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O Marido Malvado(novel) - Capítulo 223

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Sua mãe odiava o marido. Ela guardava um profundo e amargo ressentimento contra o Barão Elrod por não tê-la elevado a uma posição mais alta e, por sua vez, agarrou-se ao seu papel de babá do Príncipe Imperial com uma intensidade desesperada e febril. O fato de ser a babá mais requisitada de todo o Império Traon lhe proporcionava uma felicidade imensa.

Em qualquer reunião social, bastava mencionar o Príncipe para se tornar o centro das atenções. 

Dessa forma, Cesare havia se tornado a fonte perfeita para satisfazer sua necessidade insaciável de reconhecimento. 

Seu marido, por outro lado, só lhe proporcionara o modesto título de “Baronesa” e ainda desperdiçara a pouca fortuna da família. A seus olhos, ele não era diferente de um inimigo detestável.

As lembranças que Eileen guardava das brigas dos pais pareciam um pesadelo recorrente. Ela conseguia recordar vividamente os gritos estrondosos do pai embriagado e os berros agudos da mãe enquanto arremessava qualquer objeto que encontrasse pela frente. A pequena Eileen se encolhia em um canto do quarto, tremendo, rezando para que a discussão terminasse.

Às vezes, era pega no meio da fúria dos dois, que usavam a desculpa de discipliná-la para descontar sua raiva nela com golpes. Eileen, não tendo conhecido nada diferente, simplesmente acreditava que deveria suportar tudo.

Foi somente depois de ingressar na universidade que sua perspectiva começou a mudar. Longe dos pais, vivendo uma nova vida, ela certamente sentiu solidão e teve dificuldades para se adaptar. Mas também encontrou uma paz estável que jamais experimentara.

O medo que sentia ao abrir a porta de casa sem saber se o pai voltara bêbado havia desaparecido. A ansiedade constante de avaliar o humor da mãe também. Os dias em que podia simplesmente se dedicar aos estudos ensinaram a Eileen o verdadeiro significado da liberdade.

Ainda assim, ela não conseguia abandoná-los. Quando recebeu a carta e retornou à capital, sua mãe a abraçou chorando. Naquele momento, Eileen sentiu como se uma enorme pedra estivesse esmagando seu peito. Mas eles eram seus pais.

Houve muitos momentos dolorosos e difíceis, porém ela se agarrava à crença de que era amada. Talvez a forma daquele amor fosse diferente. Mesmo assim, suportara tudo graças a essa única convicção. 

No entanto, enquanto estava ali, tendo decidido romper os laços com seu pai, e vendo-o não como um genitor, mas simplesmente como Barão Elrod, uma percepção chocante a dominou. Talvez seus pais nunca a tivessem amado de verdade. O afeto em que acreditava tão desesperadamente era mero reflexo do amor que ansiava tão profundamente.

Estranhamente, essa descoberta trouxe alívio. Era como se as cordas que a mantiveram presa durante toda a vida finalmente tivessem sido desatadas. 

Eileen passou a mão sobre os olhos. Lembrou-se da mãe lhe entregando os óculos. Da tesoura afiada cortando sua franja.

Dos xingamentos cruéis lançados contra ela. Mas o mundo de Eileen agora existia muito além de seus pais. Mesmo que sua mãe tivesse chamado seus olhos de repugnantes, isso já não importava. Era apenas a opinião de uma pessoa. Existiam muitas outras que amavam seus olhos. E que a amavam.

“Minha adorável Lily.”

Como se estivesse esperando por aquele instante, a voz ilusória de sua mãe voltou a ecoar. Mas Eileen simplesmente fechou e abriu os olhos. Ela esperou a alucinação passar, sua mente uma fortaleza construída com o amor de Cesare. Por fim, os ruídos cessaram, substituídos por um silêncio profundo e pacífico. Livre daquela terrível ilusão, Eileen abriu os lábios e respirou profundamente.

Tentou dizer algo, mas fechou a boca novamente, permaneceu observando os lírios por um longo tempo, finalmente, sussurrou sua despedida:

— …Vou indo agora.

Foi o momento em que finalmente deixou sua mãe partir.

🌸🌸🌸

De longe, Diego observava Eileen, suas costas pequenas, uma silhueta frágil destacava-se entre as lápides. Ela era a criança que ele sempre ansiava proteger. Mas, hoje, havia algo diferente nela. Uma serenidade, uma profundidade em sua postura que antes não existia. Desde aquele dia em que ela e Cesare deixaram o Palácio Imperial juntos, ambos haviam mudado. Diego não sabia o que haviam suportado, mas, sempre que encarava Eileen e percebia a profundidade recém-adquirida em seu olhar, uma dor profunda permanecia em seu coração.

A menina que um dia mal alcançava seus joelhos agora havia se tornado uma mulher completa.

E ainda assim, Eileen ainda era alguém que Diego sempre iria querer proteger. Este era um sentimento que não mudaria mesmo que Eileen envelhecesse e seus cabelos se tornassem completamente brancos. Ele era, e sempre seria, seu cavaleiro.

Embora Eileen acreditasse que tudo havia voltado ao devido lugar, a realidade era diferente. As ordens de Cesare continuavam válidas. A verdadeira mestra dos cavaleiros era Eileen, não Cesare.

Perdido em seus pensamentos, Diego virou-se e falou com a mulher ao seu lado:

— Já volto. Por favor, cuide das coisas aqui.

— Sim. 

A resposta de Alessia foi breve e sem qualquer reclamação.

Diego se afastou como se procurasse um lugar para fumar. Escondido entre os arbustos e as árvores densas, havia um homem observando Eileen. Diego já sabia que o encontraria ali. Prevera que o Barão visitaria o túmulo da esposa antes da coroação e aguardava por esse momento há muito tempo. Ao olhar para aquela figura miserável, pior do que um rato que vive de carniça, um sorriso de desprezo surgiu em seus lábios.

— Barão Elrod.

O homem, escondido de forma ansiosa, saltou assustado. Seus olhos se arregalaram ao olhar para Diego.

— Ha… haha… Sir Diego! Que surpresa agradável! — ele gaguejou, um sorriso servil colado em seu rosto enquanto despejava desculpas antes mesmo de ser questionado.

— Não consegui entrar em contato com minha querida filha. Como pai, fiquei preocupado e vim até aqui. Como sabe, muitas coisas importantes aconteceram recentemente… Eu só queria encorajá-la e lhe dar alguns conselhos.

O absurdo daquelas palavras arrancou uma risada torta de Diego. Aquele homem jamais aprenderia. Provavelmente continuaria repetindo mentiras patéticas até o último suspiro. Se tivessem se encontrado em um campo de batalha, Diego já o teria despedaçado há muito tempo, mas infelizmente, ele era o pai biológico de Eileen. Essa era a única razão pela qual ele havia sobrevivido tanto tempo.

Mas agora, algo havia mudado. Eileen declarou que rompeu os laços com ele.

— A Imperatriz não deseja manter qualquer relação com o Barão.

Diego pronunciou a fria realidade para um homem ainda preso a sonhos vazios.

Mas o Barão Elrod não desistiu tão facilmente, ele sorriu amplamente, saboreando o título de Imperatriz.

— Como alguém pode romper os laços de sangue? Minha filha ainda é jovem e está momentaneamente confusa. Quando vir o rosto do pai, logo se sentirá melhor, guhk…!

As palavras morreram em sua garganta. Diego agarrou seu colarinho. O Barão congelou. 

Em contraste, Diego exibia um sorriso radiante.

Sentia-se como alguém que acabara de ganhar na loteria. Elogiou interiormente sua sorte naquele dia, enquanto sorria alegremente para o Barão.

— A Imperatriz. Como ousa falar dela tão descuidadamente?

— E-Eu peço perdão…!

O rosto do Barão empalideceu imediatamente. Ele parecia mais aterrorizado do que nunca com o rosto sorridente de Diego. Ele percebeu que algo havia mudado. Até agora, os cavaleiros haviam ameaçado e intimidado, mas raramente colocaram as mãos nele diretamente. Sempre levavam em consideração sua conexão com Eileen e mantido esse último resquício de cortesia.

Agora, porém…

Eileen o havia abandonado.

— Barão, sabe de uma coisa? — o sorriso de Diego se ampliou. — Esperamos por este dia por muito tempo.

Era tarde demais para fugir. Não, mesmo que corresse até os confins do continente, eles o teriam encontrado. Diego era particularmente habilidoso nessas coisas.

A mão que havia agarrado seu colarinho torceu seu pescoço. O Barão se debateu desesperadamente, suas mãos tentando arrancar a mão que o estrangulava, mas Diego permanecia imóvel como uma rocha. Os olhos do Barão reviraram enquanto ele ofegava por ar, e eventualmente desmaiou. Como se carregasse um saco de batatas, Diego jogou o corpo desacordado sobre o ombro e saiu caminhando.

Chegando ao veículo militar, Diego abriu o compartimento de carga. Amarrou o Barão com cordas grossas e o colocou lá dentro como se fosse apenas mais uma bagagem. O som da porta de carga se fechando ecoou pesadamente. Havia tantas coisas que ele queria fazer com aquele homem. Enquanto refletia sobre por onde começar, Diego começou a assobiar uma melodia e voltou para onde Eileen estava.

Continua…

Tradução e Revisão: Elisa Erzet 

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