Figurante B - Capítulo 01
Ano 503 — 13ª Meia-Lua de Jade
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Território de Fres, área rural — Propriedade dos Rocca
A casa ficava logo à frente dos campos cobertos pela palha do trigo colhido no outono. As paredes eram sólidas, formadas por um único bloco de pedra que compunha toda a estrutura. As janelas de madeira se abriam enquanto o ar corria para dentro, trazendo o aroma do orvalho.
Cíntia e Marcos tomam café sentados na varanda, enquanto o sol ainda se prepara para nascer. O jovem Cid, agora com 12 anos, realiza seu treinamento matinal no quintal. O som da magia da terra é leve, preciso — pedra contra pedra. Cíntia sente um aperto no peito.
— Todos os dias, sem falta. Faça chuva ou faça sol.
Marcos balança a cabeça enquanto observa o primeiro floco de neve do inverno cair.
— Não sei como ele ainda aguenta ir trabalhar na mina com você todos os dias, mesmo no inverno.
Cíntia sorri, agora com o semblante mais leve, enquanto toca o próprio lóbulo da orelha — proeminente e espiralado. Em seguida, olha para a orelha de Cid, idêntica à dela.
— Não subestime a resistência de um anão. Ele pode ter a sua altura, mas é forte como eu.
Os primeiros raios de sol colidem com as gotas de suor que escorrem do rosto de Cid — um lembrete de que está na hora de trabalhar. Em um movimento rápido, toda a terra e as pedras espalhadas pelo chão voltam ao lugar, deixando o quintal plano e organizado. Cid seca o rosto e arrasta a carroça de mão, esperando pela mãe.
Marcos coloca um grande cesto de palha trançada nas costas; então, ele e Cíntia se beijam em despedida. Cid faz um som de ânsia de vômito.
— Credo! Pelo amor de Deus, vocês têm que fazer isso todas as manhãs na minha frente?
Cíntia dá um tapa no traseiro de Marcos e, em seguida, uma piscadela enquanto ele caminha em direção à floresta. Cid sente um calafrio correr pela espinha enquanto dá as costas e começa a andar, puxando a carroça de mão pela estrada. Sua mãe logo o alcança.
— Você deveria ser grato por ter pais que se amam tanto.
Cid suspira.
— E a senhora deveria ser grata por eu não ficar traumatizado.
Após uma hora de caminhada, Cid e Cíntia chegam à base de uma grande montanha. O entorno está agitado: anões, marretas, picaretas e pás de todos os tipos por toda parte. Um anão manco, mais velho, aproxima-se deles com uma expressão carrancuda e, ao mesmo tempo, amistosa.
— Cíntia, vou precisar do garoto.
Antes que ela responda, ele puxa Cid pela blusa, guiando-o para dentro da mina. Cid se deixa levar enquanto a mãe apenas balança a cabeça.
— O que houve, velhote? Achou algo na mina que precise de mim?
A entrada da caverna é sustentada por vigas robustas de madeira. Fungos fluorescentes espalhados pelo teto iluminam os túneis escuros.
O velho sorri.
— Vamos expandir o túnel 36, mas preciso saber para qual lado há mais minério de cobre…
Ele para, furioso, ao ver dois vagonetes carregados de minério obstruindo a passagem.
— Aqueles desgraçados do lado sul! Já falei para tirarem todos os vagonetes antes de irem embora.
Graves segura o vagonete da ponta e começa a puxar. Em um rangido de ferro contra ferro, as rodas começam a se mover; um estalo interrompe o movimento.
— Pelos nove infernos! — ele grita, soltando o vagonete e levando a mão às costas. — Minhas costas estão me matando…
Cid rapidamente coloca o velho sentado em um canto.
— Deixa que eu puxo, nobre ancião. — A voz dele é carregada de sarcasmo ácido. — O senhor já não tem idade para isso. Não era para ter se aposentado há vinte anos, seu velho gagá?
O velho resmunga enquanto joga um pequeno torrão de terra na cabeça de Cid.
— Moleque dos infernos! Sua mãe não te deu educação? Isso é jeito de falar com os mais velhos?
— Deu sim, mas também disse que fósseis deveriam estar no museu.
Cid dá uma gargalhada, logo acompanhada pela risada escandalosa do velho anão. Graves bate nas costas de Cid com o cabo da picareta que usava como bengala.
— Agora puxe logo esse vagão, seu neto de merda!
Os músculos do braço de Cid tensionam-se enquanto ele começa a puxar os vagonetes. O ranger das rodas metálicas contra os trilhos ecoa pelos túneis ainda vazios. Pequenos grãos de pedra e terra flutuam ao redor dos vagonetes, que agora se movem facilmente — até que, de repente, o cabo de madeira atinge a cabeça do jovem. Ele solta os vagonetes, que correm pela descida até o ponto inicial. Cid leva a mão à cabeça em um grunhido de dor.
— Ai! Por que fez isso, seu velho maldito?
Graves bate outra vez.
— Já disse para não usar essa droga de magia! Você está aleijado? Use o corpo enquanto está na fase de crescimento.
Cid segura os vagonetes novamente. As veias saltam em seu rosto e braços; com um ranger, as duas toneladas começam a se mover enquanto ele as puxa, vencendo a inclinação. Enfim, os vagonetes liberam a passagem. Cid os freia e vai até o final do túnel com o avô. O velho encosta o rosto na parede; Cid faz o mesmo.
— Minério de cobre… — Cid dá leves batidas contra a pedra. — Não tem nada próximo o suficiente. Vamos ver mais longe.
Cid espalma a parede com força, sentindo a vibração se propagar. A terra responde quase imediatamente. Com um sorriso confiante, ele olha para o avô.
— Vinte graus ao sul.
O cabo de madeira choca-se contra sua cabeça novamente.
— Moleque de merda! VINTE E QUATRO! VINTE E QUATRO GRAUS!
Cid se abaixa, gemendo de dor, com as mãos na cabeça.
— Não precisava me bater, seu dinossauro! Eu quase acertei!
A hora do almoço chega. Todos se juntam do lado de fora, sob a sombra das árvores; alguns contam piadas, outros discutem projetos. Há tudo, menos silêncio. Cid senta-se ao lado da mãe e do avô em um banco de pedra recém-erguido.
— Realmente é como dizem — Cid comenta, após notar o olhar indagador da mãe. — “Você certamente vai ouvir os anões antes de vê-los.”
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A floresta densa se projeta aos pés da montanha verde. Marcos almoça sob a sombra de uma árvore. O cesto de palha trançada ao seu lado está carregado de plantas e ervas até a metade. Ele finaliza a refeição, joga o cesto nas costas e encara a mata fechada.
Em seguida, seus olhos se direcionam ao céu, onde a meia-lua de jade divide espaço com o sol quente do meio-dia. Era o 22º dia da décima terceira meia-lua de jade do ano; ou seja, amanhã será o aniversário de 13 anos de Cid.
— Pelo Cid — ele sussurra, tomando coragem.