Figurante B - Capítulo 04
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Túnel 36, três minutos atrás:
— Senhor Graves, tem certeza que é nesta direção? Não vi nenhum sinal de cobre.
Graves manca até o jovem anão que continua a escavação.
— Está insinuando que eu errei, Oscar? Seu fedelho dos infernos!
Graves afasta o jovem e espalma a parede.
— Não tem erro. Cale a boca e continue cavando.
No momento em que Graves se vira para se afastar, um pequeno torrão de terra cai sobre sua cabeça. Ele olha para cima e nota uma superfície branca. Sem hesitar, ele enrosca a picareta no jovem, puxando-o com força suficiente para arremessá-lo longe, enquanto a rocha se revela ser um bloco gigante de adenitita.
— Só me dá trabalho!
Foi a última coisa que Oscar ouviu enquanto o mundo parecia funcionar em câmera lenta; a figura do velho Graves sumia sob a rocha. Oscar cai prostrado no chão. O corpo mal responde quando ele toca o próprio rosto, sentindo algo quente. Quando a mão se afasta, nota as pontas dos dedos tingidas de vermelho. Seu olhar trêmulo e desfocado dirige-se para o chão, deparando-se com um braço ensanguentado projetando-se debaixo da pedra.
— AAAAAAHHHH!
Ele se levanta enquanto o corpo patina no cascalho, tentando conseguir aderência.
— SOCORRO! — grita o mais alto que pode, ouvindo vozes ao longe.
— ALGUÉM AJUDA! O SENHOR GRAVES! AAAAHHH!
O ar rasga sua garganta quando ele dobra à direita, deparando-se com a multidão.
— AJUDA! SOCORRO! O SENHOR GRAVES! O SENHOR GRAVES!
Oscar mal termina a frase quando os vultos de Cíntia e Cid passam por ele em uma velocidade sobre-humana. Cid ultrapassa a mãe, mas, ao chegar ao final do túnel 36, ele congela ao ver o braço no chão. Começa a hiperventilar e a tremer. Um instante depois, Cíntia passa por ele como um borrão, picareta em mãos.
Um golpe estrondoso ecoa quando a ferramenta dela se choca contra a pedra. Usando-a como suporte, Cíntia tenta erguer a rocha em um esforço desesperado.
— PAAAI! POR FAVOR… POR FAVOR, DEUS! NÃO!
O olhar de Cíntia vira-se para Cid; carregava raiva e uma tristeza profunda.
— CIDNEY!
Isso bastou. Cid volta a si, agarra sua picareta e a crava na rocha, juntando-se à mãe. A pedra treme, começando a ceder. O sangue escorre pelo metal das ferramentas de ambos.
— AFASTEM AS PERNAS!
Uma voz grave e ancestral ecoa pelo túnel. Cíntia enrosca o pé na perna de Cid, fazendo-o afastar-se para dar espaço. Dois anões mais velhos surgem; cada um, munido de picaretas pesadas, crava-as na base da rocha para fazer a alavanca. Cid escuta um grunhido vindo debaixo do peso. Ele sente o sangue ferver nas veias em uma descarga de adrenalina e tira forças de onde não tem, movendo a rocha o suficiente para que puxem Graves.
Cid não escuta mais nada. Seus olhos reviram enquanto ele continua erguendo o peso morto.
— SOLTA, GAROTO… SOLTA!
O corpo de Cid continua mantendo a rocha suspensa. Duas, três pessoas tentam fazê-lo soltar, mas seus músculos travaram em uma rigidez desumana. Até que ele para de respirar e cai para trás, desacordado.
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A luz queima a retina quando Cid tenta abrir os olhos. Em um susto, ele se levanta repentinamente da cama.
— VOVÔ!
Ele ofega enquanto o suor frio escorre pela testa; só então nota a mãe ao seu lado, segurando um copo de chá, com olheiras profundas. Antes que Cid possa se situar, é envolvido pelos braços de Cíntia, que o apertam com força.
— Graças aos deuses você acordou… Não me dê mais esses sustos, seu moleque!
Cid se deixa envolver pelo carinho da mãe por alguns instantes.
— E o vô? Onde ele está?
Cíntia se afasta, revelando a figura de Graves deitada na cama ao lado, pálido como nunca estivera. O braço direito, aquele que carregava a picareta com tanta maestria, termina agora em um cotoco enfaixado na altura do ombro. Antes de conseguir pensar, o corpo de Cid o lembra, com uma dor lancinante, do esforço que realizou. Ele se contorce e volta a se deitar.
— Ele vai ficar bem?
As mãos de Cíntia, sempre tão firmes, tremem enquanto seguram a caneca de chá.
— Eu não sei. O médico também não sabe… Costelas, pernas, braços… O doutor disse que é difícil saber o que não está quebrado, e que tudo depende da força dele para continuar vivo.
Cid suspira aliviado, fechando os olhos com um sorriso sutil. Cíntia incomoda-se com a reação.
— Posso saber o porquê do sorriso?
Cid abre os olhos enquanto ergue o punho com confiança, apesar da dor.
— A senhora já viu esse velho rabugento perder uma briga?
Cíntia sorri, quase gargalhando em uma mistura de tristeza e alívio.
— Você tem razão…
Uma voz fraca, quase um sussurro, corta o silêncio do quarto:
— Eu ainda vou enterrar todos vocês, seus fedelhos de merda…
Cíntia vira-se para o lado, chorando como uma criança e caindo de joelhos ao lado da cama do pai.
— Papai…
Os olhos ainda fracos do velho Graves permitem, pela primeira vez em mais de um século, que lágrimas caiam livremente por seu rosto desgastado. Com o que lhe resta de força, ele move o braço esquerdo, acariciando suavemente os cabelos da filha.
O sol nasce no horizonte. Do lado de fora, a camada de neve faz-se densa como uma parede. Os olhos de Cíntia se abrem; ela coloca o braço sobre o rosto e sussurra:
— Estranho…
— O quê? Não ouviu o barulho de pedra batendo no quintal? — Marcos pergunta, sorrindo ao lado dela.
Cíntia ri e, logo em seguida, começa a chorar.
— Eu não sei se quero que ele vá. Ele nem partiu e eu já estou chorando por não acordar com o barulho dele treinando no quintal.
Marcos abraça a esposa, cobrindo-a melhor.
— Bom, ele disse que não iria, então você deveria estar feliz.
— Mas eu quero que ele vá! — Cíntia responde com a voz chorosa e falhando. — É o sonho dele, e nós finalmente conseguimos o dinheiro.
Ela começa a soluçar. Marcos ri, quase gargalhando.
— Você tem que se decidir.
— Mas eu quero os dois! — Cíntia afunda o rosto no peito do marido.
Marcos levanta-se da cama.
— Tenho que medicar e trocar as ataduras do seu pai.
Ele caminha pela casa fria antes de acender a lareira. Aquece as mãos perto do fogo e, então, escuta risadas vindo do quarto de Graves. Ele se aproxima, escorando-se no batente da porta enquanto segura uma bandeja, ouvindo a conversa entre Cid e o velho.
— Aí eu peguei aquele elfo orelhudo pelos pés e disse: “Pega essa magia de água e vai lavar o rabo da sua mãe!”
Cid, Graves e até mesmo Marcos caem na gargalhada. Cíntia passa pela porta, entrando no quarto ainda com os olhos vermelhos.
— O senhor nunca se cansa dessa história, não é?
— Duas coisas das quais eu nunca me canso: boa bebida e ver elfo se ferrando!
Graves gargalha, seguido de uma tosse seca e um grunhido de dor.
O sol se põe cedo, dando espaço ao céu estrelado de Fres. Cíntia procura Cid pela casa e não o encontra; de repente, sente uma brisa fria e nota a porta da sala aberta. Antes de fechá-la, vê Cid sentado na varanda, admirando o céu noturno.
— A lua de jade e a lua de prata… Qual a senhora acha mais bonita?
Cíntia senta-se ao lado dele enquanto admiram a dupla lua cheia.
— Acho que prefiro a de prata… Pelo menos desde que minha avó me contou uma história dizendo que os goblins vêm da lua de jade. — Ela sente um calafrio.
Cid sorri e passa o braço sobre o ombro da mãe.
— Me desculpa, mãe. Eu agi como um idiota…
— E quebrou minha mesa — Cíntia completa, e Cid ri.
— Desculpa pela mesa também.
— Está me devendo uma mesa nova.
Eles riem juntos por um instante. Então, Cid olha no fundo dos olhos dela, com uma seriedade que não tinha antes.
— Eu já me decidi… Eu vou.