Figurante B - Capítulo 08
Ano 503, 13° meia-lua de jade.
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Pouco mais de 1 ano atrás.
Os cascos esmagavam a relva úmida enquanto o wyvern cuspia fogo sobre o campo.
— Nas asas! Derrubem essa desgraça!
Arthur gritava ordens montado em seu corcel branco, a capa batendo nas costas; em seu pescoço, um arco que balançava no ritmo do galope.
A dezena de homens puxa seus arcos, e as flechas sobem em enxame — e ricocheteiam nas escamas da criatura, que só ganhava altura.
Arthur saltou do cavalo ainda em movimento, deslizando pelo solo como se o próprio quisesse que ele continuasse. O sobretudo ficou para trás, revelando os braços marcados por tatuagens douradas que acenderam como metal em brasa.
Pilares de pedra rasgam o chão em um tremor que agita os cavalos e disparam ao céu, altos, violentos… A criatura desvia do primeiro, do segundo e do terceiro, ainda curtos demais para alcançar o monstro.
— Merda! — O arco bateu no chão de pedra. — Por pouco.
— Jovem mestre, devemos persegui-lo? — perguntou um dos cavaleiros.
Arthur acompanhou o wyvern voando rumo às montanhas, os olhos estreitos.
— Não. Não conseguiremos alcançá-lo antes que cruze a fronteira para o reino dos anões. Não é mais nossa caça.
Ele recolheu o arco, bateu a poeira com duas pancadas secas e o prendeu nas costas antes de montar novamente em seu cavalo.
— Dois mensageiros. Um para Fres. Outro para os anões. Avisem sobre a criatura… antes que alguém pague pela nossa falha.
A última frase sai seca, amarga, quase cuspida.
O cavalo mantém um trote firme no retorno derrotado.
Arthur atravessa o vilarejo em ruínas; sangue fresco, fumaça morna e olhos vazios seguem a comitiva. Uma mãe chora com o filho morto no colo; o braço da criança pende para fora do colo da mãe. Ele aperta as rédeas até os nós dos dedos embranquecerem. Não desvia o olhar.
Uma pedra atinge sua testa com força, mas a pele não se rompe nem se marca.
— Você não é um herói! — A criança brada enquanto a casa dela em ruínas queima ao fundo.
Antes que qualquer homem pudesse reagir, Arthur ergueu uma mão, impedindo qualquer reação.
As últimas casas ficam para trás e dão lugar a plantações silenciosas. Ninguém fala. O silêncio corta mais que qualquer lâmina.
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As portas da grande sala de jantar se abrem, pesadas demais para uma única pessoa.
Arthur entra sozinho e se senta na ponta da mesa longa.
Yoram serve o prato em silêncio.
— Meus pais?
A pergunta seca corta o silêncio enquanto ele fatia a carne.
— O Grão-Duque atendeu à convocação do Imperador de Avalon. Vossa mãe está em um chá na casa da Marquesa de Fres.
O som dos talheres contra a porcelana ecoa pelo salão vazio. Grande demais. Quieto demais.
— Chegou um convite da Academia Real.
A carta já aberta desliza pela mesa. Arthur lança um olhar rápido, limpa a boca e lê em silêncio.
— Bajulação institucionalizada… Que honra.
O sarcasmo na voz acompanha os olhos que se reviram.
— Conhecimento, jovem mestre.
Arthur se levanta antes de terminar o prato.
— Treino. Volto antes do pôr do sol.
O mordomo o acompanha com os olhos enquanto as portas pesadas se fecham com um baque seco.
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O fogo rastejava pelo campo de treino. As tatuagens douradas nos braços de Arthur pulsavam como brasas vivas.
— Um monstro como sempre. — A voz veio atrás dele. — Se continuar assim, logo não serei páreo para vossa graça.
Arthur parou no meio do golpe e virou. O sorriso surgiu antes mesmo de pensar.
— Barão Alfred… Demorou.
O homem alto de cabelos negros aparentava menos idade do que de fato tinha. Ele atravessou a arena com passos tranquilos.
— Vim ver vosso pai. Não está. — Deu de ombros. — Então sobrou você. Como nos velhos tempos.
Arthur já caminhava na direção oposta, abrindo espaço.
— Chega de conversa. Vamos lutar — a voz do garoto era impaciente; uma palavra quase atropelava a outra.
Alfred tirou o sobretudo. Tatuagens negras subiram pelos antebraços como serpentes adormecidas.
— Ouvi dizer que perdeu um wyvern.
A voz do barão o atinge quase como uma provocação. A expressão de Arthur é um conflito indecifrável, mas a raiva e a frustração se sobressaíam.
— Ele fugiu.
As runas do barão acenderam.
O fogo veio primeiro, uma onda larga varrendo o chão. Arthur bateu o pé e pilares de pedra romperam o solo, rachando o ataque em dois.
— Já enfrentei subterras mais rápidos que você — Alfred comentou, ácido, avançando.
Água explodiu do braço dele, transformando a arena em lama traiçoeira.
Arthur escorregou meio passo, praguejou baixo e respondeu com lanças de rocha. Alfred girou entre elas, leve demais para alguém daquele tamanho.
— Quatro atributos… E ainda apanha. — As palavras miram o ego e o acertam com precisão.
— Cala a boca! — Arthur ergueu as mãos.
Duas bolas de fogo desceram do céu. Alfred puxou uma coluna d’água; o choque explodiu em vapor. A arena sumiu em névoa.
Silêncio.
Arthur fechou os olhos.
Sentiu a vibração na água. Ar nas costas.
Explodiu para cima com uma rajada, limpando a neblina. Tarde demais. O chão congelou sob seus pés.
— Finalmente usando o ar direito — Alfred caminha pelo gelo, sua respiração virando fumaça fria.
Espinhos de gelo cresceram como dentes, aguardando a aterrissagem do garoto.
Arthur caía sobre ele, e respondeu instintivamente. Fogo bruto, violento. O gelo vira água instantaneamente.
Ele pousou, o pé desliza… E a lama o trai.
O joelho se apoia no chão devolvendo o equilíbrio.
Quando levantou o olhar, Alfred já estava ali. A mão empunhando uma espada de gelo parada a um sopro do rosto. Runas negras brilhando em silêncio.
— Xeque-mate.
Arthur soltou um riso curto e ergueu as mãos.
— Tá bom. Eu perdi.
Alfred o puxou pelo braço e o colocou de pé.
— Ainda é forte demais… E refinado de menos. — Sorriu torto enquanto balançava a cabeça. — Mas sobreviveria a uma guerra. Com sorte…
Alfred e Arthur caminham em direção aos portões.
— Minha irmã, sabe quando ela vem? — Ele pergunta enquanto chuta uma pedra.
Alfred sobe em seu cavalo.
— Anabela acabou de se recuperar de uma gripe, mas sua irmã chega a ser neurótica, não sai do lado dela… Acabou que não quis me acompanhar.
Arthur sorri de canto; o olhar distante vaga por lembranças antigas.
— Ela era assim comigo também. Se eu espirrasse, ela logo me enrolava em cobertores.
Alfred monta em seu corcel negro.
— Da próxima vez trarei Athos para que veja se sua esgrima não enferrujou.
O sol começa a se pôr enquanto a figura do barão some em meio ao horizonte.
Ninguém fica depois.
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O palácio engole o som dos passos dele. Criados se curvam e voltam ao trabalho sem dizer uma palavra. Portas fecham. Corredores longos iluminados por cristais brancos; uma luz fria que reflete o lugar.
No quarto, ele larga as botas no chão. O piso negro desenhado pelos padrões do mármore; a cama de linho o convida em um silêncio acolhedor, e ele se deita sem tirar as roupas. As tatuagens douradas ainda brilham fraco, como se o corpo não soubesse parar de lutar.
Arthur encara o teto por um longo tempo.
— Arthur de Avalon…
O nome soa estranho na própria boca, distante.
Ele vira o rosto para a parede e fecha os olhos.