Solstício (novel) - Capítulo 11
Nate cerrou os dentes. Por mais rude que um superior fosse, ele não podia simplesmente xingá-lo abertamente.
Seus sentimentos por River eram um segredo aberto dentro do departamento naquela época. Colegas próximos zombavam dele, chamando aquilo de um amor triste e não correspondido, e alguns se perguntavam por que ele tinha que gostar de uma viciada em trabalho que não se interessava por nada além disso.
Mas aqueles que sabiam que seus sentimentos duravam há anos evitavam mencionar o assunto, mesmo brincando. Especialmente depois que River foi suspensa e Nate começou a fumar. Jonathan Spencer não podia desconhecer essas circunstâncias, e o motivo de perguntar aquilo, sabendo de tudo isso, era óbvio.
Para solidificar a hierarquia. Para dizer: “Você ainda está abaixo de mim, e não importa quão rápido seja promovido ainda jovem, não pode me superar.”
— Você disse que cresceram juntos?
Nate respondeu a contragosto:
— Sim.
— Então eu pensaria que seriam ainda mais próximos, mas você realmente não se incomoda nem um pouco?
‘Isso é mesmo uma pergunta agora?’
Nate cerrou o punho silenciosamente, escondendo-o perante a questão que cutucou deliberadamente seu ponto fraco. Claro que ele se incomodava; só de ouvir no relatório que ela o tinha beijado na galeria já era doloroso o suficiente.
Mas não podia mostrar seu desagrado ali. Não porque Jonathan era seu superior. Foi Nate quem propôs a missão a River. Ele disse aquilo sabendo muito bem o que poderia acontecer.
Então, se arrepender-se agora… não era simplesmente ridículo?
— Não posso colocar sentimentos pessoais no mesmo nível que assuntos profissionais.
— …
— Esta operação é uma missão crítica, e se Winstead é a única pessoa qualificada, não deveríamos desejar o sucesso dela?
Os lábios de Jonathan se curvaram levemente para baixo. Ele parecia estar perdendo o interesse. Provavelmente queria ver Nate perder a calma e desmoronar, mas, como só recebeu uma resposta de manual, deve ter achado chato.
— Acho que mantive um homem cansado aqui por tempo demais. Está tarde, então pode ir. Descanse.
Deixando para trás a falsa gentileza e o encorajamento hipócrita, Nate juntou os poucos pertences que restavam e saiu. Mas seus passos foram em direção ao vestiário, não ao quarto.
Dentro do box cheio de vapor branco, Nate apoiou a testa na parede. A água que encharcava completamente seu cabelo escorria pela testa, bochechas e queixo, caindo sobre o peito.
O jato de água que caía do chuveiro batia alto nos azulejos. O ruído estalado, que fazia cócegas em seus tímpanos mesmo quando ele permanecia imóvel, parecia também bagunçar sua mente.
Nate fechou os olhos calmamente. Sob a água que caía, a memória do dia em que ele encontrou pela primeira vez aquele nome pungente ressurgiu vividamente.
Dezoito anos atrás.
Era Natal.
Antes mesmo de poder abrir os presentes debaixo da árvore, sua mãe teve que ir ao mercado e deixou Nate com a vizinha, a senhora Bernstein, logo cedo.
— Eu volto rapidinho, então escute a senhora Bernstein. À tarde eu faço pudim de banana pra você, está bem?
Ele estava morrendo de curiosidade para saber que presentes o Papai Noel tinha lhe dado, mas Nate se conteve. Queria abrir os presentes com a mãe. Mas, mesmo depois do almoço, ela não voltou.
Quando o céu começou a ficar avermelhado, a senhora Bernstein, que tinha recebido uma ligação de alguém, disse que sua mãe tinha se machucado e ido para o hospital.
— Então eu não posso ir visitá-la?
— Sinto muito, querido. Vamos dormir na minha casa hoje.
A senhora Bernstein foi excepcionalmente gentil naquele dia. Até lhe deu cheesecake depois do jantar e não o repreendeu por jogar videogame até tarde da noite. Mas ouvir que sua mãe estava doente não o deixava animado de forma alguma.
No dia seguinte, uma visita inesperada apareceu. Seus avós maternos abraçaram Nate com força assim que o viram e choraram.
— Vovô, o senhor não vai ver a mamãe?
— Querido, iremos vê-la amanhã. Quando seu maldito pai chegar.
— Querido, cuidado com a linguagem na frente da criança.
Ele tinha certeza de que conseguiria esperar mais um dia ou dois. Ele até tinha recebido um prêmio de “Mais Paciente” na escola. Ele conseguiria abrir os presentes juntos amanhã.
Mas naquela noite, seu avô materno sentou Nate no sofá em frente à lareira e disse isto:
— Cynthia… sua mãe morreu em um acidente de carro.
Os adultos estavam ocupados correndo de um lado para outro, discutindo onde colocar os arranjos de flores, quem iria comparecer e onde se sentariam.
Apesar do caos, a atmosfera era pesada. Nate, sentado sozinho em uma cadeira, olhava silenciosamente para as pontas dos sapatos. Eram sapatos de couro elegantes que estavam dentro da caixa de presente.
O lugar vazio na mesa de três lugares permaneceu desocupado por bastante tempo. Sua mãe, que marcava X no calendário esperando seu pai voltar, agora estava deitada naquele caixão diante do altar. Ele queria dizer ao Papai Noel que não precisava de sapatos e que devolvesse a mãe.
Pessoas vestidas de preto começaram a se reunir dentro do velório. Nate, que estava sentado atordoado em uma cadeira, virou-se ao ouvir alguém chamá-lo.
— Pai…?
Seu pai estava parado na entrada do salão. O rosto que ele não via havia muito tempo parecia severamente cansado.
— Pai, a mamãe—
— Você não precisa explicar, filho.
Seu pai se ajoelhou para ficar na altura dos olhos dele e segurou firmemente seus ombros. Nate olhou para ele com os olhos trêmulos.
— A mamãe… foi para o céu agora. Para um lugar melhor do que este.
Diante de uma expressão triste que nunca tinha visto antes, Nate não conseguiu dizer nada.
O funeral foi realizado em silêncio. As palavras de homenagem à mãe e as condolências das pessoas continuaram, e o caixão firmemente fechado foi levado ao local do sepultamento pelos adultos.
Seus avós maternos também choraram amargamente. Seu pai não chorou, mas ficou franzindo a testa o tempo todo. Todos os outros que Nate conhecia e não conhecia inclinaram a cabeça diante da despedida eterna. Só depois que o caixão contendo sua mãe foi baixado na cova profunda, Nate entendeu o significado da morte. A filha de seus avós maternos, a esposa de seu pai, a mãe de Nate, o fato de que Cynthia Miller não existia mais no mundo.
Nate voltou para a casa de seus avós maternos com o rosto pálido de tanto chorar. Seu pai havia partido novamente para algum lugar antes mesmo do funeral terminar. Seu avô materno suspirava profundamente na varanda todas as noites.
Mais de um mês após o funeral, seu pai apareceu de repente na fazenda Ranfield. Seu avô materno, que vinha xingando o pai durante todo esse tempo, apenas o encarou ferozmente, sem dizer uma palavra.
— Vou levar o Nate comigo.
—…
— …Seu filho da puta.
O clima entre eles era constrangedor a ponto de ser sufocante. Mas o que chamou a atenção de Nate foi a menininha segurando a mão do seu pai.
— Quem é ela?
Cabelo e olhos pretos. Cores que não eram facilmente vistas na vizinhança, o mais peculiar era sua aparência rara.
Os asiáticos que ele tinha visto em desenhos animados não tinham olhos tão grandes, mas aquela menina, estranhamente, tinha traços delicados e pele branca.
— O nome dela é River. Ela vai morar conosco a partir de agora. River, este é meu filho, Nate.
Enquanto Nate hesitava, seu pai voltou o olhar para River.
— Vocês dois têm a mesma idade, então espero que se deem bem no futuro.
A menina chamada River apenas encarou o vazio e então assentiu com a cabeça. Seu pai pareceu satisfeito com aquilo. Sua mãe sempre dizia para ele falar com uma voz alta e clara quando respondesse a alguém.
Seu pai não parecia interessado nem em sua mãe nem em Nate. Ele só falava com a garota que havia trazido de repente, River ou seja lá como se chamasse, e afagou suas costas com carinho. A respiração de Nate ficou pesada.
— Vamos conversar um momento.
O pai entrou na casa com o avô materno. A avó materna, que estava cuidando do canteiro de amor-perfeito, também os seguiu com uma expressão preocupada, deixando apenas a menina e Nate no jardim.
Nate achou que aquela era sua chance e falou:
— Ei.
— …
— Por que você vai morar conosco se nem é da família? Eu vou garantir que você não consiga viver na nossa casa.
— …
— Não sabe falar? Não fala inglês? Então tenta falar chinês ou algo assim.
Palavras que teriam horrorizado os adultos saíram da boca de Nate. Seus avós maternos e pai pareciam ocupados discutindo algo na sala de estar.
— Ei, você não vai responder?
— Meu nome não é “Ei”. É River. — A menina finalmente começou a dar uma resposta adequada. — Eu também não penso em você como família. Não estou morando na sua casa, estou morando na casa do tio Ben.
A forma como ela refutou cada uma das palavras de Nate era bastante afiada. O ímpeto de Nate foi um pouco quebrado por sua atitude completamente imperturbável.
— E eu sou americana. Minha mãe era coreana. O que acabou de dizer foi racista, sabia? Os adultos vão brigar com você se descobrirem.
Nate, que ficou sem palavras e apenas abria e fechava a boca, não conseguiu mais ser cruel com River depois disso. Não porque tivesse medo de ser repreendido, mas porque não tinha energia para isso.
Ele não sabia o que tinha sido dito na sala, mas seu avô materno repreendeu seu pai, dizendo para nunca mais aparecer. Sua avó materna, que veio se despedir sozinha, entregou a Nate um saco de papel cheio de biscoitos e disse:
— Nate, escute seu pai e se dê bem com a River.
— …Sim.
Por que todo mundo está do lado dela?
Ele respondeu que tinha entendido, mas Nate não falou com ninguém enquanto iam para a casa nova. Apenas ficou olhando pela janela durante horas, enquanto dirigiam pela rodovia.
Detroit era um lugar sombrio. Ele queria ir para sua casa no Colorado, mas seu pai só repetia que era perigoso.
— As camas novas vão chegar na semana que vem. Até lá, vocês dois vão ter que dividir a mesma cama, está bem?
— Eu não quero dormir com ela. Você podia simplesmente mandar ela dormir no sofá, por que—
Nate, fazendo birra, concordou com relutância depois de ver a expressão angustiada de seu pai. Ele estava com medo de que até o pai fosse para longe.
Naquela noite, muito tempo depois de se deitar, Nate não conseguiu dormir. Uma tristeza tardia o atingiu. A área ao redor do peito formigava e doía, e não conseguia dormir de jeito nenhum.
Logo, lágrimas encharcaram o travesseiro. Ele soluçava porque chorava silenciosamente debaixo do cobertor. Sentiu um movimento atrás de si. Nate tentou ignorar a garota, quer ela estivesse se revirando ou se sentando.
Muito tempo depois, quando espiou para fora do cobertor, Nate não pôde deixar de se assustar ao encontrar o olhar que o observava de cima.
Continua…
Tradução: Elisa Erzet