Figurante B - Capítulo 11
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Dia 4 — Viagem rumo à capital
“Correr.. Preciso correr”. O corpo trai. Os músculos não passam de gelo inerte. O coração volta a bater forte, mas não rápido o suficiente. O sangue quente rega os músculos frios, mas a mana é mais rápida.
O tacape de madeira rasga a neve onde sua cabeça estaria um segundo atrás. A magia responde antes do corpo. A terra se ergue num impulso bruto, lançando Cid por cima da criatura.
Antes que o peso o puxe novamente, o chão explode de novo sob seus pés. Outra coluna o arremessa adiante. O corpo vai, solto, desobediente, mas a mente está sã, fervilhando, buscando uma saída. Ele não olha para trás, mas o estrondo das colunas sendo destruídas às suas costas faz o chão tremer e o estômago gelar.
Os olhos de Cid se apagam; a visão começa a traí-lo.
Mesmo assim, a terra continua se erguendo, empurrando, carregando.
— Mais… um… — O balbuciar é interrompido.
Uma mão grande se fecha em sua perna.
O mundo para. Ele só entende o que está acontecendo quando se vê de cabeça para baixo, com a mão enorme envolvendo seu tornozelo.
Uma coluna de terra tenta subir em reflexo, mas morre no meio do caminho, esmagada por um campo de mana pesado, sufocante. A magia dele simplesmente não passa.
O rosto do ogro das neves surge à frente, finalmente nítido. A respiração pútrida da criatura queima o olfato.
Olhos amarelados, pupilas horizontais. Pele acinzentada, grossa como pedra velha. O maxilar largo se abre num rosnado.
A morte parece um convite acolhedor, um fim para a para o frio que o corroi. O olhar da criatura o ignora e mira direto na criança em suas costas.
A respiração fraca bate no pescoço dele.
As sobrancelhas se franzem. Ele sente o próprio corpo arrancando energia de onde não havia, enquanto o cérebro o inunda de adrenalina.
— INFERNO!
O grito rasga a garganta junto com o vento. A cabeça gira balançando o corpo; enquanto ele tenta alcançar a picareta na lateral da mochila. A picareta quase escapa da mão. Os dedos enegrecidos, dormentes, se fecham no cabo por puro desespero.
O golpe vem rápido, desajeitado, sem ângulo. O arco corta o ar com um zumbido seco.
A criatura recua a cabeça por um triz.
Cid não espera. Gira sobre a própria perna.
O estalo do osso se partindo ecoa alto demais, rompendo o vazio da nevasca. A dor explode atrasada, cruel. No mesmo movimento, a lâmina da picareta volta num arco desesperado, acertando o meio do pulso do ogro.
O impacto é úmido. O sangue púrpura escorre em cascata pelo metal cravado na carne, mas o aperto não diminui. Cid puxa a picareta; a volta é devastadora. Carne e tendões se rompem. A força do aperto some, ele despenca.
A criatura urra. A dor sobe pelo braço enquanto a mão pende, estranha ao próprio corpo, balançando inutilmente.
O mundo gira.
Antes que ele atinja o chão, o pé do ogro acerta seu corpo como um aríete. Cid levanta a picareta por instinto. O impacto atravessa a madeira, o osso, o ar.
Ele é arremessado.
As cordas se rompem com um puxão bruto que derruba a mochila. Cid envolve Catherine nos braços num movimento desesperado. Uma chuva de cascalho se choca contra a madeira no mesmo segundo em que ele atravessa o portão, que se despedaça como papel molhado.
O chão da praça vibra antes do impacto.
Ele rola, bate contra a mureta da fonte. O som é distante, como se estivesse submerso. O sino da igreja explode no ar.
O barulho do aço responde. Armaduras, passos, vozes.
Soldados passam por ele correndo, gritando ordens que soam abafadas, distantes.
A consciência o abandona por um minuto ou dois.
O corpo encolhido sobre a mureta da fonte, quase invisível, coberto por neve e areia.
A visão oscila. Mancha, clareia, mancha de novo.
A perna virada do avesso.
Ele desviou o olhar; ver o ângulo errado do próprio membro era pior que a dor.
Sua visão vai direto para Catherine. Pequena demais. Frágil demais. O peito dela mal se move.
Ele puxa o ar frio que rasga a garganta enquanto força os músculos a obedecerem. O peso da menina antes era como uma pluma; agora parece o de cinco vagonetes carregados.
Cid finca a picareta no chão e a usa como muleta. A perna boa treme, mas aguenta. O mundo gira em círculos tortos, mas ele continua em pé.
A perna quebrada se arrasta, deixando um rastro escuro que a neve logo cobre.
Pelo canto do olho, ele vê silhuetas. Ouve gritos e urros, mas nada disso importa.
Cid se joga contra a porta pesada da igreja.
A picareta escorrega. O osso rasga a neve. Ele gritaria, mas não tem mais voz.
A perna boa perde força. Ele cai de costas. O peso da menina sobre o corpo quase o esmaga. Sente as próprias costelas ameaçando perfurar as entranhas.
A mão esquerda alcança a picareta e a empurra. Ele a bate contra a porta enquanto a vida escorre pelo canto da boca.
Bate de novo.
De novo.
A porta estala. O ranger da abertura vem junto com o colapso. Ele força a cabeça para trás, tentando identificar um rosto sob o manto pesado.
Cid abre o braço direito. Catherine rola suavemente. O ar, com dificuldade, inunda os pulmões. O sangue na garganta borbulha.
— Mana… ma…na…
A palavra mal se forma.
A mente de Cid se apaga.
O corpo desliga, inútil, no chão sagrado.