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No Fim do Inverno - Capítulo 25

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 Um compromisso não planejado

— Onde está a Eunice?

Glenton, que havia se ausentado por alguns instantes, retornou à sala. Enquanto ajustava os óculos por hábito, lançou o olhar para Rowell, que ocupava tranquilamente o lugar onde Eunice estivera sentada.

— Quando você chegou?

— Agora mesmo.

— E a Eunice?

Repetindo a mesma pergunta que fizera há pouco a Johannes, Glenton estreitou levemente as sobrancelhas.

Com um sorriso satisfeito, como quem acabara de presenciar uma cena curiosa, Rowell apenas sorriu. Seguindo a direção de seu olhar, Glenton encontrou Johannes com uma das mãos apoiada sobre a testa.

— O que aconteceu por aqui? As coisas não estão indo bem entre você e a Eunice?

Embora não soubesse exatamente o que havia ocorrido, era evidente que o casal enfrentava o primeiro desentendimento desde a noite de núpcias. Assim, Glenton perguntou sem rodeios enquanto se acomodava no sofá da sala de recepção.

Dessa forma, o rei ocupava o assento principal, cercado pelo mago representante e pelo chanceler. Os três homens mais influentes do Reino de Nordish encontravam-se reunidos no mesmo recinto.

Para alguns, aquela era a imagem de figuras temidas; para outros, de aliados inabaláveis. Afinal, fora pelas mãos daqueles três que o reino atual havia sido erguido.

— Haa…

Em vez de responder, Johannes deslizou a mão da testa até cobrir a boca. Permaneceu imóvel por um instante, fitando o vazio, antes de cerrá-la lentamente em um punho.

Depois de observar toda aquela sequência, Glenton e Rowell trocaram um olhar.

— O que houve com ele?

— Pelo que vi mais cedo, aconteceu alguma coisa entre ele e a Eunice.

Ao dizer isso, Rowell exibiu um sorriso malicioso.

— Eles fizeram as pazes?

— Não sei dizer. Mas a Eunice saiu daqui com o rosto completamente vermelho, dizendo que tinha um compromisso.

— Ele não fez ela chorar, fez?

— Não consegui ver direito a expressão dela. Mas eles se casaram ontem… já brigaram? Que rei patético. Você por acaso é homem?

— Cala a boca.

Johannes, que até então parecia perdido em seus próprios pensamentos, olhou para eles  com frieza. Por dentro, porém, suas emoções eram um verdadeiro turbilhão: tomado pela ansiedade, pela irritação, e, no instante seguinte, por uma satisfação quase imperceptível. Seu estado de espírito mudava a cada momento.

Glenton cruzou as pernas com tranquilidade e dobrou os braços sobre o peito. Pelas orelhas vermelhas de Johannes e pelo discreto sorriso que insistia em surgir nos cantos de sua boca, concluiu que a primeira desavença entre os recém-casados não duraria muito.

Isso já era suficiente.

— Rowell.

Como a pessoa em questão finalmente havia chegado, era hora de passar ao próximo assunto da pauta.

Ao ouvir seu nome de repente, Rowell virou-se com uma expressão completamente alheia. Era o rosto despreocupado de alguém que ainda não fazia ideia do destino que o aguardava.

Os olhos de Glenton se curvaram em um sorriso ameno.

— Por que sua investigação demorou tanto? Você acabou perdendo até o casamento por causa dela.

— Ah… Eu estava tão concentrado que perdi a noção do tempo.

— Entendo. Imagino que houvesse muita coisa para investigar.

— …Por que está falando com tanta gentileza? Isso está me deixando nervoso.

Só então a expressão de Rowell mudou. Ao perceber que havia algo estranho no ar, um lampejo de cautela atravessou seu olhar.

Mas já era tarde demais.

— Quero que você continue monitorando e investigando o crescimento da vegetação na Terra da Morte.

— O quê?

— Ah.

A última exclamação partiu de Johannes.

Como se finalmente tivesse despertado de seus pensamentos, ele se levantou de repente e caminhou até a escrivaninha. Após vasculhar uma espessa pilha de documentos, encontrou o que procurava e voltou balançando um relatório fino entre os dedos.

— Isto.

Rowell encarou o documento estendido à sua frente. Era um relatório escrito por Louise. Em seu rosto estampava-se claramente a dúvida sobre o que, exatamente, esperavam que ele fizesse com aquilo.

— Esse já é o quinto relatório revisado, e ainda assim não houve a menor melhora.

Cada palavra pronunciada por Johannes transbordava exasperação.

Rowell continuou encarando o documento, com uma expressão que dizia claramente: “E o que exatamente você espera que eu faça com isso?”

— Assuma esse trabalho no lugar dela.

— O quê?

Era uma substituição de responsável.

A notícia caiu como um raio em céu aberto. Atônito, Rowell voltou o olhar para Glenton, como quem implorava por apoio.

— Chanceler, isso não faz o menor sentido. Eu já estou sobrecarregado.

— Vossa Majestade não está errado. A esta altura, você provavelmente entende mais desse assunto do que a própria Louise.

— Que conversa absurda é essa?

— Chanceler, isso não está certo. Eu já estou cheio de trabalho.

Ao perceber a gravidade da situação, a voz de Rowell se elevou.

— Acabei de voltar da região ártica, passei todo esse tempo escoltando a Eunice e nem sequer consegui descansar! Já tenho vários projetos de pesquisa em andamento, e agora querem que eu também monitore regularmente a Terra da Morte?

— Ou então você pode ensinar a Louise a escrever relatórios decentes.

— Isso é…!

Por um instante, Rowell ficou sem palavras. Cerrando os dentes com força, fez um rápido cálculo mental. Mesmo por alto, era evidente que assumir o trabalho pessoalmente seria cem vezes mais eficiente do que perder tempo tentando ensinar a desajeitada Louise a redigir um relatório digno.

O silêncio se instalou entre os três homens. E, quanto mais ele se prolongava, mais evidente se tornava qual seria o desfecho daquela conversa.

Alguns segundos depois…

— Droga!

Soltando um palavrão carregado de resignação, Rowell acabou aceitando a missão de longo prazo. Passou as mãos pelos cabelos, bagunçando-os em um gesto de puro desespero.

Ao vê-lo finalmente ceder, Johannes e Glenton trocaram sorrisos tranquilos, como se um enorme peso tivesse acabado de ser tirado de seus ombros.

🌸🌸🌸

Usando um compromisso inexistente como desculpa, Eunice deixou o escritório quase às pressas.

Enquanto caminhava pelo corredor, abanava o rosto corado com um leque de mão, tentando dissipar o calor que ainda lhe queimava as faces. Seguia sem rumo, deixando que os próprios passos a conduzissem.

Seu coração batia descompassado.

‘Estou ficando maluca…’

Como pôde fazer uma coisa tão ousada?

O calor do corpo de Johannes ainda parecia permanecer sobre seu peito. A brisa fresca que agora acariciava sua pele apenas tornava aquele contraste ainda mais intenso.

A lembrança daqueles olhos azuis, arregalados pela surpresa, permanecia vívida em sua mente. Ela pensou que, se estivesse no lugar de Johannes, também teria ficado completamente desnorteada.

O que fora aquela declaração quase desafiadora, quando nem mesmo uma abordagem sedutora parecia suficiente? Ela chegara ao ponto de agarrar a mão dele com certa brusquidão e colocá-la sobre o próprio seio.

Só de recordar sua atitude, Eunice tinha vontade de desaparecer da face da terra. Não havia o menor resquício de delicadeza ou atmosfera romântica em suas ações. Comparado àquilo, a tentativa de seduzi-lo na noite anterior havia sido infinitamente melhor.

E, se nem aquilo surtira efeito… então o desastre de hoje certamente a conduziria ao pior dos desfechos.

‘Será que ele vai aparecer no quarto esta noite…?’

Perdida nesses pensamentos sombrios, Eunice caminhava sem destino quando avistou um rosto familiar vindo em sua direção pelo corredor. A outra pessoa também pareceu notá-la e, de repente, parou no mesmo lugar.

— Senhorita Avril.

Antes que a jovem pudesse se afastar fingindo que não a tinha visto, Eunice a chamou.

— …?

Seria aquele um lugar especial? Ou, quem sabe, um local onde ela não deveria estar?

Tomada pela confusão, Eunice voltou a si e lançou um olhar ao redor.

De fato, aquele ambiente não lhe era familiar. Sem perceber, havia acabado chegando à ala destinada aos hóspedes do palácio.

— Acabei vindo parar aqui enquanto fazia uma caminhada.

— …Uma caminhada?

Avril interrompeu o movimento, virou-se de maneira um tanto rígida e a cumprimentou com sua habitual postura altiva, como se jamais tivesse tentado passar despercebida.

— Minhas saudações a Vossa Majestade, a Rainha. A que devo a honra de encontrá-la por aqui?

Avril perguntou com uma expressão desconfiada, percorrendo Eunice de cima a baixo com o olhar. Percebendo que apenas a forma de tratamento havia se tornado mais formal, enquanto sua atitude continuava exatamente a mesma, Eunice esboçou um sorriso constrangido.

Talvez porque a primeira impressão que tivera dela fosse tão marcante, aquele olhar nada cordial já nem lhe parecia ofensivo.

— Então… onde está Sua Majestade, Johannes?

Com um ar de falsa indiferença, Avril desviou o olhar. Fez um leve biquinho, lançou uma rápida olhada para Eunice e, em seguida, passou a observar os arredores, fingindo desinteresse.

Diante daquela atitude tão transparente, Eunice respirou discretamente. Cada pequeno gesto de Avril revelava, sem necessidade de palavras, o quanto ela gostava de Johannes.

Por mais que Eunice a tivesse consolado quando chorava, conseguia compreender a situação do ponto de vista de Avril. Afinal, para ela, não devia ser nada fácil lidar com a mulher que agora ocupava o lugar de esposa de Johannes.

— Ele está em seu escritório.

Com um olhar sereno, Eunice respondeu com um leve sorriso.

Avril franziu as sobrancelhas, incapaz de esconder a incredulidade.

— Ele está trabalhando no dia seguinte ao próprio casamento?

Não estava previsto um descanso de três dias?

Lembrando-se do que Glenton lhe dissera, Eunice fez o possível para manter a compostura.

— Sim.

Ela engoliu as palavras que insistiam em surgir — a ideia de que ele preferia voltar ao trabalho porque a esposa fora incapaz de satisfazê-lo na noite de núpcias. Era um pensamento vergonhoso demais para ser dito em voz alta.

Decidida a afastar aquele assunto da mente, Eunice mudou de tema.

— Quanto tempo pretende ficar em Berzan?

— Não sei. Estou esperando meu pai. Ele disse que só partirá depois da reunião da Távola Redonda.

— Ah, entendo.

A reunião da Távola Redonda.

Era nessa reunião que o rei, o chanceler e os doze chefes das Grandes Casas se reuniam para discutir os assuntos mais importantes do reino. Em pouco mais de dez dias vivendo em Berzan, Eunice já havia aprendido bastante sobre o funcionamento daquele lugar.

Será que um dia ela também teria o direito de ocupar um assento na Távola Redonda? Conseguiria se tornar alguém verdadeiramente indispensável para aquele reino?

Ao perceber que já estava preocupada com um futuro tão distante, quando sequer havia dado o primeiro passo em seu dever de gerar o herdeiro do rei, Eunice soltou uma silenciosa risada de autodepreciação.

— Ahem.

Foi então que Avril pigarreou. O gesto parecia deliberado, como se estivesse reunindo coragem para dizer algo.

Pensando que ela tinha alguma coisa em mente, Eunice voltou o olhar para ela. Avril, porém, desviou os olhos de maneira um tanto constrangida e, logo em seguida, pronunciou palavras que Eunice jamais esperava ouvir.

— Vejo que aquele homem trata até mesmo Vossa Majestade da mesma forma. Confesso que não imaginei que ele deixaria até a própria esposa de lado para trabalhar… Bem, era de se esperar.

— …

Não ficou claro se Avril dizia aquilo com resignação ou apenas confirmava uma expectativa que já tinha.

Depois desse comentário ambíguo, ela ergueu levemente o queixo e fez uma proposta completamente inesperada.

— Gostaria de tomar chá comigo?

Assim, nasceu um compromisso que nenhuma das duas havia planejado.

Continua…

Tradução e Revisão: Elisa Erzet

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