As Noites da Imperatriz (novel) - Capítulo 60
────────∘⊰⋅⋅⋅⋆
Tradução: Gab
───────────┘
“No que você está pensando?”— perguntou Enoch.
Aran, que estivera absorta em pensamentos o tempo todo enquanto estava diante dele, deixou-o inquieto por dentro. A princesa continuava encarando o vazio, como se não o tivesse ouvido.
“Vossa Alteza.”— Enoch moveu o braço desconfortável e tocou levemente a mão de Aran. Só então o foco dela retornou para ele, com os olhos verdes turvos.
“Hã…? Você disse alguma coisa?”
“Há algo preocupando-a?”
“Não.”— A resposta saiu rápido demais. Qualquer um perceberia que era mentira. Os olhos de Enoch se estreitaram. Evitando o olhar afiado dele, Aran suspirou de forma contida.—”Você já sabe.”
“Pode falar.”
Não importava o que fosse dizer, ela não conseguia abrir a boca. Quando o impaciente Enoch estava prestes a pressioná-la, Aran deixou escapar:
“E se houvesse uma forma de restaurar o seu nome?”
Enoch riu, pois as palavras que ela finalmente pronunciara após tanta hesitação eram absurdamente aleatórias. Nunca na história do Império um traidor ou sua família haviam recuperado sua posição original. Em parte, isso se devia ao fato de que o sangue dos traidores era exterminado do mais velho ao recém-nascido, mas mesmo que alguém tivesse a sorte de sobreviver, acabava vivendo uma vida miserável e morrendo da mesma forma. O fato de ele agora poder encarar a princesa já beirava um milagre. Que imperador perdoaria um pecador que tentou assassiná-lo e exterminar sua linhagem? Era algo que jamais deveria ser feito, nem mesmo em nome da imagem da família imperial.
“Isso não vai acontecer. E não saia falando isso por aí. Não apenasa minha pessoa, mas a sua também pode virar alvo de rumores desnecessários.”
O Príncipe Herdeiro não era tão complacente com Aran quanto o Imperador. Ele conseguia esconder sua verdadeira natureza, mas era basicamente ganancioso e cruel, e não perdoava quem contrariasse a sua vontade, por mais trivial que fosse. O mesmo valia para o irmão que compartilhava do mesmo sangue e da mesma mentalidade. Até agora, ele não havia tocado em Aran por receio do Imperador, mas Enoch não sabia como isso poderia mudar no futuro.
“Seja mais cuidadosa, especialmente na frente do Príncipe Herdeiro ou dos assessores de Sua Alteza.”
“Não existe nada absoluto neste mundo. E se… se de verdade… e se o irmão Luazan se oferecesse para perdoá-lo?”
“Sua Alteza, o Príncipe Herdeiro?”— Enoch franziu a testa.
Mais plausível do que o príncipe herdeiro conceder-lhe perdão seria o próprio Imperador se levantar subitamente do leito de enfermo e restaurar o Ducado de Roark.
Enoch não se deu ao trabalho de dizer isso a ela. Estava frustrado com Aran, que saía falando coisas perigosas que colocariam ambos em grandes problemas se alguém as ouvisse. Ela tinha uma aparência belíssima e uma riqueza que todos cobiçariam, mas não era fria nem astuta o suficiente para se proteger. Aran, piscando os grandes olhos, de repente segurou a mão dele com força e perguntou:
“Se isso acontecesse… você se casaria comigo…?”
“O quê?”— Dessa vez, Enoch não conseguiu esconder a sua perplexidade. O que diabos estava se passando naquela cabecinha dela?
Aran o encarava com expectativa, ruborizada até as orelhas.— “Hein? Responda, Enoch.”
“…Como um servo poderia falar em se casar com Vossa Alteza?”
“Então vamos supor que não seja um servo. O que faria se eu encontrasse uma maneira de tornar isso possível?”— Aran aguardou a resposta de Enoch.
Ela não tinha nenhuma intenção de enviá-lo para a fronteira oeste, como Luazan sugerira. Apenas queria libertá-lo de sua situação atual a qualquer custo — se ele assim desejasse.
Por que nunca havia pensado nisso antes?— Aran se recriminou.
Até então, pensara somente em ajudá-lo a recuperar o corpo, sem jamais considerar a honra ou o orgulho dele, que certamente haviam sido profundamente feridos.
Enoch respondeu com voz calma.— “Isso é algo impossível, mesmo para Vossa Alteza. Eu não faço suposições incertas. Não quero desperdiçar tempo com fantasias sem sentido. Se outra pessoa tentar deslumbrá-la com esse tipo de blefe, mande-a embora imediatamente. Ela jamais a ajudará em nada.”
Enoch nunca imaginara que a origem dessa fantasia fosse o próprio Príncipe Herdeiro. Desde muito antes, ele nutria uma estranha antipatia pelos dois príncipes. Antes do acidente, Aran não se importava, pois quase não tinha contato com eles, mas recentemente passou a se sentir desconfortável.
“A propósito, houve alguma notícia do Príncipe Herdeiro ou do Segundo Príncipe?”
“Hã? N-não…”
Enoch lançou-lhe um olhar desconfiado.— “Tem certeza?”
“Sim. Nunca fomos muito próximos mesmo…”— Aran gaguejou, improvisando uma desculpa.
Enoch odiava tanto os príncipes que ela ainda não conseguia contar que havia se aproximado deles. Ela queria ajudá-lo a fazer o que quer que ele desejasse, mas, por outro lado, não era fácil apagar o sangue de traidor que corria em suas veias. Além disso, o estado do Imperador piorava a cada dia e Enoch estava acamado, e ela acabava se tornando cada vez mais dependente dos príncipes.
Aran também se sentia frustrada com a situação atual. Na verdade, se Enoch explicasse claramente por que odiava os príncipes, ela poderia compreender de alguma forma, mas ele sempre respondia de maneira vaga. Temendo que ele criticasse a sua família com seu tom cortante característico, ela optou por se calar. Em vez disso, decidiu resolver o mal-entendido organizando um encontro entre Enoch e seus irmãos quando ele se recuperasse.
“Se Sua Alteza o Príncipe disser algo estranho, você deve vir me contar imediatamente. Entendeu?”
“Está bem. Farei isso.”
Quando o semblante de Aran se tornou abatido, Enoch acrescentou em tom suave, achando que havia sido duro demais:
“Não é que eu não confie em você, mas não confio nas pessoas deste mundo. Você deve desconfiar até mesmo das pessoas mais próximas.”
“Sim. Eu sempre faço isso.”
Exceto por você e pelo meu irmão — acrescentou Aran para si mesma.