Solstício (novel) - Capítulo 12
— O-o quê? O que você está olhando?!
Nate enxugou os olhos com o cobertor e gritou. Seu coração batia descontrolado. Claro que estava assustado. Uma garota com uma expressão vazia o encarando no meio da noite não era algo normal.
— Você não parava de chorar.
— E daí? Está me mandando ficar quieto?
Ele apenas se sentia frustrado e irritado. Sentia que não aguentaria a menos que gritasse, batesse os pés ou descontasse sua raiva em alguém.
— Você não sabe como eu estou me sentindo agora! Vai embora, sua esquisita!
Gritar não foi o bastante. Nate agarrou qualquer coisa que encontrou e arremessou: um ursinho de pelúcia, um despertador e até a almofada que sua mãe havia bordado com um caminhão de bombeiros. As emoções transbordaram, e as lágrimas escorreram pelo seu rosto.
Sua mãe estava morta. Tinha ido embora do mundo. Ele nunca mais ouviria sua voz chamando seu nome, nem seria envolvido por seus braços macios. Essa garota não sabia de nada, por isso conseguia ficar ali tão despreocupada. Porque ela não conhecia esse tipo de dor…
Então, a garota, que tinha escutado em silêncio o desabafo choroso de Nate, abriu a boca.
— Meus pais… também faleceram.
— …O quê?
— Um mês atrás. No Natal.
Ele ficou surpreso. A princípio, honestamente pensou que ela estava mentindo, porque ele nunca a tinha visto chorar.
Mas no momento em que encontrou aqueles olhos grandes, nada infantis, Nate percebeu que era verdade.
— Minha mãe e meu pai não tiveram funeral… Também não existe túmulo. O tio Ben disse que não havia nada para colocar no caixão. Tudo foi queimado.
Não. O caso de Nate era melhor. Pelo menos ele ainda tinha o pai e pôde se despedir da mãe.
Mas essa menina esquisita havia perdido os pais, e como não tinha parentes para cuidar dela, seu pai a trouxe para cá. Nate sentiu que não deveria chorar quando ela não derramava sequer uma lágrima.
— Você não é o único que ficou para trás. Eu também sou uma órfã solitária.
Como ela podia ser tão calma? Mas ele parecia entender isso agora.
— Quer dizer… não pense que está sozinho. Ninguém gosta de ficar sozinho.
River estava claramente tentando confortá-lo, dizendo que ele não estava sozinho porque ela havia passado pela mesma grande perda.
Com essas palavras, River arrumou o cobertor e se deitou novamente na cama para dormir. No entanto, ela não virou as costas como havia feito antes.
No dia seguinte, quando acordou pela manhã, o lugar ao seu lado já estava vazio.
Quando desceu para o segundo andar, River já estava sentada quieta à mesa. Ao gesto do pai para que se sentasse, Nate coçou a nuca algumas vezes antes de sentar em frente a ela.
— Coma tudo. Depois eu levo vocês para a escola, então escovem os dentes quando terminarem.
Torradas, bacon, ovos com a gema mole. O pai colocou um prato grande diante de cada criança e entrou no banheiro. Logo, o som do chuveiro pôde ser ouvido.
River também era habilidosa com seu garfo. Ela colocou facilmente o ovo meio cozido na torrada sem quebrar a gema. Com apenas o som dos talheres batendo ocasionalmente, Nate hesitou, comendo sem realmente comer, e então falou com dificuldade.
— Ei, é… hm.
— Meu nome é River. River Winstead.
— …Tá bom, River.
Só então River parou de comer e encarou Nate atentamente. O garoto engoliu seco ao encontrar os olhos escuros sob os longos cílios. Não sabia por que, mas seu coração de repente começou a bater rápido. Era como se tivesse acabado de correr na aula de educação física.
— Desculpa por ontem. Eu falei coisas ruins. Não vou fazer isso de novo.
River piscou algumas vezes e assentiu como se não fosse nada demais. Em seguida, deu uma grande mordida na torrada.
Depois daquele dia, Nate sempre chamou River pelo nome.
Talvez tenha sido a partir dali, quando seus olhos começaram a ser atraídos por aquela criança distante e, ao mesmo tempo, tão próxima.
Quando encontraram um ponto em comum como vítimas da mesma tragédia. Quando sentimentos desconhecidos se transformaram em afeição e, pouco a pouco, passaram a se infiltrar em um amor habitual.
Era o começo de um longo amor não correspondido.
🌸🌸🌸
“Ouvi dizer que você foi rejeitado de novo?”
Nate levantou as sobrancelhas para o colega de quarto, que bateu em seu ombro. Parecia que o que aconteceu no almoço já havia se espalhado por todos os cantos.
“Onde diabos você ouviu isso?”
“Onde mais? No refeitório do dormitório. A julgar pela sua cara, deve ser verdade.”
Depois de um longo suspiro, Nate admitiu que o boato era verdadeiro.
“É. Fui rejeitado de novo. Feliz agora? Isso faz você se sentir melhor?”
Aquela era sua segunda declaração. A primeira foi na noite do baile de formatura do último ano do ensino médio. Claro que também foi rejeitado naquela época, e agora não foi diferente.
River disse que tinha medo de um relacionamento profundo além da amizade. Por isso, disse que não daria certo e que sentia muito. Era uma resposta meio esperada, meio destruidora de expectativas. Ele disse que esperaria até que ela estivesse pronta, mas, ao contrário de sua resposta ousada, seu coração estava infinitamente complicado.
Tinha até escolhido deliberadamente a mesma universidade, mas, mesmo depois de tanto tempo, não havia sinal de que ela aceitasse seus sentimentos. Em três anos, Nate chegou até a ganhar o apelido de “Playboy Casto”.
“Não entendo. O que você gosta tanto nela para ficar correndo atrás?”
“Isso não é da sua conta.”
“O rosto? O corpo? Não pode ser a personalidade. Ela é meio cínica.”
“Cala a boca, Peter. Só eu preciso saber do charme da River.”
“Você está muito envolvido. Ainda não desistiu?”
Ele estava mesmo muito envolvido; era difícil negar. Um sorriso amargo se espalhou pelos lábios de Nate.
“… Estou falando sério. Não tenho a menor intenção de desistir.”
Uma piedosa simpatia começou a se instalar nos olhos de Peter enquanto olhava para Nate. Ele, irritado por um cara que também não tinha namorada estar olhando para ele daquele jeito, chutou a bunda do amigo.
“Ei, isso doeu! Você acabou de me chutar?”
“Foi sem querer. Não sabia que sua bunda estava aí.”
Peter, esfregando o lugar atingido, deixou a brincadeira de lado e fez uma expressão séria.
“Vamos ao Dennis. Eu pago uma bebida pra você.”
“Agora?”
“Você não tem mais aula hoje, tem? Não quer uma cerveja?”
Não que não quisesse uma bebida. Mesmo fingindo estar bem, por dentro estava doendo. O bar numa sexta-feira à noite estaria lotado, mas isso o tornava o lugar perfeito para esquecer a dor da rejeição.
“Tá bom, vamos.”
Mas a música alta e as luzes chamativas não eram suficientes para atrair a atenção de Nate. O dono do bar, que estava limpando os copos, reconheceu um cliente habitual e o cumprimentou alegremente.
“Quanto tempo! Achei que você não viria por causa das provas.”
“Faz exatamente dois dias e uma hora desde que você disse isso. Quarenta e nove horas é bem perto de ‘um tempo’, não acha?”
Peter alegremente sentou-se primeiro. Logo, Nate também pegou uma cadeira.
“O que vai querer? Você parece meio para baixo, Playboy Casto.”
Nate não estava com ânimo para discutir, então apenas suspirou. Peter, que não aguentou assistir calado, deu um tapinha nas costas do amigo.
“Esse cara precisa de algo bem forte hoje. Levou um fora da mesma garota pela segunda vez.”
“O quê? Quer dizer que ele foi rejeitado, não que ele rejeitou? As clientes do nosso bar vão chorar.”
Ele parecia um playboy, mas, na realidade, era uma muralha de defesa no nível de um defensor da virgindade antes do casamento. Por isso era chamado de Playboy Casto. O apelido que o dono do bar chamava de brincadeira inesperadamente ficou famoso.
Por que um apelido desses sequer existia? Nate nunca se envolveu com as mulheres que se aproximavam dele. No Dennis, seu comportamento era o mesmo. Ele vinha ao bar e simplesmente bebia.
“Esquece isso, só me dá algo forte, qualquer coisa está bom.”
O dono encheu o copo rapidamente. A bebida queimou sua garganta, como se tivesse realmente a intenção de lhe dar algo com alto teor alcoólico.
Esquecer a dor com mais dor. Era um jogo perdido, pensou Nate, ao esvaziar o terceiro copo.
“Oi, docinho.”
Ao ouvir a voz desconhecida, ele levantou a cabeça e viu uma figura sedutora parada ali. Cabelo preto e sobrancelhas grossas. Ela era uma beleza armada com um charme pegajoso.
“Tem um lugar ao seu lado?”
“… Tem.”
Peter não estava em lugar nenhum; ele havia desaparecido. Normalmente, Nate teria deixado aquele lugar e fugido também…
Era por causa do álcool? Ele não sentia vontade.
“Seu amigo parece estar se divertindo ali sozinho.”
A mulher parecia estar observando Nate desde o começo. O lugar para onde ela apontou era onde Peter segurava um taco de sinuca, fazendo uma pose bem legal. Era uma partida valendo aposta? Enfim, aquele cara gostava demais de apostar.
A mulher sentou-se no lugar de Peter e se inclinou em direção a Nate. Ele apenas a encarou, sem desviar. A mulher pediu uma cerveja e ofereceu um consolo clichê.
“Você parece deprimido.”
Ela passou os dedos, com unhas decoradas, levemente pelo braço de Nate. Sim, aquela era a reação de sempre. Para ele, que tinha vivido como um cara popular a vida toda, a rejeição de River era uma ferida profunda no coração.
“Um pouco.”
Com uma resposta curta, ele assentiu algumas vezes. A mulher à sua frente era tão bonita quanto River. Pensando bem, parecia ter um rosto mais sensual. Ainda assim, Nate gostava mais de River. Aquela que era tão próxima quanto família, mas nunca seria mais que uma amiga.
Mesmo nesta situação, ele estava pensando na mulher que o rejeitou.
“Sou Kate. Pode me chamar de Kay. Qual é o seu nome?”
“Nate. Não me chame de Nay.”
Kate deu de ombros e riu. Seus cabelos lisos e volumosos ondularam ao redor do pescoço. Ao olhar para o cabelo preto, provavelmente tingido, ele continuava pensando em alguém.
“Você é engraçado.”
Kate, que tinha parado de rir, sorriu abertamente para Nate.
“Quer sair para se divertir? Só nós dois.”
Ele já tinha ouvido aquilo muitas vezes. Claro que nunca tinha passado tempo sozinho com outra mulher antes.
“Estou te observando desde que você entrou com seu amigo. Seu apelido é bem engraçado, é verdade?”
Playboy Casto. Uma combinação de palavras que não combinava nem um pouco. Mas talvez combinasse com sua situação agora. Preso entre dois caminhos, incapaz de decidir, acabando por parar ali, sem conseguir ir a lugar nenhum…
O álcool o afastou da realidade. Para correr em direção à depressão com uma sensação de flutuação.
Normalmente, decisões tomadas nesse estado são leves, intuitivas e impulsivas.
“Quer descobrir?”
Pela primeira vez, Nate não rejeitou uma investida. Kate o levou ao estacionamento, e os dois entraram no banco de trás do carro dela.
Foi assustadoramente fácil a conversa chegar ao sexo. Peles nuas se esfregavam no espaço apertado. Conforme o ar dentro do carro rapidamente aquecia, o embaçamento nas janelas borrou o interior e o exterior.
O carro estava escuro, mas Nate deliberadamente não acendeu as luzes. Em vez disso, ele sobrepôs o rosto de River ao de Kate durante todo o ato. O físico delas era similar, então talvez os corpos nus também fossem parecidos. A cintura da River parecia ser um pouco mais fina. Ela se exercitava muito, então seus músculos seriam firmes, e outras partes…
“Como você conseguiu se segurar todo esse tempo, Playboy Casto?”
Kate, encharcada de suor, perguntou. Sem nem colocar o sutiã que jogou no banco do motorista, ela enterrou o rosto entre as pernas do homem. Logo, um som úmido preencheu o carro.
Nate não respondeu à pergunta. Em silêncio, desejou desesperadamente que o cabelo preto enrolado em seus dedos fosse o de River.
Continua…
Tradução: Elisa Erzet