Solstício (novel) - Capítulo 20
— Você já está acordada, Lily? Teve algum desconforto durante a noite?
Logo cedo, Marta cumprimentou River, que havia descido para o primeiro andar, com um sorriso acolhedor. No entanto, Alessandro, Paolo ou Silvio não estavam à vista. Marta, notando River olhando ao redor, riu e acrescentou:
— Sandro saiu para se exercitar. Eu estava prestes a preparar o café da manhã para coincidir com o retorno dele. Me avise se estiver com fome. Posso fazer um ovo pochê simples ou algo assim.
— Estou bem, vou comer com o Alessandro. Parece que você está preparando o café da manhã, gostaria de ajuda?
— Como é gentil da sua parte. Então, você pode cortar essas alcachofras? Vou fazer uma sopa com cevada, ervas e alcachofras. Não é um prato de que você não goste, é?
— Como de tudo. Não sou exigente.
River se aproximou prontamente de Marta e começou a picar finamente as alcachofras. Originalmente, planejava se esgueirar até o escritório, mas a porta estava trancada, e havia até uma câmera de segurança instalada na entrada. Em vez de vagar sem rumo pela grande casa ou ficar trancada no quarto, aproximar-se de Marta, mesmo que um pouco, seria mais útil depois.
— A casa é bem grande, não é difícil cuidar da mansão?
A mansão era, afinal, um bom assunto para puxar conversa. Marta parecia ter bastante afeição pelo lugar, então, se fosse questionada sobre algo de que gostava, talvez respondesse com mais detalhes.
— De jeito nenhum. Sandro disse que contrataria mais alguém porque estava faltando gente, mas isso não é necessário. Meu marido e eu já conseguimos nos orientar nesta casa de olhos fechados.
Como esperado, Marta começou a falar animadamente sobre a casa sem parar.
— Passe um tempo com o Sandro no jardim da cobertura esta tarde. Há uma pequena fonte de pedra lá, e às vezes dá para ver pássaros vindo beber água, e a paisagem é muito bonita.
— Mas ele normalmente parece ficar no escritório.
— Geralmente é assim. Ele está sempre ocupado com várias coisas. Mas agora que Lily está aqui, ele não deixará de arrumar tempo, por mais ocupado que esteja, não é?
— Pensando bem, ainda não dei uma olhada no escritório. Posso entrar um pouco antes da refeição?
— Bem, você deveria perguntar diretamente ao jovem mestre.
Marta disse casualmente enquanto cortava o alecrim, mas River conseguia perceber que era uma maneira indireta de dizer não.
Se o escritório fosse um lugar onde pudesse entrar livremente, Marta a teria levado até lá antes. Mas dizer especificamente para perguntar ao Sandro… significava que ele não gostava que ninguém entrasse não só no quarto, mas também no escritório.
No entanto, se havia alguma esperança, talvez a barreira para o escritório fosse menor do que a do quarto.
O que deveria fazer para conseguir permissão para entrar livremente ali? Provavelmente não seria fácil. River pensou no que poderia despertar o interesse de Alessandro e mudou de assunto.
— Alessandro comprou esta casa?
— Não, Sandro herdou a casa da mãe falecida. Quando era jovem, vinha para cá com ela nas férias de verão. Ele era tão pequeno naquela época… o tempo realmente voa.
— Como era a mãe dele?
Na verdade, ela tinha conhecido a mãe dele antes. Era uma mulher bonita com cabelo vermelho marcante, mas parecia um tanto fria e pálida. A única coisa que Alessandro, que se parecia com Antonio, herdou da mãe foram aqueles olhos azuis penetrantes.
Ela se lembrou do nome esquecido enquanto lia os arquivos de dados na sede antes de ser designada para a missão. Lucrezia Ranieri. O nome de solteira não estava registrado.
Ela era esposa de Antonio, mas, por ser uma pessoa comum, não havia muitas informações detalhadas, e o fim do arquivo dizia que sua morte fora confirmada cerca de 15 anos atrás. Provavelmente não tinha nem quarenta anos.
Marta não respondeu. River pensou que talvez ela não tivesse ouvido por causa do som da água fervendo, então colocou as alcachofras picadas em um prato e acrescentou em tom mais animado:
— Ela parece ter sido uma boa pessoa. Por acaso—
— Desculpe interromper, mas Lily, há regras que você deve seguir nesta casa.
Marta, largando a espátula de madeira, falou com seriedade.
— Primeiro, você não deve entrar no quarto do Sandro. Segundo, não deve contar a ninguém o que acontece aqui, mas acredito que Paolo já tenha explicado isso suficientemente. E por último…
Um pedaço de alcachofra que ela ainda não tinha colocado no prato foi esmagado em sua mão. River, surpresa com o comportamento sério dela, ficou tensa sem perceber.
— Você nunca, sob nenhuma circunstância, deve mencionar a mãe dele na frente do jovem mestre. Entendeu?
— …Desculpe, vou me lembrar disso.
Só depois dessa promessa Marta voltou a mexer a panela. Um breve silêncio constrangedor se seguiu, e então, com um tom um pouco mais suave, ela falou novamente:
— Eu que peço desculpas por trazer isso de repente. Mas Lily, você não é apenas uma convidada hospedada aqui por um dia ou dois, e acima de tudo, a mãe do jovem mestre…
No entanto, Marta não conseguiu terminar a frase. Alessandro, que havia terminado seu exercício, entrou pela porta naquele exato momento. Ele assentiu levemente para River, que ajudava na cozinha, e subiu para o segundo andar para tomar banho.
🌸🌸🌸
[Primeiro, estou relatando que Bambino e Dolce foram unidos com sucesso…]
Uma voz animada soou nos ouvidos de Nate. Era a primeira atualização desde que ele concordara em receber relatórios da missão através de Federico. O tom, indistinguível entre o de um policial ou de um mafioso, e as metáforas vulgares não eram nada agradáveis de ouvir.
[E parece que tiraram a tigela de comida da Dolce. Não vou vê-la com tanta frequência como antes.]
— Federico, por favor, evite metáforas excessivas. Esse não é o codinome que havíamos combinado originalmente.
[Está dizendo que não consegue me entender, então devo falar claramente? Tudo bem, Dolce teve o telefone fornecido pela central tirado. Parece que deram a ela outro telefone para me contatar, mas provavelmente é uma porcaria. De qualquer forma, os relatórios serão menos frequentes.]
Nate soltou um suspiro. O telefone fornecido pela sede tinha muitas ferramentas úteis para a missão, mas todas se tornaram inúteis. Então tudo o que restava era a habilidade individual de River. Dependia de quão bem ela lidaria com o alvo e quanta informação ela conseguiria extrair.
— E quanto à localização da mansão?
[Se eu soubesse, já teria informado. Ele nunca me levou até lá. Só sei que fica em algum lugar do sul. Bem, na verdade, há apenas duas pessoas que vão lá com frequência, além do Bambino.]
Duas pessoas, ele conseguia adivinhar quem eram. Um era o consigliere, e o outro era Paolo Verolini, o braço direito.
Eles também haviam enviado pessoas, mas sem resultados. Damiano era bom em detectar agentes, e Paolo nunca se afastava do mestre. Tentaram até enviar um homem como último recurso, além de mulheres, mas ele sequer deu atenção.
O olhar de Nate se voltou para o quadro branco na sala de operações. Um mapa da Itália em forma de bota. Um ponto vermelho brilhante marcava onde o GPS colocado no telefone havia sido cortado pela última vez.
Como o sinal desapareceu pouco depois de saírem de Milão, parecia que haviam feito algo no próprio carro…
Nesse momento, as palavras de Federico irritaram Nate.
[A propósito, o que você fez com a Dolce para ser rejeitado tão “sem piedade” de novo? Ouvi dizer que ela pediu para mudar a forma de relatório antes mesmo de perder o celular.]
— O quê—
[Veja… eu também ouço coisas sobre o que acontece na central.]
Jonathan. Na mente de Nate, ele era a única pessoa na sede que poderia ter divulgado o relacionamento entre River e ele. Ele deve ter falado sobre River à vontade, até mesmo remexendo na história antiga. Dizem que os semelhantes se atraem, eles pareciam se dar muito bem.
[Enfim, ela é bonita, mas bem feroz. Já que se arrumou para ser observada e tocada, não deve ter sido cansativo, mas ela olhou com tanta intensidade…]
— Evite conversas pessoais durante a missão. Antes que eu reporte isso aos superiores do seu governo.
[Que chato. Bem, vamos ter uma conversa oficial então? Bambino e Dolce, eles estão juntos, mas ainda não cruzaram. Espero que tenham filhotes em breve.]
Nate parou por ali. Se respondesse agora, apenas xingamentos severos seriam trocados. Ele sabia por que Federico era o único espião que havia sobrevivido depois de ser infiltrado na organização.
Porque ele era o mesmo tipo de ser humano desprezível e terrível que aqueles caras.
Por mais impessoal que fosse a missão, não havia como comparar um agente a um animal. Só então lembrou da primeira impressão de River sobre Federico — que ele era terrível e grosseiro.
E o que ele respondeu na época? Que parecia competente, então seria bom se aproximar dele?
[E aqui vai um conselho: não aceite mesmo que a Dolce volte e se jogue em você nua. Seria um problema se você acabasse transando com nossa agente pura e surgisse um bebê loiro de olhos azuis.]
Federico finalmente tinha passado dos limites. Ele queria xingá-lo. ‘Cala a boca, cala a porra dessa boca! Droga, cala essa boca!’
Mas sentiu o olhar de Jonathan sobre ele do outro lado. Aquele bastardo sorrateiro. Não podia mostrar fraqueza. Precisava esconder até a menor fissura diante de alguém que usava as fraquezas alheias como arma.
— …Algum outro assunto?
Pelo comunicador, ouviu a risada de Federico. Após a resposta final de que não havia mais nada, restou apenas o som eletrônico indicando o fim da conexão, repetindo-se de forma constante.
Soava como um alarme zombando do erro que ele havia cometido com River.
Continua…
Tradução: Elisa Erzet