As Noites da Imperatriz (novel) - Capítulo 46
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Tradução: Gab
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As refeições luxuosas, que ele não comia havia tanto tempo, eram incomparáveis às dos criados. Ele lambeu a tigela até deixá-la limpa, sem sobrar nada. Foi uma refeição extremamente satisfatória.
Aran ficou furiosa ao descobrir que era sempre o mesmo criado quem atormentava Enoch. Mas Enoch, que sabia o quanto ela era de coração fraco, não esperava muito. Sua única esperança modesta era que as surras e o assédio ao menos diminuíssem.
Contudo, naquela noite, ele percebeu que Aran era mais determinada do que imaginara. Depois de jantar com a princesa, alguém o chamou em segredo de volta aos seus aposentos, após ele concluir o restante do trabalho. A mulher de rosto familiar era a dama de companhia que servia a princesa havia mais tempo. Ela conduziu Enoch a um cômodo amplo e escuro.
Enoch, que observava o interior com curiosidade, logo encontrou James e seu grupo. Todos estavam amarrados pelos pés e pelas mãos, e Aran estava sentada diante deles.
“Vossa Alteza?”— Aran ergueu o olhar ao ouvir a voz de Enoch. Seu semblante parecia sombrio. Enoch passou por James e pelos outros criados e aproximou-se dela.
“De início, pensei em puni-los eu mesma, apenas fazendo-lhe sofrer o dobro do que você sofreu. Mas, pensando melhor, não sei o quanto realmente foi.”— Aran lançou um olhar fulminante aos criados.—“Eles apenas me pediram que os perdoasse.”
“Foi por isso que quis me chamar?”
“Não.”— Ela balançou a cabeça e fez um gesto à dama de companhia. Esta trouxe uma longa caixa de madeira e a entregou a Enoch. Dentro havia um chicote, uma espada, um punhal e outros objetos.
“Retorne tudo isso a eles com as próprias mãos. Eu assumirei toda a responsabilidade por tudo o que acontecer aqui.”— Quando Enoch não respondeu, Aran se apressou em acrescentar, interpretando mal o silêncio dele.— “Se não conseguir, pode pedir que meu guarda faça isso em seu lugar.”
“Não, estou apenas surpreso. Não achei que você se importasse tanto.”
“Porque tenho sido imensamente indiferente… Mesmo que isso não compense toda a dor que você sofreu, quero que se sinta um pouco melhor.”
A maioria deles era de origem aristocrática; ainda que ela fosse membro da família imperial, e ainda que eles fossem criados, não havia como escapar das consequências desse ato. Aran decidiu pagar todo o preço por Enoch. Ele estava disposto a aceitar a bondade dela. Se já ia recorrer à ajuda da princesa, era melhor utilizá-la por completo, em vez de recuar na metade do caminho.
Enoch pegou o chicote de aparência mais simples entre todos. Ao ver isso, Aran levantou-se do assento.
“Preciso voltar agora. Deixarei um guarda aqui, por precaução.”
Enoch inclinou a cabeça e agradeceu a Aran.
Ela fechou os olhos uma vez, em reconhecimento, e logo deixou o aposento. Partiu porque não tinha coragem de assistir a cenas de violência, mas também para permitir que ele os punisse sem constrangimentos. O grau da punição não havia sido estipulado, de modo que ela não sabia se ele se lembrava de sua promessa de que os mataria, se assim desejasse.
Enoch aproximou-se de James, sem pressa. Este ergueu o rosto para ele, tomado pelo medo. Seu rosto já estava coberto de lágrimas e catarro.
Enoch soltou as amarras dele e o deixou livre.
“O… O que você está…?”— James perguntou, extremamente nervoso.
“Pois um oponente que não pode reagir não tem graça.”— Enoch respondeu com indiferença.
Compreendendo o sentido daquilo, James piscou várias vezes e logo riu de maneira vil.
“Está dizendo que ainda tem orgulho? Logo vai se arrepender da sua decisão!”
Enoch o espancou sem piedade quando ele avançou. Em pouco tempo, a violência unilateral teve início.
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Depois que alguns criados foram convocados pela Princesa e devolvidos envoltos em mortalhas funerárias, não restou mais ninguém disposto a provocar o Enoch.
Preocupado com o peso que recaía sobre a princesa, ele não tirou a vida dos criados nem lhes infligiu ferimentos fatais. Não por consideração a Aran, mas por causa do imperador, que o observava. O Imperador sabia que ela ainda não havia se desvinculado completamente de seu antigo noivo.
Enoch não se esquecia de que era um brinquedo entregue a ela pelo Imperador. Aran ainda era jovem e Enoch não causara grandes problemas, por isso ele o tolerava; mas, se tivesse a oportunidade, o governante se livraria dele imediatamente. Enoch não tinha do que reclamar, bastava que servisse de exemplo para eles.
Curiosamente, quando o assédio cessou, ele adoeceu gravemente, talvez por ter relaxado. Achava que sua saúde estava bem, já que não era afetado mesmo apanhando todos os dias, mas talvez não fosse exatamente assim. Enoch permaneceu sozinho na cama, olhando para o teto que oscilava de forma vertiginosa. Após o incidente, passou a usar o quarto sozinho. Era um luxo que um servo de baixo escalão, ou mesmo um plebeu, jamais poderia desfrutar.
Ele não tinha família nem amigos, portanto ninguém veio cuidar dele. Mas isso não o feriu. Pelo contrário, achou até uma sorte não haver ninguém para incomodá-lo. Já estava exausto, então permaneceu deitado, dormindo o dia inteiro.
Contudo, no meio da noite, Enoch abriu os olhos ao sentir um toque suave em sua bochecha.