Solstício (novel) - Capítulo 17
Assim que River voltou para o quarto 817 do Hotel Fortuna, ela procurou a geladeira.
Pegou uma garrafa d’água com gás cortesia do serviço de quarto e bebeu metade sentada. A efervescência forte ardia em seus olhos, mas sentia que não conseguiria recobrar a razão sem fazer aquilo.
“Fique ao meu lado por enquanto.”
“Para onde estamos indo?”
“Para a minha casa.”
O homem que nunca havia levado nenhuma parceira para sua casa convidou River para ir até lá. Na verdade, foi mais como uma convocação, sem se importar com a vontade da outra parte.
Isso a estava deixando louca. Não imaginou que as coisas dessem tão errado.
Originalmente, o papel de River nessa operação era circular perto do alvo e coletar informações aos poucos — não passar meses vivendo com ele. Isso seria demais até para agentes muito mais treinados e experientes do que ela.
Era uma oportunidade de ouro para conseguir informações mais profundas, mas o risco era alto demais. Não era como entrar na boca do leão com as próprias pernas?
Mesmo que completasse a missão, não havia garantia de que conseguiria sair da casa do homem em segurança. No pior dos casos, morreria de forma miserável e, se tivesse sorte, sairia viva, mas teria que abrir as pernas sempre que ele quisesse.
Ela não iria para a casa de Alessandro. Não podia aceitar isso, de jeito nenhum.
Queria vingança, não morrer. A vingança era importante, mas achava que era certo colocar a si mesma em primeiro lugar. Afinal, os vivos tinham que seguir vivendo. E…
Todos os seus instintos e memórias não estavam gritando?
Que ela não deveria ir.
Ser covarde era cem vezes melhor do que virar um cadáver. Agora era a última chance de sair.
Ela terminou o resto da água com gás, então abriu a clutch e pegou o celular.
Só depois de respirar profundamente conseguiu ligar para a base.
[River? Está ligando mais cedo do que o normal?]
A voz de Nate soava um pouco rígida. Ele devia ter achado estranho aquele horário.
— Tenho muita coisa para falar. Primeiro… Alessandro me levou para a reunião de executivos.
[Você foi para a reunião de executivos? Ele nunca levou uma parceira para um evento de negócios antes.]
— Foque no que estou dizendo. Eu sei que é difícil de acreditar, mas é verdade.
[Desculpa, não estou duvidando. Continue.]
River se acalmou várias vezes enquanto transmitia as informações que ouvira na reunião executiva: o confronto com a Máfia Vermelha, a dispersão do depósito de armas e a divisão da organização em duas facções.
— …Em muitos aspectos, é um grande avanço. Nem sabíamos que havia uma divisão interna depois do desaparecimento de Antonio.
Foi preciso muita coragem para fazer o último relato:
— E o Alessandro… sugeriu que eu ficasse na casa dele.
[ …O quê?]
— Por três meses. Até Lily Gray voltar para os Estados Unidos. Até lá… ele quer que eu fique ao seu lado.
O silêncio demorou. Quando ela já estava prestes a implorar por uma resposta, ouviu a voz relutante de Nate.
[Isso é realmente… só posso dizer que é uma situação inesperada.]
— É mais uma ordem do que um convite. Amanhã tem outra reunião com os executivos e um almoço rápido, e ele disse que viria me buscar quando esse compromisso terminar.
[O que você respondeu?]
— Eu apenas disse que entendi, mas…
Agora ela realmente tinha que dizer. River expressou sua opinião com mais firmeza e clareza do que nunca.
— Eu quero sair agora.
[ … ]
— Eu sei que é uma missão importante. Mas se eu soubesse que teria que ficar ao lado daquele desgraçado 24 horas por dia, eu nem teria começado. É óbvio o que vai acontecer se eu entrar naquela casa!
[River, você está alterada. Se acalma um pouco.]
— Não é isso. Eu já pensei o suficiente, então me escuta, porra!
River percebeu que cometera um erro. Pensou que tinha dito com calma, mas o que saiu de sua boca foi um grito impaciente.
Talvez entendendo seu desespero, Nate disse em tom tranquilizador.
[Tudo bem, eu entendo. Vou reportar aos superiores e transmitir sua opinião. Te retorno o mais rápido possível, então não se preocupe tanto, ok?]
— …Certo. Por favor.
Depois de terminar a ligação, River finalmente tirou a roupa. Um vestido curto amarrotado no peito e na barra, um bralette e uma calcinha com uma mancha úmida.
Olhar para o próprio corpo nu a fez sentir-se ainda mais confusa. As marcas do próprio batom deixadas pela boca do homem na aréola do seio esquerdo e acima dela pareciam gritar que ela deveria parar por ali.
Teria sido mais fácil se o alvo fosse outro membro da organização. Ela poderia ter suportado fazer sexo ou usar sedução barata, mesmo não querendo. Pelo menos conseguiria prever o comportamento deles.
Naquele dia, River finalmente teve certeza: ela não tinha confiança para lidar com esse alvo.
Mas quando encarava Alessandro, os olhos daquele homem…
Sentiu medo.
Não tinha confiança de que conseguia decifrá-lo, mas parecia que ele sabia tudo sobre ela.
Temia que, se desse mais um passo, ele a engoliria.
Nunca deveriam ter se encontrado.
Precisava parar agora. Mesmo que fosse uma retirada vergonhosa, mesmo que Jonathan Spencer a repreendesse, não importava.
Aquilo não era desistir — era pedir socorro.
Mas uma hora, duas horas, e meia-noite passou sem o telefonema de Nate.
Suspender a missão não era uma decisão simples. Como era uma operação conjunta entre várias organizações, havia muitas aprovações necessárias. Por isso demorava, e River tentou se acalmar enquanto ficava acordada até o amanhecer.
— O que você está dizendo agora?
[Continue a missão. Essa é a ordem dos superiores.]
A mão segurando o telefone tremeu. Ela não voltaria para a central? As esperanças de River foram destruídas.
Ela acreditava que Nate — ou alguém — viria buscá-la no hotel naquela manhã. Achava que finalmente se livraria daquela missão louca. Mas por quê… por que não podia?
Sua esperança se despedaçou.
— Você está brincando comigo? Eu não aguento mais isso. Me tirem daqui. Eu disse que ia desistir…!
Foi como ser atingida na nuca. Mesmo sabendo que a missão ignorava direitos humanos desde o início, ela não esperava que não a deixassem se retirar nem mesmo nessa situação.
[Escuta, River. Eu sabia que seria difícil lidar com imprevistos se isso acontecesse…]
Ele respirou fundo.
[Você sabe, Alessandro levar alguém para casa é algo sem precedentes. Isso é uma oportunidade divina.]
— Você acha que eu não sei disso? Mas também é muito mais perigoso! De que adianta vingança se eu morrer?
Ela socou o colchão, mas não aliviou nada. Já estava quase chorando.
— Eu pensei que precisava continuar pelos meus pais, pela sua mãe… mas isso… eu não consigo mais!
Seu coração doía. Não era como se ela estivesse desistindo porque queria. Não foi uma decisão fácil, e ela sentia nojo dos superiores na central que a estavam empurrando para a morte com as palavras “boa oportunidade”.
[Se perdermos essa oportunidade, pode levar anos para encontrar Antonio. Enquanto isso, eles continuarão vendendo armas e produzindo drogas.. Você não quer que surjam vítimas como nós, certo?]
Sim, ela não queria isso. Mas, certamente, ele havia prometido…
— Você disse para eu só avisar se quisesse desistir. Falou que faria de tudo para me tirar daqui, você…
[River.]
Sua voz falhou. Ela mordeu o lábio, tentando não chorar. Esperava que ele dissesse que viria buscá-la imediatamente.
Mas a resposta foi cruel.
[Acalme-se e pense racionalmente. Isso é incrível. Nem mesmo os membros da organização podiam ir àquela casa como queriam. Nós nem sabíamos a localização. Você é a primeira a entrar lá.]
A atitude de Nate também foi decepcionante. Ele sentia muito, mas continuava persuadindo-a a continuar a missão conforme as instruções dos superiores.
Ninguém estava do lado dela naquele tabuleiro de xadrez.
[…Desculpe, River. Realmente.]
Ela odiou Nate ainda mais por tentar persuadi-la constantemente do que por não poder retornar. Foi uma tola por acreditar que ele a protegeria mesmo que as coisas dessem errado.
Engolindo a tristeza crescente, River mal conseguiu falar.
— Eu posso morrer. Você realmente não se importa? Prometa que vai me salvar de alguma forma, Nate.
Mas a resposta que veio depois do silêncio foi cruel demais.
[Dê um jeito de sobreviver, River. Eu sei que você consegue.]
— …Hã?
Nate Miller, você está empurrando a mulher que perseguiu por anos e confessou seus sentimentos para a morte assim.
Que tipo de homem manda a mulher que ama para a morte?
Pensando bem, Nate sempre conseguia o que queria. Desta vez, deve haver algo que ele queira desesperadamente. Algo mais do que apenas vingança por sua mãe, talvez sua carreira.
Se River morresse, a missão não seria totalmente perdida se houvesse algum resultado.
Enquanto a missão não fosse suspensa, ele não tinha nada a perder. Nate tinha colocado sua afeição, River, na balança e calculado o lucro e a perda.
De repente, ela perdeu as forças nos braços e nas pernas. Sentiu um vazio infinito e uma tristeza profunda. Não demorou muito para perceber que esse sentimento era de traição.
— Certo, eu vou. Para a casa de Alessandro.
Mal conseguia respirar, finalmente sorriu brevemente.
— Vou entregar os relatórios futuros através do Federico. Alessandro não impediria sua amante de contatar o tio, mas não toleraria que ela conversasse com outros homens ao telefone.
Nate não disse nada. Ele sabia que pedir desculpas agora seria hipocrisia.
A ligação terminou assim.
Depois de desligar, River decidiu cortar outras coisas de si mesma também.
Arrependimento, afeto, esperança, Nate.
Todos eles.
Percebeu tarde demais que eram coisas que nunca lhe foram permitidas em primeiro lugar.
Continua …
Tradução Elisa Erzet