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O Marido Malvado(novel) - Capítulo 222

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Eileen foi transportada de volta a uma lembrança da sua infância, um dia que parecia ter acontecido há uma eternidade quanto apenas ontem.

Era a primeira vez que fora convocada para ver o Príncipe após o sequestro, usando os óculos que sua mãe lhe dera e sua franja havia sido cortada de propósito para cair sobre os olhos.

Seu coração transbordava com uma mistura de alegria e imensa gratidão. No entanto, a pequena Eileen não conseguia simplesmente correr até ele. As palavras cruéis e os golpes impiedosos de sua mãe haviam se enrolado em seu coração como correntes inquebráveis, mantendo-a presa.

“Por sua causa…! O Príncipe teve que sofrer tamanha humilhação…”

Os olhos de sua mãe, brilhando com uma loucura quase animalesca, pareciam os de uma fera enquanto a espancava.

A menina implorara por perdão, seu pequeno corpo tremendo, mas sua maior preocupação era o Príncipe. Era apenas uma criança, e os detalhes precisos do que ocorrera não estavam claros para ela, mas sabia que o Príncipe sofrera algo terrível para salvá-la.

A frase “por sua causa” foi gravada profundamente em sua alma, uma mancha que não desapareceria.

O Príncipe era seu anjo, ela, por outro lado, não passava de um obstáculo, um pedaço miserável de sujeira bloqueando seu caminho. Foi naquele momento que a fria realidade caiu sobre ela como água gelada, apagando a empolgação de uma menina que, ingenuamente, acreditara ser digna de seu afeto.

Eileen sentia vergonha por ter sido tão feliz, tão alheia ao preço que ele pagara.

Nessa vergonha, colocou os óculos dados pela mãe e usou sua franja para esconder o rosto, tornando sua aparência tão sombria quanto se sentia. Odiava o próprio reflexo e, em seu desespero infantil, chegou até mesmo a acolher aquela escuridão que a ocultava.

Algumas semanas após o ocorrido, um mensageiro chegou do Palácio Imperial.

Segurando a carta, Eileen foi escoltada até os jardins do palácio. O Príncipe ainda era um ser radiante, um farol de luz contra às opressivas paredes do palácio. Eileen ficou hipnotizada e, após um momento de hesitação, ofereceu uma saudação há muito atrasada.

“Obrigada por me salvar.”

Era o agradecimento que não conseguira expressar naquele dia. Lembrou-se com amarga vergonha de que, em vez de agradecer por ele ter aparecido, chegara até mesmo a perguntar por que ele estava ali. Uma atitude verdadeiramente arrogante.

Mas o Príncipe, como sempre, foi gentil. A julgar pelas palavras de sua mãe, algo terrível lhe aconteceu por sua causa, mas ele não demonstrou nenhum sinal de raiva ou ressentimento. Em vez disso, ajoelhou-se diante dela, ficando à mesma altura. Ele encontrou seu olhar, mesmo quando ela insistia em encarar fixamente o chão, incapaz de encará-lo. Então, soltando uma risada suave, afastou delicadamente sua franja com a mão.

Os olhos de Eileen se arregalaram de surpresa e, pela primeira vez em semanas, sua visão do mundo se iluminou. O Príncipe apenas sorriu, sua expressão serena enquanto olhava para seus olhos trêmulos e cheios de lágrimas. Naquele momento, Eileen percebeu que, não importa o quão grotescos ela acreditasse que seus olhos fossem, o Príncipe sempre a olharia com profundo afeto.

🌸🌸🌸

— Vossa Alteza…

Eileen murmurou aquele antigo título enquanto abria os olhos lentamente. Sua voz ainda estava carregada pelo sono. A fronteira entre sonho e realidade permanecia nebulosa, e sua mente demorou alguns instantes para despertar por completo. Desorientada, encarou o teto do quarto da silenciosa casa de tijolos.

Um momento se passou até que seus sentidos voltassem e ela reconhecesse a realidade. As lembranças de ter encontrado a casa e da intimidade que compartilhara com Cesare vieram à mente. Aquele momento de verdadeira compreensão, quando dividiram seus sentimentos e seu calor, estava agora gravado profundamente em seu coração.

Eileen se mexeu e virou de lado. Ali, colocado cuidadosamente sobre o criado-mudo, estava um único lírio branco. Ela sorriu involuntariamente, como se compreendesse perfeitamente o coração da pessoa que o deixara. Levou a flor ao nariz, a doce fragrância lembrando-a de Cesare. Seria mentira dizer que não sentia um pequeno aperto por não ter despertado ao lado dele. 

Mas aquele sentimento passou rapidamente. Estava tudo bem. Ela sabia que Cesare, que havia retornado àquela casa, sentia o mesmo arrependimento silencioso. As fantasias que nutria pelo Príncipe agora eram cobertas por uma lembrança de Cesare. Uma lembrança nascida apenas no dia anterior.

Ao sair da cama, seus pés descalços afundaram na macia espessura de um tapete. Ela parou um momento para esfregar as solas contra o veludo felpudo antes de encontrar seus chinelos. Então começou a se preparar lentamente para partir. Ela passara muito mais tempo na casa de tijolos do que pretendia. Precisaria se apressar de volta à residência do Arquiduque, mas havia um lugar que precisava visitar primeiro. Na verdade, pensava nisso desde o momento em que decidira vir para aquela casa.

Seu corpo parecia extraordinariamente leve.

Era uma sensação decorrente de sua nova condição imortal. Eileen sabia que aquela era a maior vantagem de sua nova existência.

Contudo, aquele estado constante e imutável representava uma séria desvantagem para uma pesquisadora. A partir de agora, não poderia mais realizar experimentos em si mesma.

— Haverá limites para a ajuda que poderei receber dos outros.

A preocupação a invadiu enquanto terminava de se arrumar. A ideia de experimentação humana era pesada demais.

Quando desceu para o primeiro andar, encontrou Diego e Alessia sentados à mesa da cozinha, tomando café.

Não foi surpresa ver Alessia, sua escolta, mas a presença de Diego foi inesperada. Ela ficou ainda mais surpresa com suas roupas casuais em vez de seu uniforme habitual. As mangas de sua camisa estavam enroladas, revelando as linhas nítidas de uma tatuagem em seu braço.

Mexendo distraidamente no brinco pendurado na orelha, Diego levantou-se e a cumprimentou.

— Dormiu bem?

Ao perceber sua surpresa, ele sorriu e acrescentou, rindo:

— Vim hoje porque venci uma competição bastante acirrada.

Eileen sorriu, soltando um pequeno suspiro. Ela podia adivinhar por que os ocupados cavaleiros lutaram tanto para estar ali. Eles deviam saber o destino dela hoje.

Alessia bebeu o resto do café de um só gole e andou até ficar ao lado de Eileen. Observando os dois juntos, Eileen percebeu como eram parecidos.

‘Os dois lembram felinos predadores.’

Na verdade, pareciam muito mais predadores do que gatos domésticos, então a comparação parecia adequada.

Eileen entrou no veículo militar acompanhada por seus dois companheiros parecidos com felinos. Alessia assumiu o volante, Diego sentou-se no banco do passageiro. Os dois se viraram para olhá-la ao mesmo tempo.

Só então Eileen revelou qual era o destino.

Uma expressão complexa atravessou o rosto de Diego.

Ainda assim, ele apenas perguntou:

— Gostaria de passar primeiro na floricultura?

Na floricultura, Eileen comprou um grande buquê de lírios brancos com a ajuda de Diego. Depois disso, Diego permaneceu em silêncio. Eileen também ficou calada, observando a paisagem pela janela, algo incomum para ela.

Não demorou para que o carro parasse. Alessia e Diego desceram primeiro.

Enquanto o olhar de Diego estava fixo em algo à distância, Alessia escoltava Eileen. 

Ao sair do veículo segurando o buquê, Eileen seguiu a direção do olhar de Diego.

Entre as inúmeras lápides do cemitério, uma se destacava.

Era o túmulo de sua mãe.

— …

Diego observou a lápide por um longo momento antes de voltar os olhos para Eileen. Sem dizer nada, ela caminhou até o túmulo. Nunca visitava aquele lugar, exceto no aniversário da morte da mãe.

Havia muitas memórias dolorosas que vinham à tona toda vez que ela vinha aqui. Eileen abraçou o buquê de lírios um pouco mais forte.

“Lily.”

Talvez fosse porque sonhara com a mãe. A lembrança estava mais vívida do que o habitual.

A voz dela ecoava em sua mente como o canto alegre de um pássaro, recordação de um raro momento em que estivera de bom humor.

Eileen depositou os lírios sobre a lápide e permaneceu imóvel, perdida em pensamentos. Alguns passos atrás dela, Diego falou suavemente:

— Vou me retirar.

Ele caminhou para longe, trocou algumas palavras com Alessia, que aguardava ao lado do veículo militar, e desapareceu de vista. Provavelmente procurava um lugar tranquilo para fumar.

Eileen ficou sozinha diante do túmulo da mãe. Piscou, surpresa. Sempre chorava quando ia ali. Chorava sem parar. Era atormentada pelas lembranças e pelas ilusões ligadas à mãe. Então ia embora como se estivesse fugindo.

Mas hoje…

Estranhamente, não havia lágrimas.

Eileen observou o nome Elrod gravado na pedra e abriu a boca.

— Mãe.

Nenhuma resposta veio. Apenas uma rajada de vento repentina. Ela fez balançar as flores espalhadas pelos túmulos ao redor, trazendo consigo um delicado perfume floral.

Uma única pétala rosa-clara, carregada pelo vento, tocou a bochecha de Eileen antes de cair ao chão.

Sentindo aquele toque suave, Eileen transmitiu sua decisão à falecida.

— Cortei todos os laços com meu pai…  com o Barão Elrod.

Continua …

Tradução e Revisão: Elisa Erzet 

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