Figurante B - Capítulo 13
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O som dos passos da freira ecoa pelo salão vazio da igreja.
Antes que Alfred possa reagir, dedos firmes agarram sua orelha.
— Onde você pensa que está indo, mocinho?
Ela dá outro puxão, sem piedade.
— Tenha respeito pelo solo sagrado, Alfredo!
— Ai, ai, ai! — ele se inclina, tentando acompanhar o ritmo dela. — Já entendi, madre Cecília!
O barão se recompõe, coçando a garganta. Ele ajeita o manto e limpa a dignidade ferida. Fecha as portas da igreja, deixando o capitão para trás.
— Estou procurando um anão. — Ele segue os passos apressados da madre.
Madre Cecília franze o cenho.
— Anão? — Ela balança a cabeça, parando por um instante. — Os únicos que entraram aqui hoje foram você… e um jovem casal.
A mão trêmula dela vai ao peito; a expressão de preocupação surge em cada fibra do rosto.
— Estavam à beira da morte.
— Algum deles era um mago de terra? — As palavras saem inflexíveis, frias, neutras.
Ele acompanha a freira pelos corredores estreitos.
— Sim. A jovem garota. — Cecília suspira. — Intoxicação por mana. Inclusive, quebrou o último invólucro de terra que tínhamos. Precisamos de mais um.
Alfred leva a mão ao queixo.
“Não faz sentido.”
“Se ela estava intoxicada, não poderia ser a conjuradora.”
— Madre, preciso vê-los.
Ela para diante de uma porta.
— Onde acha que eu estava te levando?
A madeira range. A porta se abre; as pupilas do barão se ajustam à claridade da luz do sol que invade o ambiente pelas janelas.
Cid repousa em uma cama simples; uma freira mergulha as mãos dele em água quente.
Madre Cecília se aproxima da perna do garoto, arregaça as mangas, expondo as tatuagens negras azuladas em seu braço. A água responde quando as tatuagens irradiam um brilho tênue; a água morna envolve toda a pele, circulando, limpando, purificando.
— Pobre criança… — Os olhos da madre lacrimejam enquanto ela continua a comandar a água.
Catherine descansa em outra cama, onde uma freira coloca pedras quentes sob os cobertores.
O corpo de Cid está imóvel, mal respirando. O sangue que recorrentemente expulsa em tosses é rapidamente limpo por uma freira.
Catherine respira com dificuldade leve, mas constante.
Alfred se aproxima da garota primeiro. Afasta o cobertor, puxa a manga da blusa.
Nenhuma marca.
Nenhuma tatuagem.
Ele se vira para o garoto; a freira se afasta e ele repete o gesto.
O sorriso morre.
Cortes antigos. Fissuras profundas. Pele calejada como pedra trabalhada. Os dedos escurecidos, gangrenados.
— Como esse garoto ainda está vivo? — ele murmura.
Ao se levantar, o pé esbarra em algo sob a cama.
Metal raspa no chão.
Alfred se abaixa e puxa da primeira vez; na segunda, com mais força, a ferramenta é arrastada e enfim descoberta.
Uma picareta. Manchada de sangue púrpura.
O mundo se encaixa.
Num movimento rápido, ele ordena:
— Senhoritas, nos deem licença, por favor.
As freiras assentem com a cabeça e se retiram do cômodo. Apenas ele e Cecília permanecem. Assim que a porta se fecha, ele puxa o capuz do garoto, revelando as orelhas espiraladas.
O sorriso que surge não é gentil.
É fascinado, como uma criança que acaba de ganhar um novo brinquedo.
— O antigo protegido do Marquês de Fres…
Madre Cecília leva a mão à boca.
— Um… mestiço?
Alfred se senta no chão.
E ri.
— Quatro dias de caminhada, de Fres até aqui… no meio de uma nevasca… carregando alguém… com uma picareta.
Ele ri mais alto, enxugando lágrimas dos cantos dos olhos.
— Nem um anão suportaria isso.
Ele se levanta, limpa a poeira do manto e recupera a postura.
— Peça o que quiser aos guardas. — O tom agora é frio. — Mantenha os dois vivos. Quando acordarem, me chame imediatamente.
Ele para na frente da porta antes de abrir, olha por cima do ombro.
— Enfaixe as orelhas dele. Não deixe ninguém descobrir.
A porta se fecha com um baque seco.
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Mansão do Barão de Hilda:
Dia 15 — Viagem rumo à capital
O salão de jantar é iluminado por cristais incandescentes. A longa mesa de carvalho acomoda a grande família com folga.
Os sete filhos de Alfred se encontram em seus habituais lugares fixos. Sagrados.
Lumi, o mais velho, vinte e dois anos, mago de vento.
Os gêmeos Milan e Mailon, vinte, fogo e água.
Atreus, dezenove, fogo.
Athos, dezessete, campeão.
Marcius, quatorze, dupla afinidade, água e fogo.
E Anabela, dez, sem afinidade mágica.
— Como foi a expedição à masmorra, Lumi?
Alfred forra o guardanapo no colo.
Lumi bufa.
— Como vosso pai acha que foi? Milan e Mailon brigaram o tempo todo… e Atreus…
O olhar dele fuzila o irmão cochilando com os talheres na mão. Um pedaço de purê voa e acerta o nariz de Atreus, que desperta num salto.
— Viu, pai? — Lumi aponta com o talher na direção do irmão. — Da próxima vez, me deixe levar Athos comigo. Pelo menos ele ficará acordado.
Alfred ri.
Milan e Mailon já começam outra briga. Atreus volta a dormir.
Um puxão tímido na manga.
— Estou com saudades da mamãe…
Alfred pega Anabela no colo.
— Ela chega em três dias… — Ele afaga os cabelos da filha. — Agora que as épocas das nevascas passaram, ela vai chegar rapidinho. Aguenta firme, minha princesa.
O olhar dele vai até Marcius, empurrando a comida pelo prato.
— E a academia?
O silêncio cai.
Atreus se espreguiça, o cabelo preto desgrenhado quase encostando na comida.
— Não entendo por que só o Lumi foi e agora o Marcius.
Milan e Mailon fazem um cumprimento exagerado, como se estivessem se vangloriando.
— Escola é coisa de nerd!
Lumi aponta o garfo para Atreus.
— E você não é nenhum gênio, irmão. Se é para dormir, durma em casa.
— Ele tá certo. — Milan mastiga. — Tu é tão burro quanto a gente.
Marcius esboça um sorriso, a idiotice dos irmãos o divertia mais do que ele podia admitir; Alfred aproveita a deixa.
— Por que não aproveita o final da nevasca e vai treinar com seu tio? Acredito que ele teria muitas coisas para te ensinar sobre combate.
Marcius esboça um sorriso cínico.
— Sério? Aprender com o tio Art? Como se eu tivesse mana o suficiente para fazer o que ele faz.
Athos interrompe, a faca em sua mão corta a carne como se estivesse deslizando suavemente.
— A última vez que treinei com ele, notei que não evoluiu nada. Ele se apoia demais nas capacidades físicas que evoluíram muito rápido, e está subestimando a técnica.
Alfred suspira, esfregando os olhos com a mão, enquanto Anabela se aproveita roubando a carne do prato do pai.
— Sua mãe foi vê-lo. Espero que ela tenha colocado um pouco mais de juízo na cabeça dele.
Mailon bate a mão da mesa a caneca dele cai no chão, os olhos de alfred o fuzilam..
— Ouvi os empregados falando que um ogro atacou o portão leste enquanto estávamos fora… Cara, como eu queria ter estado lá.
Milan complementa.
— Não sobraria nada pros betas.
Os gêmeos riem enquanto mastigam a comida.
Lumi balança a cabeça.
— Eu juro… eu desisto. — A última parte sai cansada, quase cuspida.
A porta do salão se abre com violência.
Um criado entra, ofegante.
— Barão… ele acordou.
O sorriso de Alfred desaparece.
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Campeões: são pessoas com altas capacidades físicas e desprovidas de poder mágico.