Figurante B - Capítulo 05
Ano 504, 3ª Meia-Lua de Jade
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O cantar dos pássaros anuncia o fim do inverno. Marcos toma seu café matinal. Os ferimentos, agora cicatrizados, tornaram-se marcas que sobem do peito e terminam na lateral do rosto. Ele observa Cid treinar sob a tutela de Graves.
— PIVETE IDIOTA! É isso que você chama de refino?
Cid brande enquanto materializa uma lança de pedra, de um tom mais escuro que o solo sob seus pés.
— Falar é fácil, seu velho senil. Tem pouco ferro no solo, não consigo trazer mais que isso.
— Se esse merdinha chegar na academia nesse nível, vai passar vergonha. Não quero receber cartas suas chorando porque estão te fazendo de idiota.
Uma pequena explosão de areia surge às costas de Graves, cobrindo o velho, que agora corre atrás do garoto.
Marcos sorri, encostado em uma viga, quando Cíntia passa correndo para o banheiro. O som da ânsia é seguido pelo barulho de água sobre a cerâmica. O rosto moreno de Marcos fica branco por um segundo. Com a voz trêmula, ele se aproxima da porta.
— Q-querida… você está bem?
A porta do banheiro se abre. O rosto de Cíntia está levemente pálido; os cabelos ruivos, despentados e completamente caóticos.
— Estou com vontade de comer carne coberta com melaço!
Marcos cai sentado no chão, com uma expressão conflitante.
— Eu achei… eu achei que seria impossível… Não acredito… eu vou ser papai de novo.
Cíntia sorri, olhando para fora, onde seu pai desajeitadamente se apoia na picareta, com o braço esquerdo sobre as costas de Cid, que está caído no chão. O riso exagerado de Graves ecoa pela casa.
As mãos de Cid tremem enquanto ele se levanta; o semblante endurece. Por um momento, ele sente medo — medo de que a criança que está por vir passe pelo que ele passou —, mas dispersa os pensamentos com um balançar de cabeça.
— Pentelho, avise os vizinhos. Hoje à noite haverá festa na casa dos Rocca. A família está aumentando.
Cid olha para o avô com um meio sorriso, acena com a cabeça e corre em direção à estrada.
O sol começa a se pôr enquanto Cid corta lenha, empilhando-a em um monte que já é mais alto que ele. Graves e Marcos finalizam o último trono de madeira.
Ao anoitecer, os anões começam a chegar, um após o outro, com travessas que exalam cheiro de comida fresca. As crianças correm pelo quintal iluminado por tochas. Cíntia se senta em um trono; sobre sua cabeça, as mulheres colocam uma coroa de flores. A música das flautas, acompanhada do alaúde e do acordeão, anima o povo, que dança ao redor do fogo.
No lado oposto da fogueira, Marcos está sentado em um trono igual, enquanto os homens lhe servem hidromel e o coroam com uma diadema de prata.
Como um vício repetido, Cíntia leva a mão ao ventre enquanto conversa com as mulheres. O velho Graves, junto dos outros veteranos, ri alto enquanto se embriagam.
A festa segue noite adentro. Cid está sentado sob a varanda, rabiscando algumas estruturas com um olhar pensativo, quando Marcos se senta ao seu lado.
— Como está o mais novo irmão mais velho de Fres?
Cid sorri enquanto seu olhar encontra a mãe.
— Nunca pensei que teria um irmão… ou irmã… sabe?
Marcos sorri enquanto observa as pessoas festejando.
— Quando me casei com sua mãe, eu já estava preparado para não ter filhos… e meu sonho sempre foi ser pai de uma grande família. Mas, quando me apaixonei por ela, ela passou a ser meu sonho.
Cid sorri, e Marcos continua:
— Duas crianças… — Marcos o envolve em um abraço, puxando Cid para perto — não acredito que conseguimos…
Cid sorri enquanto observa a fogueira, sussurrando:
— Espero que seja uma menininha.
Forma-se uma roda ao redor da fogueira; as pessoas dançam e giram. Marcos e Cid são puxados para o círculo. Os risos ecoam enquanto todos, de mãos dadas, giram de um lado para o outro.
O velho Graves assiste sentado, com um sorriso torto, quase amargo. O hidromel desce queimando por sua garganta.
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A noite passa em um piscar de olhos. O sol nasce iluminando Cid, que organiza o quintal enquanto desvia de algumas pessoas que ainda dormem no chão. Ele quase pisa em Jefrey, que está deitado com um balde na cabeça, abraçado a uma vassoura.
— Psiu, Cid!
Cid procura a origem da voz, olhando de um lado para o outro.
— Aqui em cima…
O anão sussurra do alto de uma árvore.
— Oscar? Como você foi parar aí em cima?
Cid segura a risada para não acordar os outros. Oscar resmunga de dor, levando a mão à cabeça.
— Eu não lembro de nada depois do segundo barril de hidromel… Me ajuda a descer daqui.
Cid segura a risada com todas as forças. Ele nunca havia visto um anão em uma árvore.
— Pula, eu te seguro.
Oscar olha para baixo, suando frio.
— Faz aquele negócio de magia e levanta uma pilastra.
— Não dá! Vai acordar o resto do pessoal. Pula logo.
Oscar respira fundo e pula.
— FEDELHO!
O velho Graves grita. Cid, por reflexo, vira o rosto, ignorando Oscar por um segundo — tempo suficiente para que ele caia prostrado no chão. O grito também desperta os anões que dormiam espalhados pelo quintal. Graves se aproxima e olha para Oscar.
— Eu já vi anão burro, mas tentar voar foi a primeira vez.
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Os dias passam, assim como os meses. Logo, a décima segunda Meia-Lua de Jade brilha no céu.
— Preciso de água quente e muito pano limpo!
A parteira brada enquanto Cid sai tremendo e desesperado pela casa.
— Você está indo bem, Cíntia. Agora, força!
Cíntia respira rápido, em dois tempos, e expira da mesma forma. Ela aperta um cabo de madeira com força; a madeira se desfaz, mas Marcos logo a substitui por outro, grato por não ser sua mão ali.
Cid corre pela casa com panelas de água quente. O velho Graves anda de um lado para o outro no quintal.
Marcos treme, pálido, quase sem se manter em pé. Ele ofega; a voz ameaça falhar, mas ele não permite. Segura a mão de Cíntia.
— Eu estou aqui. Estou aqui com você.
O suor escorre em cascata pela testa dela e, em um último esforço, ouve-se um choro. Todos congelam por um segundo, enquanto a parteira segura o bebê. Após cortar o cordão umbilical, ela o envolve em um pano e o entrega a Marcos, que involuntariamente deixa as lágrimas caírem, uma após a outra.
— Bem-vinda ao lar, Leonara.
Graves se aproxima, com os olhos lacrimejando, pega o bebê no colo e o balança sutilmente.
— Parece humana…