Figurante B - Capítulo 03
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Os pais de Cid já acordam pela manhã com seu despertador habitual: o barulho de pedras explodindo. Cíntia e Marcos vão até a varanda. Enquanto a água ferve, eles assistem ao empenho diário do filho, enquanto os primeiros raios de sol flertam com o horizonte.
— Cid! Hora do café da manhã!
Cid para abruptamente e sorri para os pais.
— Já vou! — Ele faz um movimento limpo com os braços, organizando o terreno.
A família está toda à mesa. Os pais trocam olhares e sorrisos enquanto Cid, despreocupadamente, passa manteiga no pão. Marcos limpa a garganta.
— Como foi o treinamento hoje? Conseguiu alterar a concentração do solo?
Cid morde o pão, quase se engasgando. Ele toma um gole de café.
— Ainda não. É difícil chegar à proporção ideal de ferro; tem que manipular muito solo.
Marcos sorri.
— Então acho melhor dedicar mais tempo ao treinamento!
Cid para e olha para o pai com estranheza; sorri quase com sarcasmo.
— Não vai dar, não. Só se eu parar de dormir. — Cid olha para a mãe e depois para o pai. — Estão agindo estranho a manhã inteira. Aconteceu alguma coisa?
Cíntia abre a boca, fecha, sorri de novo.
— Lembra do que você dizia quando era pequeno?
Cid franze a testa.
— Dizia o quê?
Cíntia olha para Marcos. Ele não responde.
— Que queria ir para a Academia.
Ela respira fundo.
— Você vai!
Cid levanta-se repentinamente.
— Tá brincando? Mãe, você não pode estar falando sério. É verdade mesmo?
Cíntia sorri junto com Marcos, que prontamente reafirma:
— Claro que é verdade!
Cid pula de alegria, mas repentinamente congela.
— Como conseguiram fazer o Marquês mudar de ideia e voltar a me patrocinar?
Marcos hesita.
— Não… Não vai ser o Marquês que vai te patrocinar, Cid.
O semblante do garoto muda; as sobrancelhas franzem em indagação.
— Se não vai ser ele, então de onde veio tanto dinheiro?
Marcos, relutante, conta toda a história para o filho.
— O quê?! Estão brincando, né? Você quase morreu! É a nossa chance de mudar de vida, de expandir as terras, de não precisarmos trabalhar o inverno inteiro… e vocês vão jogar tudo isso fora?
Cíntia altera o tom, quase irritada.
— Estamos fazendo isso por você, pelo seu sonho!
Cid dá um passo para trás; a voz sobe mais um tom.
— Meu sonho? Meu sonho era ser um grande mago para dar uma vida melhor para vocês! — Cid levanta a voz ainda mais. — Eu sou só eu, só um garoto como qualquer outro. Não me tratem como se eu fosse a droga de um gênio!
Ele bate a mão na mesa, partindo a madeira maciça em duas. O garoto volta o olhar para os pais, que estão congelados em choque. As lágrimas correm pelo rosto de Cid. Ele sai a passos pesados, pega a carroça de mão e começa a caminhar em direção à mina.
Os passos são lentos, puxando a carroça, enquanto ele observa a neve tocar seus pés descalços.
— Está quase na época de usar botas… — o pensamento escapa em voz alta.
A neve começa a se acumular sobre as árvores, refletindo a luz do sol nascente direto no rosto dele.
— Eu não sou mais criança…
Cid para e observa, ao longe, através de uma janela, uma família em volta de uma mesa. O coração aperta, mas ele volta a andar.
— Velhos idiotas.
Cada passo faz sua mente ser inundada de lembranças: cada dia de treinamento desde os três anos, quando brincava com magia; aos quatro, quando já fazia exercícios com o avô, que parecia esquecer que ele era uma criança; aos cinco, quando entrou na escola preparatória; aos sete, quando começou a ser alcançado pelos filhos dos nobres… e como foi expulso aos nove por ter perdido o apoio do patrono.
Cada passo parecia uma tortura sobre aquele sonho que ele fingia não se importar mais.
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— Fedelho!… Fedelho!… — O som oco da madeira chocando-se contra a cabeça de Cid o faz voltar a si, percebendo que já havia chegado. — Moleque de merda, onde está sua mãe?
Cid se encolhe e leva a mão ao local da batida.
— Deve chegar logo… — sussurra enquanto passa. — Velho reptiliano.
Graves ergue a picareta em ameaça.
— O que você disse, fedelho?
Cid acelera o passo com um sorriso forçado.
— Não disse nada. Sua audição deve estar zumbindo por conta da idade.
Cid bate o pé no chão, e um pequeno monte de terra se forma; ele limpa a neve de cima e senta-se. Graves bate o cabo da picareta no chão, e uma cadeira de pedra se ergue.
— Agora conta que raios você aprontou dessa vez.
Cid resmunga:
— Não aconteceu nada.
— O quê?! Fala para fora, garoto!
— É melhor perguntar para sua filha.
Cid levanta-se com a picareta na mão e entra na mina, caminhando até o túnel 35. Graves olha para o horizonte, vendo a figura de Cíntia se aproximar a passos pesados, com a pálpebra direita tremendo em espasmos.
— Cadê aquele bostinha? Ele quebrou minha mesa!
Graves calça o pé de Cíntia com a picareta e a empurra para trás no exato momento em que uma cadeira de pedra surge, fazendo-a cair sentada.
— Pelo Deus da Forja! O que diabos você fez que deixou aquele garoto oco como a porcaria de um geodo?
Cíntia respira fundo, tentando recuperar a compostura, e conta ao pai a situação. O som de madeira cortando o ar só para quando o cabo da picareta se choca contra a cabeça dela. Ela solta um grunhido e leva a mão à cabeça; nem se lembrava da última vez que levara uma dessas.
— Velho gagá de uma figa! Eu não sou mais criança para ficar apanhando!
— Pirralha impertinente! Fugia de casa a cada batida da bigorna por eu controlar sua vida e agora faz o mesmo com o garoto?
Cíntia é interrompida antes que pudesse retrucar.
— Agora chega de drama e vamos trabalhar!
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No túnel 35, Cid continua a minerar. Jeffrey, o único humano da seção, aproxima-se e começa a trabalhar ao lado dele.
— Brigou com sua mãe de novo?
O som sincronizado das picaretas ecoa pelo túnel. Cid coloca mais força do que deveria em cada golpe.
— Ela fica… decidindo… as coisas… por mim… — A voz falha com o esforço. — Aquela velha acha que eu sou o quê? Alguém que fica de boa enquanto os pais se matam de trabalhar?
Um torrão de terra choca-se contra a cabeça de Cid.
— Quem você está chamando de velha, seu pentelho?! — Cíntia avança na direção de Cid com a clara intenção de educar o filho ao estilo anão.
Jeffrey se afasta, assustado.
— Vocês não deveriam separá-los?
Os anões ao redor apenas ignoram.
— Famílias de anões são assim! — Um deles exclama, sorrindo.
Cíntia e Cid começam a “sair na mão”. Logo se forma uma pequena multidão; os anões assistem.
— Nós só queremos o que é melhor para você, seu idiota! — O punho de Cíntia colide com o estômago de Cid.
Cid segura a mãe em um impasse de força bruta.
— E eu não quero ser um peso para vocês! É tão difícil assim aceitar?
Jeffrey observa a cena, horrorizado. Cíntia desfere uma rasteira, fazendo Cid cair no chão. Ela sobe sobre ele, ofegante, com o punho ainda erguido.
— É a droga da missão dos pais… fazerem de tudo pelos filhos, seu merdinha de anão gigante! — Cíntia estende a mão para o filho, ajudando-o a levantar. — Se você está preocupado com a gente, trate de fazer valer a pena!
Cid levanta-se com o olhar choroso, mas a cena é interrompida quando um anão desesperado surge aos gritos pelo túnel:
— AJUDA! SOCORRO! O SENHOR GRAVES! O SENHOR GRAVES!