Solstício (novel) - Capítulo 14
O hotel onde ele estava hospedado era incomparável ao Fortuna Hotel, que parecia que desabaria a qualquer momento.
Enquanto River atravessava o lobby amplo e sofisticado, os funcionários se curvavam respeitosamente. Mas, estranhamente, não havia outros hóspedes à vista. Certamente o homem não teria alugado o hotel inteiro apenas para trazer uma mulher.
No elevador, River segurou sua clutch com força. ‘Por favor, que eu consiga alguma coisa com isso hoje.’ Mas, ao contrário do que esperava, um dos membros que os acompanhava apertou o botão do terceiro andar.
Normalmente, hotéis não têm quartos nos andares mais baixos…
Ao descer no terceiro andar e segui-lo em silêncio, ela notou homens de terno preto. Definitivamente não eram funcionários do hotel.
Federico também estava entre eles. Lançou a River um olhar significativo. Seus olhos pareciam questionar por que ela, que deveria estar de cama, estava ali.
‘Eu também gostaria de saber, seu pervertido.’
Como esperado, Alessandro parou diante de uma sala de conferências. O rosto de River empalideceu ao ficar diante da porta firmemente fechada.
Ele não a chamara para sexo. Alessandro a trouxera para uma reunião do conselho. Só então ela percebeu por que não viu outros hóspedes. Por motivos de segurança, esse homem provavelmente alugara o hotel inteiro.
Ele sempre fora imprevisível, mas aquilo era demais. O que estava pensando ao trazê-la ali? Lily Gray era uma pessoa comum, uma curadora e apenas uma parceira casual, mesmo que o tio fosse colaborador da organização.
Dois membros da gangue abriram a pesada porta. Alessandro, que entrara antes dela, virou-se. Seus olhos encontraram os de River, que permanecia parada, incapaz de segui-lo.
— Hum, está tudo bem eu entrar…?
Era uma pergunta sincera. Quem levaria uma mulher que não tem nada a ver com tudo isso como acompanhante para uma reunião do conselho da Máfia?
Claro, seria uma grande oportunidade para a agente infiltrada River Winstead, mas isso era mesmo aceitável? Ou ele tinha outras intenções?
— Me siga.
Ao comando firme, suas pernas, antes imóveis, moveram-se sozinhas. Se ele mandava seguir, ela precisava fazer. Não havia opção.
Quando Alessandro entrou na sala, todos os presentes se levantaram. A visão dos executivos se levantando para cumprimentá-lo era impressionante.
Não era apenas por ser o Sottocapo. Toda aquela reverência deixava claro sua posição como sucessor do pai, Antonio.
— Bem-vindo, Sottocapo.
Um dos executivos, um homem de cabelos brancos que parecia veterano, cumprimentou-o em nome dos demais.
Alessandro acenou em vez de responder e caminhou até o assento vazio.
Havia apenas uma cadeira sobrando. O dono daquele lugar deveria ser Alessandro. River ficou um ou dois passos atrás dele. Os olhares que recaíam sobre ela eram problema dela.
Um dos membros que guardava a entrada perguntou:
— Devo trazer outra cadeira?
— Não.
Quando se perguntava se deveria simplesmente ficar em pé, ele agarrou seu pulso e a puxou.
‘Esse homem ficou louco?’
Quando percebeu, estava sentada no colo de Alessandro. A respiração dele em seu pescoço, o peito contra suas costas e a firmeza de suas coxas eram claramente sentidas sob suas nádegas. Seria menos constrangedor sentar no meio da mesa do que aquilo.
Ela queria simplesmente sair dali. Se não fosse pela missão que a prendia, e se Alessandro não tivesse envolvido firmemente seus braços em volta de sua cintura.
Era a única mulher na sala de conferências. Surpreendentemente, não houve objeções dos presentes. Todos toleravam aquele comportamento nada convencional em uma reunião tão importante. Será que ele tinha o estranho hábito de levar a parceira às reuniões e fazê-la sentar-se em seu colo?
Mas a dúvida logo desapareceu. Era evidente que aquilo também era novidade para os executivos. Pela atmosfera estranhamente rígida, ela não era a única constrangida.
Mas quem ousaria contrariar o sucessor? A base de todas as regras e leis impostas ali era aquele homem.
— Vamos começar.
No clima tenso, Alessandro iniciou a reunião com calma.
— …Houve um pequeno impasse com a Máfia Vermelha, mas chegamos a uma negociação adequada e encerramos o assunto.
— Não foi flexível demais para chamar de adequada?
— O que poderíamos fazer? Eles lideram a indústria de armas.
— Malditos russos!
Enquanto a reunião prosseguia a todo vapor, River sentada em seu colo ouvia as informações que eram despejadas. Havia dados que nem a polícia havia descoberto. Era um ganho inesperado.
— Está ficando cada vez mais difícil trazer armamento. Também está mais fácil para a polícia nos seguir, e já não há lugares adequados no país para armazená-las em grande quantidade.
— E se movermos os depósitos para ilhas em vez de áreas continentais?
Alessandro participava da conversa ocasionalmente. O problema era que, cada vez que falava ou movia levemente o corpo, sua coxa, em contato com as nádegas de River, também se movia.
Mais precisamente, “algo” próximo à sua coxa esquerda continuava a se fazer presente. A princípio, ela pensou que ele tivesse colocado o celular no bolso da calça, mas, infelizmente, definitivamente não era tão grosso ou comprido quanto aquilo.
— A propósito, estamos procurando ilhas desabitadas ou com poucos moradores desde o mês passado. Já estamos construindo armazéns secretos em alguns locais.
— Se houver um local adequado, garantam-no imediatamente. Não importa se estiver fora de nossas águas territoriais, desde que o sigilo seja mantido.
Mesmo em meio à sua mente atribulada, ela tentava absorver o máximo de informações possível. Ilhas desabitadas ou com poucos habitantes. Como havia muitas no Mediterrâneo, precisava restringir as áreas. Itália e países vizinhos… Talvez estivessem voltando a atenção para Grécia e Croácia, onde a recessão persistia.
Tentava se concentrar apenas na reunião, mas dizem que o tato é mais sensível que a audição. Era impossível não voltar sua atenção para aquela área. O volume sob suas nádegas e coxas. River lutava para não tocar “aquilo” de forma alguma, enquanto Alessandro permanecia concentrado na reunião.
Além disso, seus braços e pernas estavam rígidos de tanto tempo sentada nessa posição tensa por mais de uma hora. Dificultando manter uma postura ereta. Se estivesse sentada numa cadeira, poderia se apoiar no encosto, mas se inclinasse para trás agora, seria completamente envolvida por ele. Não queria comprovar na prática o ditado de que o peito de um homem é macio quando não está contraído.
— Há algo mais que queriam relatar ou discutir?
A reunião finalmente chegava ao fim. Pela primeira vez, ela ficou feliz em ouvir a voz de Alessandro. Infelizmente, entre os muitos tópicos, não ouvira nada sobre o paradeiro de Antonio.
Até que alguém, cautelosamente, pediu a palavra.
— Ainda não houve contato do Don Antonio?
A sala ficou assustadoramente silenciosa. River, que até então permanecera imóvel como uma boneca, estremeceu. Era a chance de ouvir as informações que tanto queria sobre Don Antonio.
No silêncio, Alessandro abriu a boca.
— Por que pergunta?
Não parecia estar pressionando, mas havia frieza em seu tom. O silêncio caiu novamente. River percebeu que todos lutavam para não ofendê-lo.
O rosto de quem mencionara Antonio empalidecia cada vez mais. Ainda assim, não recuou imediatamente. Havia determinação em seus lábios trêmulos.
— Já faz cinco anos desde que Don Antonio desapareceu. Nenhum de nós falou diretamente com ele ao telefone.
Se perguntou se aquilo era algo que havia sido combinado previamente entre os executivos. Alguém assumiria o risco e perguntaria a Alessandro.
— O Consigliere também não tem dito nada ultimamente, e a última vez que ouvimos sobre o paradeiro de Don Antonio foi há um ano. Eu pretendia perguntar nesta reunião, se possível—
— Então?
Ela sentiu que compreendia o que era subjugar alguém sem usar armas.
Alessandro pode até estar apenas perguntando, mas, para quem ouvia, parecia que ele decidiria se mataria ou não após ouvir o que considerasse absurdo.
— Há algo a dizer ao meu pai sem passar por mim?
— N-não, não é isso…
O silêncio se prolongou. Alessandro, que observava calmamente os minutos passarem no relógio eletrônico da parede, levantou River primeiro e disse:
— Está na hora. Tenho outros compromissos, então encerraremos a reunião de hoje por aqui. Amanhã continuaremos o resto da discussão.
Sua respiração tocou a orelha dela. O homem inclinou a cabeça e sussurrou suavemente:
— Vamos subir para o meu quarto, Lily.
Continua…
Tradução: Elisa Erzet