Figurante B - Capítulo 09
Ano 505, 1ª Meia-Lua de Jade.
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Dia 3 — Estrada para a capital
O frio chega primeiro pela espinha.
Cid se encolhe junto à lareira de pedra, enrolado em um cobertor de pele. A madeira estala. O calor mal vence o vento que geme pelos túneis artificiais da caverna.
— Que frio desgraçado…
Ele sopra nas mãos, empurra mais um galho no fogo e observa a pilha de lenha — baixa demais para qualquer tipo de otimismo.
Ele suspira, joga o cobertor de lado e se levanta.
O corredor em espiral protege a entrada; uma curva de pedra bloqueia o vento direto. Ainda assim, quando ele pisa do lado de fora…
— Pelos nove infernos, eu acabei de sair!
O pé nu toca a neve. O corpo inteiro trava. Ele volta correndo.
— Botas! Botas! Botas!
Minutos depois, calçado e ainda xingando a própria linhagem genética, Cid encara a nevasca outra vez. Passos longos, metódicos, testando o chão antes de confiar o peso.
— Oito… nove… dez…
Uma pequena viga de terra se ergue atrás dele, marcando o caminho de volta. Outra… e mais outra. A nevasca cobre metade em segundos.
— Maravilha. Estou decorando a própria cova.
Duas batidas no tronco. O som oco confirma. A picareta desce pesada; a madeira morta se parte fácil. Ele agarra a árvore pelo tronco e começa a arrastar.
— Viajar no inverno… ideia genial!
Os galhos quebram sob suas mãos, acompanhando as reclamações. Estalos secos.
— Uma picareta para a viagem inteira… parabéns, Cidiney — clack — … quem precisa de machados quando se tem burrice hereditária?
Um grito. A picareta, debaixo do braço, cai sobre a neve fofa.
— ALGUÉM! AJUDA!
Cid congela. Uma voz masculina, rouca.
— AQUI! DO OUTRO LADO!!
Ele puxa a touca até encontrar o cachecol e força os olhos contra a neve. Duas sombras surgem. Um homem e uma mulher. O homem carrega uma garota pequena, o rosto vermelho demais para ser só frio.
— Rápido! Entrem!
Dentro da caverna, o calor da lareira recebe o trio. A menina é deitada na cama de pedra. A mãe torce um pano úmido e o coloca na testa da filha. A respiração dela sai pesada, irregular.
— Obrigado… — o homem diz, sem fôlego.
Cid alimenta o fogo.
— O que vocês estavam fazendo na estrada nesse inferno?
— Sou mercador… — o homem responde, sem tirar os olhos da filha. — As tempestades começaram cedo. A ponte caiu.
A mulher continua:
— Ela sempre foi saudável… nunca tivemos nada assim…
O homem tira a luva, aperta as mãos por um breve momento, testando os próprios dedos dormentes.
— Onde estão meus modos… — ele pensa em voz alta. — Eu sou Christopher. Esta é Ellie… e ela… — a voz falha — Catherine.
Ainda parado frente ao fogo, Cid estende a mão, maior e mais forte que a do pequeno mercador.
— Cidiney. Cid já serve.
O aperto de mão é rápido. Christopher sente os calos e a aspereza contra a palma da mão.
— Mineiro?
Cid sorri, olhando para a picareta encostada ao lado da lareira.
— Por parte de mãe. A outra metade, herbalista por parte de pai.
Cid se aproxima da garota. Seu olhar vai direto para a garganta; ele massageia as amígdalas. A primeira coisa a procurar são infecções ou inflamações. Cid puxa da mochila um pequeno saco com palitos de madeira. Ele abre a boca da garota, forçando a língua para baixo.
— Vamos ver se não há algum pus na garganta.
Em um movimento de mão, um pequeno círculo se abre sobre a pedra, deixando a luz do dia entrar. Ele posiciona a jovem; a sombra desaparece. A garganta está perfeita, rosa e saudável.
Ele testa a língua.
Depois joga o palito fora, sobre a lareira, e, com um movimento fluido, abre os olhos da garota. Olhos brancos, pupila respondendo como deveria.
— Até agora, tudo bem.
Ellie sorri.
— Graças a Deus.
Mas a expressão de Cid não é de alívio. Ele observa as articulações, escuta a respiração, olha o nariz. Nada. Nenhum outro sintoma.
— Tem mago na família?
— Não — Christopher responde de imediato.
Ellie hesita.
— Minha bisavó… diziam que a mãe dela… brilhava à noite…
O estômago de Cid afunda. Com um movimento brusco, a pequena abertura no teto se fecha.
— Merda!
Os movimentos dele perdem a compostura: agitados, arredios. Ele corre até a mochila e volta com um pequeno pacote; retira um punhado de erva verde, coloca algumas flores pequenas de aroma doce e tritura tudo em um pequeno pilão. Cada movimento parece apressado, desesperado.
— Vai segurar a febre.
Ele infunde em água fervendo, resfria até ficar morno e faz a criança beber, enquanto a mão treme, fazendo o líquido respingar.
Christopher o segura pelo braço.
— O que ela tem?
Cid quase hesita.
— Se não chegarmos a uma catedral… ela morre.
Silêncio.
A menina solta um gemido fraco.
E o frio lá fora parece ficar ainda mais perto.