Figurante B - Capítulo 02
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Marcos respira fundo e avança floresta adentro, em busca de ervas cada vez mais valiosas.
Silêncio…
Tudo fica quieto demais. O vento para… os pássaros voam em debandada.
Uma explosão. O fogo começa a consumir as árvores enquanto duas bestas aladas gigantes se digladiam no céu. Marcos busca abrigo em uma pequena caverna, de onde consegue ver claramente um Dragão Menor lutando contra um Wyvern Maior. A luta é incessante. Criaturas menores fogem aos bandos entre as chamas.
A cauda venenosa do wyvern corta o ar, cravando-se nas costas do dragão, que responde com uma mordida fatal no peito da criatura. Um grunhido de dor ecoa com o último suspiro do wyvern, que cai no chão, sem vida, com um grande buraco no tórax. O dragão, envenenado e ferido, faz seu rugido ensurdecedor ecoar entre vales e montanhas — um aviso a qualquer criatura que ouse invadir seu território. A besta se retira, abandonando a presa.
Marcos encosta-se na parede da caverna, ofegante, as pernas mal respondendo. Seu coração parece que vai sair pela boca. Ele sai, crava uma estaca no chão e marca a sombra. Volta rapidamente para a caverna, joga as ervas no chão e, angustiado, acompanha o movimento da sombra. Cada ruído na floresta responde com um aperto no coração. Entre o estalar das árvores em chamas, seus olhos percorrem o perímetro incessantemente.
Após aproximadamente duas horas e meia, ele corre até o corpo do wyvern. Com a faca em mãos, entra pela cavidade aberta no tórax e, com esforço, sai coberto de sangue que corrói a pele, carregando um coração de mana petrificado em tons pretos e azulados. Com mais esforço, arranca dois dentes do dragão que ficaram presos na carne da presa, encontra mais duas garras soltas e joga tudo no cesto.
Ele corre como se sua vida dependesse disso — e dependia. Entre tropeços e quedas, chega a um riacho frio e pula na água para remover o sangue. Uma hora depois, chega em casa, tranca a porta e abre o cesto.
— Puta merda! — Marcos anda de um lado para o outro com um sorriso eufórico.
Ele cai sentado no chão, gargalhando. Quando a adrenalina começa a baixar, ele chora, deitado, com o braço sobre o rosto.
Marcos se levanta e olha para o céu com um respiro profundo.
— Ainda dá tempo de ir até a cidade.
Ele forra o cesto com um pano de estopa e parte, olhando recorrentemente para os lados, quase paranoico. Os ouvidos zumbem; o rugido da fera ecoa em sua mente enquanto as mãos tremem segurando as rédeas do cavalo.
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O cavalo trota sobre a ponte de madeira, adentrando a cidade de Kupfer, uma pequena cidade de 8.000 habitantes. Marcos amarra o cavalo e, quase tropeçando, passa pela porta da guilda. A recepcionista o recebe:
— Senhor Marcos, o que nos trouxe hoje?
Marcos se aproxima. Seus olhos se movem freneticamente, como se estivesse se escondendo de alguém o tempo todo, e ele diz, quase sussurrando:
— Preciso falar com o mestre da guilda. É urgente. Diga a ele que é o genro do Graves.
A recepcionista sobe as escadas rapidamente e, pouco tempo depois, acena para que Marcos a acompanhe. Ele olha para os lados uma última vez e sobe. Assim que passa pela porta, vê Atom, o líder da guilda: um anão bem vestido, sentado em uma cadeira luxuosa.
— Então você é o peculiar genro do Graves. Diga-me, senhor, o que tem de tão urgente que precisa ser tratado diretamente comigo?
Marcos coloca o cesto no chão e abre a tampa. A recepcionista, que ainda estava ali, espia por cima do ombro dele e se surpreende:
— Puta merda!
Atom franze o cenho e se levanta, indo até o cesto.
— Que linguajar mais vulgar, senhorita Lili. Não esperava tal… — Ele finalmente vê o conteúdo. — Puta merda!
Ele dá um passo para trás e, suando frio, volta a se sentar.
— Onde conseguiu isso, senhor Marcos? Melhor dizendo: o que quer fazer com isso? — Ele aponta para o cesto.
Marcos senta-se na poltrona e respira fundo.
— Eu sei onde está o resto do corpo… Quanto me paga por essa informação?
O velho acende um charuto e dá uma tragada.
— Vamos pular toda essa negociação. Devo muito ao primo Graves; se eu tentar ganhar mais que o justo sobre você, aquele velho senil vai bater na minha cabeça com um pedaço de pau. — Ele sopra a fumaça calmamente. — Quarenta por cento de todo o lucro do resto do corpo é seu. Esse valor não é negociável. Qualquer outro lugar lhe daria… bem, na verdade, matariam você e ficariam com tudo.
Atom nem espera a resposta; abre um mapa sobre a mesa.
— Mostre-me onde está!
Marcos não hesita e marca a localização.
— Bem aqui, próximo ao grande salgueiro amarelo. Você verá o estrago do fogo e sentirá o cheiro forte quando estiver perto.
Atom acena e fecha o mapa.
— Senhorita Lili, prepare o pagamento pelo coração de mana…
— Valor de família, senhor? — Lili pergunta prontamente.
Atom faz uma expressão de dor, como se estivesse sendo torturado, e concorda contra a vontade:
— Si-si… Sim, senhorita Lili.
Marcos o interrompe:
— Senhor Atom, se possível, eu não gostaria de levar todo o dinheiro agora. Quero apenas duas moedas grandes de bronze e uma pequena de prata. Preciso falar com minha esposa sobre o que faremos com o restante. Acho mais seguro deixar tudo aqui.
Atom se surpreende, mas assente.
— Boa escolha, jovem. Não é seguro andar com tanto dinheiro por aí.
Marcos sai pela porta da guilda com um sorriso, olhando para as moedas em sua mão, e caminha em direção a uma confeitaria local.
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O sol já se pôs há uma hora. Cid e Cíntia entram em casa, e tudo está completamente escuro. De repente, ouve-se um estalar, e o ambiente é iluminado por duas velas sobre um bolo simples. Em sincronia, pai e mãe começam a cantar “Parabéns para você”.
Cid congela, sem reação. As lágrimas começam a escorrer por seus olhos sem pedir licença; ele tenta desesperadamente limpá-las.
— O quê? Desculpa… — Ele soluça. — As lágrimas simplesmente não param de escorrer.
As pernas tremem. Ele cai de joelhos, e os pais o envolvem em um abraço apertado.
— Obrigado, mãe. Obrigado, pai…
As horas passam. Cid vai para o quarto, apagando, com os olhos inchados. Marcos e Cíntia sentam-se à mesa da cozinha para conversar. Ele conta tudo a ela. Cíntia levanta-se e caminha pela cozinha de um lado para o outro; está aflita e feliz — sua expressão é um caos de emoções.
— Isso é incrível, querido… — Ela congela por um instante, como se a realidade a puxasse de volta, e senta-se novamente. — Já entendi. Mas você acha que o dinheiro será suficiente? São três anos.
Marcos assente enquanto tira a camisa, revelando a pele em carne viva. Cíntia começa a tratar as feridas com compressas de ervas, como se já houvesse feito aquilo inúmeras vezes.
— O senhor Atom disse que, dependendo do estado em que o corpo do wyvern estiver amanhã, ele consegue negociar o pagamento dos três anos, mas sem incluir o dormitório e as refeições.
Os olhos de Cíntia lacrimejam, e ela abraça o marido, que solta um grunhido de dor.
— Você é um completo idiota. Poderia ter morrido. Além disso, sabe que, se comprássemos terras, nossas vidas mudariam… e, mesmo assim, quer fazer isso.
Marcos sorri.
— É obrigação dos pais fazer de tudo para realizar os sonhos dos filhos, não é? Que tipo de homem você acha que eu sou?
Cíntia sorri de volta.
— O tipo de homem que é o amor da minha vida.
As velas se apagam.