escritório. Quando o Paolo está em casa, às vezes jogam xadrez.
Sim, era exatamente isso que era estranho. Os hobbies excessivamente refinados e comuns. Claro, nem todo executivo da máfia estava sempre mergulhado em álcool, drogas e mulheres, mas mesmo assim, isso era… supostamente inocente. Sem saber o que se passava na mente de River, Marta disse despreocupada:
— Espero que você se torne uma boa amiga para o Sandro enquanto estiver hospedada aqui.
Uma amiga. Era um pedido difícil de concordar de bom grado, então River sorriu de forma vaga em vez de responder.
Depois de conhecer a casa, as portas bem fechadas permaneceram em sua mente. O escritório e o quarto de Alessandro.
Entre eles, foi dito que o quarto de Alessandro não podia ser aberto sem permissão, então ela queria pelo menos dar uma boa olhada no escritório, se possível, antes da chegada do dono da casa.
— Hum, se não for incômodo, eu gostaria de ver o escritório—
— Oh, veja aquilo!
Assim que River abriu a boca, Marta saltou do banco. Seguindo a ponta do dedo dela, viu um sedã preto se aproximando da mansão ao longe.
Estava óbvio quem era. O dono da mansão finalmente havia chegado.
Continua…
Tradução Elisa Erzet