Tentando o sacerdote e indo para o inferno - Capítulo 05
— Você não me ouviu? O que está encarando?
— …É que você é muito bonita.
— Ué, nunca viu uma mulher linda antes?
— Nunca… Jamais vi alguém tão linda assim. Quase me apaixonei por você… Ah, desculpe se fui inconveniente.
A senhorita Evotte soltou uma risada, como se achasse a resposta de Rarien completamente absurda.
— Me bajulando desse jeito… O que está querendo? Tentando se aproximar de mim para conseguir alguma vantagem?
‘Meu Deus… Isso é loucura.’
Mesmo tirando conclusões precipitadas e ficando irritada, ela continuava incrivelmente linda.
Especialmente quando seus olhos felinos encontraram os dela, seu coração batia como um louco. Rarien se esforçou muito para manter a compostura.
— …Na verdade, eu tenho segundas intenções. E, sim, pretendo me aproximar de você.
Para a surpresa de Sera, Rarien admitiu isso com toda a calma diante do interrogatório afiado.
— O quê?
— Mas não quero nada de graça. Ouça minha proposta. Se não gostar, pode recusar.
Evotte mantinha uma expressão incrédula. Independentemente disso, Rarien, que não se abalou nem um pouco, começou a tirar o que havia preparado de sua bolsa.
Ela colocou uma garrafa de vinho sobre a mesa.
— É o vinho que você queria. Escolhi cuidadosamente uma safra do ano em que o vinhedo do mosteiro teve a melhor colheita e o melhor sabor.
Ela parecia uma tola desajeitada, mas sabia dessas coisas?
Evotte arregalou os olhos diante do presente inesperadamente atencioso.
Em seguida, Rarien colocou uma folha de papel sobre a mesa.
— Esta é a programação das missas e confissões do Sumo Sacerdote neste mês. Se você focar nesses horários, conseguirá encontrar o Sumo Sacerdote, Sebastian Klein, facilmente. É claro, vou te reservar o melhor lugar, onde poderá ver claramente durante a missa.
Rarien já sabia, por investigação prévia, que a senhorita Evotte estava interessada no Sumo Sacerdote Sebastian Klein. Ele se revezava com Nicholas na condução das cerimônias do templo.
Rarien ajustou seus óculos grossos, com os olhos brilhando.
Por sempre ser explorada pelos outros, acabava ficando responsável pelas tarefas mais difíceis. Com o tempo, desenvolvera uma enorme capacidade para resolver problemas, uma habilidade adquirida simplesmente para sobreviver.
Seu senso de organização e o hábito de preparar tudo nos mínimos detalhes eram, sem dúvida, seus maiores talentos.
Ainda remexendo na bolsa, ela tirou um pequeno frasco.
— E isto… tome depois de beber.
— O que é isso?
— É uma infusão de ervas. Excelente para aliviar a ressaca. Garanto sua eficácia.
— Infusão de ervas?
Evotte balançou o frasco, claramente desconfiada.
— A ressaca do vinho costuma causar uma dor de cabeça terrível e muita sede. Isso ajuda a aliviar esses sintomas. Meu pai é um cachaceiro, então conheço bem esse tipo de coisa.
— Afinal, o que você quer exatamente? Pare de rodeios, vá direto ao ponto.
Evotte perguntou em tom indiferente. Mesmo assim, seu olhar havia mudado um pouco. A irritação em seu rosto havia amolecido.
Rarien, porém, ficou nervosa ao imaginar qual seria a reação quando finalmente fizesse o verdadeiro pedido.
Ela engoliu em seco e continuou.
— …E-Eu queria pegar emprestado Uma Noite no Templo Imoral.
— O quê?
— Prometo que vou ler com muito cuidado e devolver rapidinho. Consigo terminar em um ou dois dias.
— Uma Noite no Templo Imoral? Está falando daquele livro?
— Sim.
Evotte repetiu a pergunta como se não pudesse acreditar.
Aquela freira de aparência tão certinha e desajeitada simplesmente não combinava em nada com um romance erótico como ⟨Uma Noite no Templo Imoral.⟩
Ela examinou Rarien de cima a baixo, que tremia como um filhotinho assustado. Por que ela fez um pedido tão ousado se ia ficar com tanto medo? Era difícil de entender.
— Por que você quer um romance desses?
— Porque… quero aprender, em detalhes, as técnicas e todo o processo do sexo.
Ouvir o motivo tornou tudo ainda mais chocante.
— Você é uma freira. Freiras precisam aprender esse tipo de coisa?
— Precisam.
— Por quê?
— Porque as freiras também são pessoas.
Evotte encarou o rosto de Rarien por um longo tempo. Por mais que pensasse, aquilo continuava parecendo absurdo. Então, deixou escapar uma risada vazia.
— Seu nome é Rarien, não é?
— Sim.
— Eu sou Sera Evotte.
Os olhos de Sera se curvaram em um sorriso suave. Ela exalava frieza, mas, quando sorria, era como se uma brisa de primavera atravessasse o ambiente.
‘Como uma pessoa pode ser tão linda?’ Dentro do templo, Sera Evotte era conhecida como uma diabinha inconsequente, a própria filha do diabo. Mas seu rosto era digno de um anjo.
Rarien a encarou, completamente fascinada.
— Então, Rarien… você está ocupada agora?
— Perdão?
— Se estiver, arrume tempo.
Sera puxou Rarien pelo pulso e a sentou no sofá. Assustada com a atitude repentina, Rarien arregalou os olhos e prendeu a respiração.
— Eu estava entediada mesmo. Beber sozinha é um tédio, então vamos tomar um vinho. Já que pretende aprender sobre sexo lendo romances eróticos, uma taça de vinho não deve ser problema, certo?
— Ah… é que…
Rarien hesitou por um instante. Foi então que Sera fez uma proposta impossível de recusar.
— Se beber comigo, te empresto mais alguns livros. Principalmente as minhas obras-primas favoritas.
‘Obras-primas?’
Já era noite e não havia atividades especiais planejadas depois. Além do mais, estava disposta a fazer qualquer coisa para conseguir Uma Noite no Templo Imoral.
Assim, Rarien decidiu aceitar o convite e se tornar a companhia de Sera para beber.
🌸🌸🌸
— Você realmente é uma figura.
Sera riu alto enquanto esvaziava a taça de vinho de uma só vez. Assim que ela terminou, Rarien rapidamente encheu a taça novamente.
— Beba.
— …S-Sim!
Glup, glup.
Obediente, Rarien bebeu conforme Sera mandou. Quando colocou a taça sobre a mesa, soltou um pequeno ruído estranho.
Era a primeira vez que experimentava vinho. Doce, mas também um pouco adstringente. Sua garganta queimava como se tivesse engolido uma bola de fogo. Depois de beber tudo, a ponta do nariz começou a formigar, fazendo-a franzir a testa.
— Coma isto junto.
— O que é?
— Chocolate. Vinho combina muito bem com doces.
Como ela continuou hesitando, Sera simplesmente colocou um pedaço de chocolate na boca de Rarien. Conforme o chocolate derretia, um sabor doce tomou conta de sua língua.
Os olhos de Rarien se arregalaram com a doçura intensa.
Isso era verdadeiramente o gosto do paraíso. Como sempre vivera economizando cada moeda, nunca tivera o luxo de comer chocolate. Sentiu como se tivesse descoberto um novo mundo.
— Quantos anos você tem?
— Vinte.
— Meu Deus, só vinte? Eu já te achava novinha, mas você ainda é um bebê.
Segundo sua pesquisa, Sera Evotte era apenas três anos mais velha que ela, com vinte e três, e Rarien vinte.
Mesmo assim, ser tratada como um bebê era um tanto humilhante.
— Então, você quer transar com alguém por quem tem uma queda?
— …Sim.
— Que gracinha. Um bebê pensando numa coisa dessas… Você é bem atrevida, não é?
Sera beliscou a bochecha macia de Rarien em seguida deu um beijinho nela. O rosto de Rarien, que já estava rígido de nervosismo, ficou completamente vermelho.
— E quem é esse sortudo? Conta baixinho para mim.
— …
— Hm?
‘Deveria dizer? Ela pode rir de mim por sonhar alto demais. Até eu sei que Nicholas está completamente fora do meu alcance.’
Mas… e daí?
Pensar que não lhe restava muito tempo de vida a fazia sentir que não tinha nada a perder.
Rarien esvaziou o restante do vinho da taça e respondeu com toda a seriedade.
— …Nicholas Reinhart. O Sumo Sacerdote.
— Ah…
A curiosidade surgiu imediatamente no rosto de Sera.
— Por quê?
— Você tem um gosto bem peculiar.
Nicholas tinha muitas admiradoras além de Rarien. Por isso, não conseguia concordar que seu gosto fosse tão estranho assim.
‘Ainda bem que uma mulher tão deslumbrante não gosta do mesmo homem que eu.’
Teria sido um grande problema se tivessem se tornado rivais. Rarien pensou secretamente que foi uma sorte que seu gosto diferia de Sera.
— Então você pretende aprender sobre sexo nos livros… para colocar em prática?
— Sim. Embora ainda não tenha pensado exatamente em como fazer isso.
— Você pode pensar depois.
Sera aproximou o rosto do dela e sorriu de forma travessa.
— Seu desejo é dormir com um sacerdote. O meu também. No fim das contas, temos o mesmo objetivo, não acha?
— É verdade.
— Acho que vamos nos dar muito bem. Você também é bem esquisitinha.
— Eu?
— É.
‘Esquisita?’
Talvez fosse porque sempre obedecia a tudo sem reclamar. Era a primeira vez que ouvia algo assim. Enquanto Rarien fazia uma expressão completamente confusa, Sera apenas ria.
— Você não é uma esquisita óbvia. Há algo estranhamente sutil.
— Esquisita… de forma sutil?
— Isso mesmo. E é justamente por isso que gosto de você.
Seja qual for o motivo, era um alívio que ela gostasse dela. Sera caminhou até a estante, pegou alguns livros e os entregou a Rarien.
— Aqui.
— O-obrigada.
— Mas existe uma condição.
Bem na hora em que ia entregar os livros, Sera fez sua exigência.
— Vamos nos ajudar mutuamente a ter sucesso. Eu fico com Sua Santidade o Sumo Sacerdote, e você com aquele bastardo, digo, aquele Sumo Sacerdote. Entendeu?
Ela pensou que fosse apenas uma questão de gosto, mas parecia que Sera tinha algum ressentimento contra Sua Santidade.
Ela inclinou a cabeça, confusa.
— Entendeu?
— S-Sim!
— Ótimo. A partir de hoje somos aliadas estratégicas. Algo assim.
Sera afagou sua cabeça com carinho enquanto ela aceitava o romance erótico.
Parecia mais que estava se tornando uma subordinada do que uma aliada, mesmo assim, ter uma mulher tão bonita fazendo carinho em sua cabeça a deixou inexplicavelmente feliz.
Sendo assim, Rarien havia conquistado uma aliada confiável.
Continua…
Tradução: Elisa Erzet