Figurante B - Capítulo 14
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Dia 15 — Viagem rumo à capital
30 minutos atrás.
A visão turva; a luz seca golpeia os olhos, que se fecham novamente. O corpo pesado mal responde. Ele ameaça se levantar; uma dor irradia da ponta do dedo do pé, subindo até a coluna.
Um grunhido de dor escapa pelos lábios secos. As mãos se erguem sem saber o que fazer, apenas protestam contra a dor.
O ar frio é expulso pelas narinas, levando consigo a dor que se dilui. Cid leva a mão aos olhos, protegendo-se da luz direta. Sua mão tateia a mesa ao lado da cama, alcançando um jarro de água. Ele ignora o copo; o fluido escorre pelos cantos da boca, umedecendo suas vestes.
Ele ofega enquanto limpa a boca com as mangas da blusa. Os olhos analisam o cômodo pequeno. Ao lado dele, uma cama vazia; no canto, ao lado da porta, um armário de madeira. E só depois seus olhos encontram a perna envolta em bandagens e travada com talas.
Ele tenta se sentar. O corpo repudia, com dor, como se adagas espetassem suas entranhas. A cabeça volta para a pelagem macia que cobre a cama. As memórias conturbadas inundam a mente ainda perdida. Ele leva a mão a testa como se isso fosse ajudar a organizar as lembranças; em voz alta, quase um grito:
— Catherine!
A freira abre a porta; a madeira não tem tempo de ranger. Os olhos dela se arregalam ao ver o jovem desperto. As feições de Cid se enrijecem entre fúria e preocupação; o chão estremece em resposta.
— Onde está a garota?
Antes de responder, a freira grita em anúncio ao guarda de plantão.
— O GAROTO ACORDOU, AVISEM O BARÃO.
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Mansão dos Hilda:
A porta do salão se abre com violência.
Um criado entra, ofegante.
— Barão… ele acordou.
O sorriso de Alfred desaparece.
Ele coloca Anabela abruptamente no colo de Lumi. A mão desliza rapidamente para o guardanapo, passando-o pela boca. A cadeira range para trás. Bruscamente, o barão se levanta.
— Marcius, comigo. Agora!
Ele caminha a passos firmes pelo corredor, em um giro de mãos coloca seu manto negro. Na cintura, sua espada repousava na bainha; a empunhadura de couro era desgastada com o formato da mão do barão.
Os cabelos loiros de Marcius esvoaçavam enquanto ele tentava acompanhar o ritmo do pai.
— Quem acordou? Por que o senhor está me levando? — ele finalmente se põe lado a lado com o pai.
Alfred segura firmemente os anéis metálicos da porta, abrindo-a em um estalar da madeira e ranger do metal.
— Apenas me acompanhe e observe atentamente tudo que acontecer.
Em um movimento limpo, ele monta o cavalo, estendendo a mão para o filho, que a segura prontamente, subindo.
— Mas por que eu? Você sempre leva o Lumi para essas coisas. — as palavras são abafadas pelo som do casco contra o pavimento.
O cavalo negro reconhecido pelo povo nas ruas de inverno, a neve ainda acumulada sobre os telhado. As pessoas acenam com sorrisos para o barão, enquanto ele devolve com um simples aceno de cabeça, os olhos sempre alinhados ao caminho à sua frente.
A igreja já era visível, assim como uma carruagem rebuscada que acabara de parar na frente dela.
— Merda! — o barão balbucia enquanto desce do cavalo.
Sua expressão é tomada por um sorriso que, para todos, seria visto como autêntico, menos para Marcius, que já vira aquele sorriso encenado do pai mais vezes do que poderia lembrar.
Um homem trajando uma batina de seda e linho desce lentamente da carruagem, acompanhado de um jovem que traja roupas ainda mais finas. O aroma de óleo e incenso invade as narinas de Alfred e Marcius.
— Padre Antony, Hilda se alegra com seu retorno. — Alfred sorri enquanto beija suavemente a mão adornada do padre.
A barriga do homem o impedia de ver os próprios pés, mas ele olha o barão de cima, quase com desprezo.
— Que Deus o abençoe, jovem Alfredo. O que lhe traz à minha igreja? Certamente não foi para desejar boas-vindas.
A pupila de Alfred tremula, mas, assim que levanta o rosto, o sorriso já está lá. Enquanto Marcius beija a mão do padre, o barão continua.
“Hipopótamo astuto, não posso deixar que ele descubra a identidade do garoto.”
— Bom, certamente esse foi um dos motivos. O outro é que vim ver um dos meus que está sob os cuidados das freiras.
A porta da igreja se abre em um ranger. Alfred acompanha o padre, sempre um passo atrás dele, e o outro homem a três passos de Alfred.
— Por que um dos seus está aqui? Enfrentaram um wyvern, por acaso?
O padre limpa as mãos com uma toalha umedecida em água quente e a coloca novamente sobre a bandeja que a freira carregava. Alfred, com os braços nas costas, observa o movimento tenso das freiras e continua.
— Apenas um ogro das neves… e um recruta descuidado. Será punido assim que tiver condições.
O padre olha para o barão; não fazia questão de esconder o olhar de desprezo.
— Bom, não me admira. O que esperar da liderança de um plebeu? — o sorriso escorre como veneno.
“Quem será de tão importante que esse bastardo veio pessoalmente ver? Interessante.” Os olhos do padre se estreitam em curiosidade.
Alfred reverência suavemente.
— Se vossa santidade me permite, vou vê-lo agora.
Alfred caminha a passos firmes. Sente que está sendo seguido. O som pesado dos passos gordos do padre o acompanha. Ele sorri se virando em uma reverência exagerada.
— Que honra, o próprio padre irá fazer a sessão de cura de meu soldado.
Antony tenta protestar, mas Alfred o interrompe antes que a primeira palavra se forme.
— Afinal, arrumou um tempo em sua agenda para vê-lo; certamente ele ficará feliz de receber sua graça, afinal vossa santidade não me acompanharia por reles curiosidade… não é?. — O olhar do barão escapa por um instante para o Arquidiácono.
A expressão do padre enrijece; ele torce a cara, contrariado. Olha por cima do ombro, vendo o homem atrás tomando nota em um pequeno caderno.
— Ha ha ha, claro, é o mínimo que posso fazer por esses bravos soldados que protegem a cidade e protegem nossos fieis. — A expressão dele se torce; o ódio pelo barão só cresce a cada instante.
A porta se abre lentamente, revelando uma figura robusta deitada, enquanto uma freira termina de remover as bandagens em suas pernas.
O garoto esticou o pescoço, olhando por cima da freira, observando a comoção na porta do quarto. O barão toma a frente.
— O nobre padre veio curar suas feridas da grande batalha que travou contra o ogro. — Ele lança um olhar complexo para Cid, quase como se ele quisesse dizer algo.
O padre adentra o quarto, seguido por Marcius. O Arquidiácono fica observando da porta. Antony se aproxima, arregaçando as mangas; as tatuagens negras em seus pulsos irradiam enquanto a água se forma.
— Trarei alívio a seu sofrimento, jovem guerreiro. — Antony se vira para freira que estava ao lado da cama. — Freira, qual o diagnóstico do rapaz?
A freira, com voz compassada, se aproxima.
— Fratura na canela e várias costelas quebradas, vossa santidade.
Os movimentos precisos das mãos do padre fazem a água envolver a perna de Cid. Uma tênue luz dourada se forma junto à água.
— A luz de Avalon expurgue toda dor. — De olhos fechados, o padre murmura repetidamente.
A água da perna flui até o torso, envolvendo o abdômen e amenizando a dor. O padre começa a suar; as mãos começam a tremer.
A água por fim flui até a bacia aos pés da cama. O padre ofega levemente enquanto abaixa as mangas da blusa.
— Aparentemente, os ossos já estão se colando da maneira correta. — O padre estala a língua, dando as costas para o barão, que sorri vitorioso.
Os olhos de Marcius se fixam nas mãos escuras e calejadas do jovem enquanto ele se senta na cama. A expressão de Cid é de pura confusão.
— Mas, pelos nove infernos, quem são vocês?
O padre congela e olha por cima do ombro.