As Noites da Imperatriz (novel) - Capítulo 58
────────∘⊰⋅⋅⋅⋆
Tradução: Gab
───────────┘
Enoch também conhecia aquele sentimento. E foram os pais de Aran que o tornaram um órfão.
Por mais desprovidos de afeto que seus pais tivessem sido, ele não conseguia sentir compaixão — nem mesmo piedade — por aqueles que haviam matado seus únicos parentes de sangue e o lançado ao fundo do poço.
Ainda assim, a dor de Aran era maior e mais profunda do que o ódio que ele nutria por eles. Enoch se surpreendeu ao perceber onde estava escondida aquela parte sensível de seu coração. Aran enxugou as lágrimas e sorriu, com o rosto ainda inchado.
“Mas a minha mãe também não gostaria que eu ficasse triste por tanto tempo. E meu pai irá recuperar a saúde quando eu me animar.”
Ela teve a ousadia de lamentar o infortúnio de seus pais diante dele, mas Enoch não sentiu repulsa alguma por isso.
“O Imperador certamente recuperará a saúde.”
“Sim. Ultimamente, leio livros ao lado dele todos os dias. Ele não se lembra de mim, mas gosta muito de ouvir a minha voz.”
Enoch também gostava da voz da princesa. Era suave, porém clara na pronúncia, com um tom estável que transmitia uma sensação delicada. Quando ela sussurrava seus sentimentos por ele com aquela voz, ele sentia que coisas como orgulho e o ressentimento que carregava como herdeiro do Grão-Ducado desapareciam por completo.
Enquanto Enoch fitava seus lábios, Aran corou e baixou o olhar, percebendo o que ele pensava. Com dificuldade, ele desviou os olhos de sua boca e disse:
“Entendo. Que alívio.”
Por um instante, um ar constrangido pairou entre eles. Enquanto apenas se olhavam, uma voz chamou Aran do lado de fora da porta.
“Sua Alteza, já está tarde da noite. Vamos embora agora.”
Enoch lançou um olhar para a porta firmemente fechada. Do outro lado, estava uma dama de companhia que acompanhava Aran aonde quer que fosse. Desde o que ouvira de Enoch anteriormente, Aran passara a estar sempre acompanhada por uma dama ou um escolta.
“Vá antes que fique tarde demais.”
“Ainda tenho um pouco mais de tempo…”
“Vá.”— Enoch insistiu mais uma vez. Aran levantou-se a contragosto, lentamente.
“Voltarei amanhã.”— Ela deixou um beijo leve em sua bochecha, com um ar triste. Enoch também se sentiu abatido. Assim que o calor gentil dela desapareceu, uma solidão insuportável se abateu sobre ele.
A porta se fechou, e no lugar onde Aran estivera restou apenas a escuridão. Enoch voltou a dormir, desejando que o dia seguinte chegasse logo.
⋆⋅⋅⋅⊱∘──────∘⊰⋅⋅⋅⋆
Sabendo que Aran ainda não havia desistido de Enoch, os príncipes decidiram afastá-lo dela. Agora ele não passava de um servo sem grande importância, mas não havia nada de positivo em mantê-lo próximo de Aran. Além disso, não podiam deixar aberta nem mesmo a menor possibilidade de um escândalo, se quisessem negociá-la por um preço mais alto.
No entanto, não podiam perseguir abertamente Aranhrod, a amada filha imperial, então decidiram, por ora, apaziguá-la. Luazan convidou a irmã para jantar e, de forma cuidadosa, começou a sondar seu coração.
“Como o Grão-Duque de Roark tem passado ultimamente, Aranhrod?”
De repente, Luazan trouxe à tona o Enoch, e Aran quase deixou a colher cair. Além disso, ele o chamara de Grão-Duque. Ela não tinha como saber o que aquilo significava. Ao lançar um olhar furtivo para o rosto do irmão mais velho, viu que ele parecia tão gentil quanto sempre.
Aran hesitou por um momento antes de responder.
“Não é algo que coloque a vida dele em risco, mas ainda está em tratamento, pois os ferimentos foram muito graves.”
“Que pena. Ainda assim, é um alívio que ele tenha sobrevivido.”
“Sim…”
“No fim das contas, ele é o benfeitor que salvou a sua vida, então é natural que eu o recompense como o seu irmão mais velho.”
As palavras fizeram os olhos de Aran se arregalarem. Ao mesmo tempo, eles brilhavam com uma expectativa sutil.