Figurante B - Capítulo 12
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Os soldados marcham em batalhões pela praça coberta de neve, avançando em direção ao portão destruído.
— ONDE ESTÃO OS MAGOS?!
O capitão berra, a voz rasgando o caos, enquanto sua lança falha ao tentar penetrar a perna do ogro.
— Merda… — rosna para si mesmo. — MANTENHAM A FORMAÇÃO! DISTRAIAM ELE!
Os homens obedecem. As linhas se fecham. Espadachins recuam, abrindo espaço para as lanças que formam um cerco.
O ogro ruge e avança um passo; o braço livre gira, tentando agarrar as lanças, mas a mão inerte balança, não responde, sangra.
A pele grossa começa a ceder sob a repetição dos golpes. Cada investida perfura a carne; sangue escuro respinga na neve.
Um grito ruge de cima da muralha. Um soldado ergue a cabeça e grita:
— MAGO DE FOGO!
O capitão não olha. Ordena:
— EMBAIXO, DERRETAM A NEVE!
Fogo explode à direita. O calor lambe a neve à frente do portão principal, derretendo-a, formando uma grande poça de água turva.
— NÃO PAREM! MIREM NAS ARTICULAÇÕES!
O chão começa a congelar novamente. Um soldado corre pelo flanco com uma corda em mãos e a arremessa para o outro lado da criatura. O grupo de espadachins, dividido em dois, a segura de um lado e do outro.
A corda se estica, os homens avançam para trás.
O pé áspero do ogro não escorrega no gelo.
— FAÇAM ELE CAIR!
O capitão avança, gira o corpo e arremessa a lança com força total. A ponta crava no olho da criatura.
O ogro cambaleia.
Um passo para trás e depois um para frente.
O tropeço na corda quebra o equilíbrio. O peso colossal cai para frente, e o monstro se choca violentamente contra o chão, fazendo a neve subir e a lança no olho transpassar o crânio.
Um urro no último suspiro.
Silêncio.
O corpo treme uma última vez e fica imóvel.
O capitão se aproxima, respirando pesado. O olhar se fixa no punho dilacerado da criatura.
Ele se abaixa, analisa.
Um recruta se aproxima, ainda pálido.
— Que caralhos fez isso?
O capitão observa o ferimento com atenção, estreito, profundo. Quase atravessou o pulso da criatura.
— Não foi lâmina. — franze o cenho. — Foi arrebentado. Será que brigou com outro monstro?
O recruta se abaixa ao lado.
— Lobos, talvez?
O capitão estala os dedos na testa do garoto com um peteleco seco.
— Tá vendo marca de mordida aqui, animal?
Eles se erguem e vão até os pés do ogro, com cicatrizes, mas sem ferimentos recentes.
— Se fossem lobos, teriam ido direto no tendão.
O capitão se levanta, batendo a neve que se acumula nos ombros.
— Estanquem o sangramento da criatura, mantenham o corpo aquecido. Não queremos que o sangue congele antes da mana se acumular no coração.
O olhar do capitão pousa sobre o pulso ferido mais uma vez.
— Seja o que for que fez isso, estava usando uma arma.
Uma voz grave e elegante ecoa atrás deles.
— Uma observação correta.
O capitão se vira num pulo e se põe em continência.
— Barão Alfred!
Alfred se aproxima com calma, o manto escuro contrastando com a neve clara. Seus olhos percorrem o corpo do ogro como quem lê um relatório.
Ele se abaixa, analisando o pulso completamente destruído.
“Espada… machado… não, as lanças mal conseguiram penetrar a pele, forte demais para um humano.” A mente de Alfred fervilha de possibilidades.
Ele enfia a mão na ferida, acompanhando a curva do buraco estreito. O cheiro forte queima o nariz; o recruta torce a cara.
— Estreito demais para uma enxada, uma picareta talvez?…
— O ogro estava lutando contra algo — o capitão diz rápido. — Não encontramos o outro combatente.
Alfred analisa o perímetro. Entre a neve suave, silhuetas distantes se destacam quase imperceptíveis. Ele caminha até elas.
— Ora… magia de terra.
Alfred desliza a mão pelas colunas de terra destruídas.
— Um subterra blindado, talvez? — arrisca o capitão.
Alfred se agacha, examinando o solo.
— Não. — ele balança a cabeça. — Não há túneis. O terreno está intacto. Provavelmente um anão.
O olhar afiado observa o padrão das colunas.
— Não estava atacando… — O olhar dele segue a fileira de colunas que se projeta na direção do portão da cidade. — Estava fugindo.
O olhar dele busca um rastro de sangue vermelho, mas não encontra.
— Mas não está aqui.
O barão para na frente do portão destruído. O vento frio entra por dentro do manto; um arrepio corre pela espinha.
— E o portão, capitão? Viu como caiu?
— Não, senhor. Detectamos a alta concentração de mana e nos preparamos. Quando chegamos, já estava assim.
Alfred observa o local; o olhar vaga do portão destruído ao cascalho no chão. Apenas uma área apresenta uma fina camada de neve, como se o solo tivesse sido revirado. Pedregulhos espalhados. O olhar flui até as paredes das muralhas, intactas.
— Nosso convidado acertou o portão — ele joga um pedregulho para cima e o pega no ar — enfraquecendo-o e depois… atravessou… — o dedo dele desenha um arco no ar. — …e caiu ali.
Eles se aproximam da fonte. Uma leve deformação na neve fofa. Alfred passa a mão sob a camada branca; indo mais fundo, ele encontra algo.
“Areia?”
“Muita areia.”
— Areia? — o capitão franze o rosto. — De onde veio isso?
Alfred sorri de canto. Uma deformidade no tapete de neve. Um rastro quase invisível que a nevasca tentava esconder. Ele afasta a neve; o rastro se torna vermelho.
“Aqui está o ferimento.” Os olhos afiados notam o padrão na neve. “Fratura exposta! Ele se arrastou, apoiando-se em algo… na picareta, eu presumo.”
Alfred, com um punhado de areia em mãos, a deixa escorrer por entre os dedos; então se levanta, livrando-se do resto da sujeira.
— Astuto. Triturou o solo para pousar sobre um colchão de areia.
— Que diabos teria tanto controle sobre a terra? — O capitão brada, curioso.
Alfred lança um olhar frio. A nevasca já começa a ceder.
— Eu já disse, capitão. Um anão.
Ele começa a caminhar em direção à igreja.
— Se ele tiver sorte, o padre Antony ainda não voltou.
Alfred contorna a lateral do prédio, espiando um beco vazio.
— Um homem de sorte.
Dá passos rápidos e volta para a entrada principal.
Ele empurra as portas pesadas da igreja. Elas se abrem rangendo, deixando um feixe de luz solar invadir o interior, agora que a nevasca passou.
Alfred dá um passo à frente.
— Onde está nosso pequeno intruso?