Figurante B - Capítulo 15
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— Mas, pelos nove infernos, quem são vocês?
O padre congela e olha por cima do ombro.
Marcius arregala os olhos. Ele não entende o porquê, mas sabe que seu pai quer esconder algo. Desesperadamente, ele agita as mãos em uma tentativa de comunicação, de modo que apenas Cid veja.
O padre se vira para Cid. Os olhos se encontram; nenhum deles desvia o olhar. Ele caminha a passos pesados.
— Como ousa proferir tais palavras em solo sagrado, criança imunda!
Alfred pressiona o indicador com o polegar da mesma mão, estalando-o.
— Perdoe as palavras dele, padre Antony. Na infância, trabalhou com os anões em Fres… — Ele caminha, mantendo-se entre o padre e o garoto. — Ele apenas está confuso. O ogro deve ter batido nele com muita força…
O sorriso falha; o padre o afasta.
— Está me escondendo algo, Alfredo. Nada acontece nessa igreja sem que eu saiba.
O padre agarra o braço de Cid, erguendo-o. Puxa as mangas da blusa do garoto, mas os braços estão limpos, nada além de pequenas cicatrizes.
A frustração toma o rosto do padre, que tenta soltar o braço de Cid com desprezo. Mas, no exato instante, a mão do garoto agarra o pulso do homem, forçando o contato visual.
— Quem você pensa que é?… — o aperto se torna mais forte; a pele começa a ser comprimida.
A expressão do garoto se desfaz. Indiferença… superioridade.
— Testa falar comigo desse jeito mais uma vez…
O ar falta. Cid se sente esmagado, como se pudesse ser morto se proferisse mais uma palavra. Existir não era um direito, era uma permissão. Era isso que o olhar do barão dizia. O suor escorre frio pelo rosto. Ele solta a mão do padre. A aura do barão esmaga o ar; logo depois, se dissipa. O oxigênio finalmente ganha autorização de voltar aos pulmões de Cid.
O padre puxa a mão de uma vez, dá as costas ao garoto e para ao lado do barão.
— Tire essa coisa da minha igreja. Agora. Vou fingir que isso não aconteceu.
Alfred abaixa a cabeça, pela primeira vez, em sinceridade.
— Agradeço e peço desculpas. Irei garantir que ele nunca mais fale assim com mais ninguém… — o olhar dele fuzila com uma ameaça velada — na verdade, vou garantir que ele perca a capacidade de falar.
Cid engole seco.
O padre volta a caminhar em direção à saída e, antes de bater a porta:
— Espero que a próxima doação dos Hilda seja abundante.
Alfred acena com a cabeça. O baque da madeira vem seco. Marcius cai no chão, sentado. A freira, no canto do quarto, finalmente recupera a cor no rosto que estava pálido.
Sem dizer uma palavra, o barão também sai do quarto, seguido pela freira. Marcius e Cid passam os próximos dez minutos em silêncio, apenas respirando. Marcius se levanta, batendo a poeira das calças.
— Cara, eu achei que meus irmãos fossem idiotas, mas você está de parabéns.
As pernas de Marcius falham; ele se senta na cama vazia.
Cid se derrete, voltando a se deitar na cama.
— Pensei que fosse morrer…
As palavras fogem da boca dele. Marcius sucumbe de vez deitando-se na cama vizinha.
— Eu sou o filho dele… mas, naquele momento, tinha certeza de que iria morrer.
Eles começam a rir. As risadas ecoam presas naquele cômodo… mas logo dão lugar às lágrimas que escorrem dos olhos de ambos, as mãos trem.
— Eu pensei que fosse morrer… — em soluços involuntários, Cid cobre os olhos com o braço enquanto as lágrimas escorrem pelos cantos dos olhos.
Marcius continua a chorar em silêncio. Ele seca as lágrimas com o casaco, primeiro se senta, respira fundo e depois se levanta.
Cid faz o mesmo. Se apoia no colchão com os braços e gira, colocando os pés para fora da cama. Testa o chão com a perna boa, em seguida, usando a picareta como gancho, alcança a mochila e a colocando nas costas.
— Cara, você está um lixo. Quer que eu te ajude até a saída? — Marcius estende a mão.
Cid solta um grunhido de dor quando a perna ferida esbarra na cama. Ele assente com a cabeça, passando a mão por cima do ombro do outro garoto.
— Valeu pela ajuda…
Cid solta o peso, Marcius balança quase perdendo o equilíbrio.
— Tu é bem mais pesado do que parece… caramba, você come pedra ou algo do tipo? — Ele arrasta CId pelo quarto empurrando a perna com o pé.
Os dois caminham pelos corredores. As freiras cumprimentam rapidamente com um aceno de cabeça.
— Você tem onde ficar? — Marcius pergunta enquanto encara a mochila surrada.
— Bom, os pais da menina que estava comigo estão na casa de parentes aqui na cidade.
Cid puxa um papel do bolso, com um mapa desenhado.
— Disseram que, se eu precisasse, poderia ir para lá também… acho que vou fazer isso.
Cid empurra a porta com o cabo da picareta. Eles finalmente chegam ao salão principal. No altar vazio, apenas velas acesas nas inúmeras fileiras de bancos de madeira, alguns poucos fiéis ajoelhados rezam.
Marcius sorri.
— Cara, eu sempre quis quebrar a cara daquele padre… mas nunca tive coragem. — Ele olha para Cid de canto. — Mandou bem.
Eles passam pelas portas principais, que já estavam abertas, caminham até a fonte da praça e se sentam.
— Mas não acho que valeu a pena… pelo menos aprendi que nunca devo irritar seu pai.
Eles riem. Marcius estende a mão.
— Aliás, me chamo Marcius. Marcius de Hilda.
Cid aperta a mão do garoto.
— Eu sou Cidiney. Cidiney Rocca.
Marcius segura o riso.
— Cidiney? Que nome horroroso… com todo respeito, é claro.
Cid torce o nariz.
— Sei, é ruim mesmo. Me chama só de Cid… e Marcius também não é um nome legal… parece Márcio, só que de gente chique.
Eles encaram as nuvens no céu limpo, um milagre nessa época do ano. Marcius fecha os olhos e respira fundo.
— Sinto que essa experiência de quase morte mudou minha vida.
Cid faz a mesma coisa: respira, contempla as nuvens brancas no céu limpo.
— Eu acho que me mijei um pouco…
Marcius começa a rir, as lágrimas se formam no canto do rosto enquanto as pessoas observam os garotos.
— Eu também — ele mal consegue concluir, em meio ao seu ataque de riso.
Cid o acompanha, no primeiro minutos ele riem da situação depois riem um do outro. Por fim Cid limpa os cantos dos olhos.
— Nunca pensei que teria mais medo de alguém do que sinto da minha mãe.
Marcius ajeitando o cachecol enquanto suspira se recuperando.
— Se isso te conforta, meu pai morre de medo da mamãe.
O silêncio finalmente paira por um momento. Cid se levanta apoiado na picareta, a madeira bate contra as lajotas do chão, escorrega, desequilibra, se apoia novamente.
— Bom, acho que é isso. Foi bom te conhecer, “Márcio” — Cid sorri, estendendo a mão.
Marcius se levanta em um salto, o choque das palmas das mãos ecoa pela praça, um som oco, que parecia certo demais para um simples aperto de mão.
— Te vejo por aí… Cidiney.
Marcius começa a seguir no sentido oposto. Ele acena com a mão sem olhar para trás.
Cid olha para o mapa desenhado no papel e coça a cabeça enquanto analisa.
— Bom, vamos ver como você está, Catherine — sussurra sozinho enquanto manca pela praça com sua muleta improvisada.
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Igreja de Hilda – escritório do padre Antony.
A porta se fecha em um estrondo, fazendo a janela tremer. O padre se senta de uma vez sobre a cadeira de balanço, a madeira protesta em um ranger.
— Aquele bastardo quase quebrou meu pulso — ele puxa as mangas da batina para trás, a pele exposta agora marcada com o contorno de dedos.
Ele se reclina na cadeira em um balançar rítmico. “Mas por que o barão veio em pessoa ver aquele garoto…” A mente circula, fervilhando em busca de respostas.
“Eu deixei passar alguma coisa?… Forte demais, certamente um campeão… mas isso bastaria para aquele fedelho querer esconder algo?”
Ele se levanta, andando de um lado para o outro. A mão alisa um pingente em forma de espada que ele segura entre os dedos.
“Pensa, Antony, o que você não viu?” Ele começa a revisitar cada detalhe.
“Trabalho nas minas quando criança? Com a força de um campeão seria possível…” O padre abre a janela, o ar frio sopra para dentro, ameaçando o solidéu.
Ele o segura. A lembrança acusa, recordando-se do diagnóstico que a feira lhe deu. “Se os problemas eram as pernas e a costela, por que a cabeça estava enfaixada…” Como se a última peça estivesse encaixada, ele corre até a porta.
— ACHEM AQUELE GAROTO E O TRAGAM PARA MIM.