As Noites da Imperatriz (novel) - Capítulo 40
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Tradução: Gab
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Diante da princesa, que acabara de pousar seu bordado desajeitado, um criado colocou uma xícara de chá. Aran, que por acaso ergueu o olhar para ele, endureceu a expressão ao reconhecer o rosto do servo.
“Eu lhe disse para não fazer isso, Enoch.”
“O que cabe a um servo fazer, se não o próprio trabalho?”—perguntou o belo garoto, sem a menor simpatia.
“Você não é um servo. Você é o meu noivo. Quem ousaria fazê-lo trabalhar? Diga-me quem é e eu o punirei severamente.”
“O noivado já foi desfeito. Tudo por causa dos pecados que meus pais cometeram contra os seus.”
“Não diga isso. Se eu falar com o meu pai, o noivado poderá ser restabelecido em breve.”— respondeu Aran, com a voz insegura.
“Não importa o que você diga, não é possível restabelecer o noivado com o filho de um traidor. Sua Majestade já demonstrou grande misericórdia apenas por me manter vivo.”
“Meu pai concede a mim todos os meus pedidos.”
“Assim que seu pedido for longe demais, ele me escravizará e me enviará para um lugar de onde não poderei voltar.”— O que ele dizia era verdade. Aran abaixou a cabeça.
“Se não há mais nada para eu fazer, irei me retirar.”
“Não! Não vá.”— Aran agarrou a mão dele às pressas e o puxou para a cadeira ao seu lado.— “Você terá de trabalhar de novo quando sair. Deve estar cansado. Sente-se aqui e descanse.”
Em vez de se sentar, Enoch fitou a princesa. Aran esforçou-se para sorrir quando seus olhares se encontraram. Apenas a princesa não sabia que a sua gentileza o deixava ainda mais aflito. Os olhares das pessoas dentro do palácio imperial jamais foram agradáveis para Enoch. A elegância e a beleza que herdara do Grão-Duque haviam sido, desde que se tornara servo, fatores que despertavam inveja e desejos vis nos outros.
Os demais criados despejavam em Enoch todo o ressentimento que recebiam de seus senhores. Agora que seu status era o de um plebeu, nada os continha. Até mesmo os servos originalmente oriundos do povo comum o ignoravam. Era comum ele levar socos enquanto dormia sem motivo algum ou encontrar lixo em sua comida. Enoch tinha força suficiente para impedi-los, mas nunca resistiu. Como resultado, pequenos ferimentos em seu corpo não cessaram desde que fora rebaixado a servo.
Às vezes, damas e criadas de alta patente tentavam seduzi-lo. Sempre que ele recusava com educação, palavras abusivas e críticas afiadas substituíam os gestos insinuantes que, por vezes, deixavam marcas mais profundas do que a violência física. Apesar do tratamento insultuoso, Enoch rapidamente aceitou a própria situação e escolheu sobreviver. Contudo, a princesa ingênua tratava-o descaradamente com um cuidado especial e, por isso, o assédio não cessava, por mais que ele tentasse evitar. Por mais firme que fosse a sua determinação, Enoch também era um homem e ainda jovem, e não conseguia deixar de se irritar com a princesa em certas ocasiões.
“Não entenda errado. Eu já não sou seu noivo. Ou pretende zombar de mim?”
“O que você quer dizer com zombar…?”— Não foi uma crítica dura, mas para Aran, que jamais fora repreendida antes, aquilo bastou para chocá-la. O rosto da princesa empalideceu.
Enoch sentiu um prazer distorcido. Ele podia ver, no rosto atônito dela, um pouco do que os servos faziam com ele.
“A minha intenção não era essa. Eu só estava pensando em você…”
“Se realmente pensa em mim, então trate-me como um servo qualquer.”
“Enoch.”
“Não me chame pelo nome. Quem se lembra do nome de cada jm dos servos?”
Lágrimas brotaram nos olhos da princesa. Enoch fingiu não perceber e deixou os aposentos dela sem prestar as devidas reverências.