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No Fim do Inverno - Capítulo 24

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 Algemas

Era uma tolice.

Criar expectativas sozinha e decepcionar-se sozinha.

Será que ela era incapaz de aprender? Como ainda podia alimentar esperanças quando conhecia tão bem a forma como seu pai a enxergara durante toda a vida?

No instante em que percebeu que a carta não era de Rockford, todas as emoções que haviam feito seu coração acelerar recuaram como a maré.

Eunice olhou friamente para o que segurava. O conteúdo era previsível.

O irônico é que, embora ela ainda pudesse prever o conteúdo da carta, seu humor tinha mudado completamente ao descobrir quem era o remetente.

— Vocês eram próximos?

Foi a voz de Hannah que a arrancou do profundo atoleiro em que havia mergulhado. Voltando a si, Eunice percebeu que Hannah estivera observando atentamente sua expressão o tempo todo.

Compondo-se rapidamente, Eunice respondeu brevemente.

— Não.

Sua mão segurando a carta tencionou involuntariamente. O olhar de Hannah pairou brevemente sobre o papel que aos poucos se amassava antes de desviar. Ela não perguntou mais nada e apenas sugeriu com delicadeza:

— Me avise se precisar de um corvo.

— Não é necessário. Não tenho nada para responder.

Ela não sabia como conseguiu esboçar um sorriso, ainda que pequeno. Sentindo seu coração se esfriar, Eunice observou silenciosamente seu rosto refletido no espelho.

Quem diria que ela não conseguiria escapar da sombra de Kallian mesmo depois de ter chegado tão longe.

Era repugnante. Essa obsessão egoísta e persistente.

Dado o quanto as coisas tinham avançado, ele já deveria ter caído em si e se concentrado na Princesa Herdeira Richen, mas como podia ser tão egocêntrico?

Mas, pensando bem, ele sempre foi assim.

Como um destruidor vindo para arruinar sua vida, ele confessava seu amor publicamente enquanto a empurrava para a beira de um precipício com palavras e ações tolas e frívolas quando estavam a sós.

“Você fica bonita até quando chora.”

“Gosto de ver você definhar por minha causa. É melancólico… e bonito.”

“Seu sofrimento parece uma obra de arte.”

Era sufocante. Sentindo uma fumaça amarga subir por sua garganta, Eunice esperou pacientemente até que seus cuidados matinais terminassem.

Depois de dispensar as criadas, desenrolou a carta. Ao ler seu conteúdo, soltou uma risada vazia, embora seu rosto parecesse prestes a chorar.

Por favor.

Por favor, Kallian.

Lançando um olhar silencioso para a carta, que não fugia nem um pouco de suas expectativas e apenas dando ansiedade sobre quando Kallian resolveria invadir Nordish, amassou-a impiedosamente.

Suas entranhas pareciam queimar por dentro. Era incrível como alguém poderia atormentá-la mesmo a uma distância tão grande.

Como quem tenta escapar de um pântano pegajoso, Eunice lançou aquela pequena algema dentro da lareira.

🌸🌸🌸

— Todo o seu esforço foi em vão.

Glenton já estava lhe tirando a paciência desde cedo. Apesar da voz refinada, sua expressão deixava claro que estava se divertindo muito.

— Pegue leve. Você está me irritando seriamente.

Aborrecido, Johannes lançou-lhe um olhar gelado. Glenton apenas caiu na gargalhada.

— Haaah…

A quem poderia culpar?

Prometera a si mesmo uma folga de três dias e, no entanto, já estava sentado em seu escritório logo na manhã seguinte – era absurdo.

Até ele próprio se sentia um idiota. Quanto tempo esperou e ansiosamente aguardou por este dia?

Desde o primeiro dia em Berzan, quando viu Eunice dormindo tranquilamente dentro da banheira, Johannes aguardava, a todo instante, o dia em que finalmente se tornariam marido e mulher.

Seu corpo branco como leite era a própria definição de beleza.

As noites em que passou odiando a si mesmo por descobrir que alimentava pensamentos obscenos sobre Eunice desfilaram diante de seus olhos como um caleidoscópio.

‘Apenas aguente mais um pouco. Só mais alguns dias.’ 

Depois de fazê-lo esperar até o limite… Receber uma carta tão miserável.

Só de lembrar, sentia a cabeça ferver de raiva.

Deixando Eunice tremendo sozinha no quarto como uma oferenda sacrificial, seus passos o levaram ao campo de treinamento. Golpeou a espada repetidas vezes. Continuou golpeando até o amanhecer, até seus cabelos ficarem encharcados de suor.

Ele cortou, esfaqueou, chutou e esmagou os ossos de um Kallian imaginário cujo rosto ele nem conhecia. Mesmo depois de fazer isso por horas, sua raiva não foi aplacada.

‘Porra.’ Onde havia ido parar a noite íntima que esperava? Em vez disso, passara a madrugada inteira suando sob o luar.

Depois de finalmente gastar toda aquela energia, voltou ao escritório e chamou Hannah. Então entregou a ela a carta problemática.

— Esta carta é para Eunice. Descubra que tipo de relação ela tem com Kallian, mas sem levantar suspeitas.

— Entendido, Majestade.

— Ah… e ela parece bem fraca com álcool.

— Perdão?

— Não existe alguma poção que alivie a ressaca?

— …Vou procurar uma.

Hannah era completamente leal a Johannes. Durante a guerra, devia a própria vida a ele e, desde então, recebera inúmeros favores.

Era confiável o bastante para ser designada como criada pessoal de Eunice, mas, ao mesmo tempo, era perfeita para relatar cada movimento da rainha a Johannes.

Após dar essas ordens simples, Johannes permaneceu sozinho, examinando silenciosamente o próprio coração.

‘A relação entre Kallian e Eunice.’

Ele não tinha certeza se queria ouvir a resposta ou não.

Talvez fosse melhor simplesmente ignorar aquilo e apagar o assunto da mente. Assim poderia desejar Eunice sem culpa.

A sensação de seus braços macios ao redor de seu pescoço ainda estava vividamente presente. Johannes exalou uma respiração quente enquanto passava a mão inutilmente pela nuca.

Foi então que uma voz irritante voltou a incomodá-lo.

— Parece que me lembro de alguém dizendo que não deixaria ninguém atrapalhar seus três dias de descanso.

— …

— Devo ter ouvido errado.

Enquanto dizia isso, Glenton enfiou teatralmente o dedo no ouvido.

— …

‘Esse desgraçado… Ignore. Ignorar é a resposta.’

Praguejando mentalmente de todas as formas possíveis, Johannes virou outra página do relatório sem sequer olhar para Glenton.

No entanto, esse esforço se mostrou inútil no momento seguinte.

— Vocês brigaram?

— …

— Ou ela te expulsou do quarto?

— …

— Ora, ora…

— Não é nada disso.

Ele não suportava vê-lo tirando conclusões absurdas. Enquanto lançava um olhar afiado e frio, os olhos travessos de Glenton se curvaram profundamente.

‘Está procurando briga?’

Considerando seriamente agarrá-lo pela gola, Johannes levantou-se de seu assento, mas Glenton teve sorte. Justo naquele momento, um anúncio veio de fora.

— Vossa Majestade, a Rainha, está aqui.

Johannes engoliu em seco. Não esperava que ela viesse procurá-lo logo pela manhã.

Deixá-la sozinha na noite anterior lhe deixara uma estranha sensação de culpa.

Enquanto hesitava inconscientemente, Glenton falou:

Johannes, ainda não preparado mentalmente, ficou desnorteado.

— Pode entrar.

— Não…! Ahem…

Assim que a porta se abriu e Eunice entrou, ele apressou-se em recompor a expressão.

Quando a porta se abriu e Eunice apareceu, ele rapidamente recompôs sua expressão. Sua figura graciosa se movendo com leveza imediatamente capturou sua atenção.

— Saudações a Vossa Majestade, a Rainha.

— Senhor Glenton. Espero não estar interrompendo algo importante.

Eunice cumprimentou apenas Glenton, ignorando Johannes. Tendo se levantado desajeitadamente porque pretendia agarrar o sujeito pelo colarinho, Johannes chegou a cogitar se ainda dava tempo.

— Não estamos ocupados. Na verdade, ele poderia ter tirado três dias de folga, mas resolveu aparecer de repente.

— Glenton!

— Três dias?

‘Por que esse cara foi mencionar isso?!’ 

Johannes tentou interrompê-lo desesperadamente, mas, quase simultaneamente, seus olhos encontraram os de Eunice, e ele congelou.

Enquanto isso, a voz de Glenton continuou:

— Imagino que tenha vindo tratar de algum assunto com Sua Majestade, o Rei.

— Sim…

Eunice respondeu sem desviar o olhar de Johannes.

— Se esse nosso rei inadequado te aborrecer, conte tudo para mim. Posso dar conta dele.

‘Esse desgraçado…’

Em circunstâncias normais, Johannes já teria mandado que ele calasse a boca.

Clique. 

Somente depois que a porta se fechou e Glenton desapareceu é que Johannes percebeu que sequer conseguira dizer uma frase completa. Sentia o olhar de Eunice fixo nele.

— …O que a traz aqui?

Sua voz tensa quebrou o silêncio. Eunice inspirou e expirou lentamente, com o rosto rígido. Seu peito subia e descia de forma evidente.

Johannes prendeu a respiração, atento a cada detalhe dela.

Os cílios tremendo levemente. Os olhos verdes, estranhamente solenes. O dorso da mão, cujos nós dos dedos embranqueceram por apertar a barra do vestido. Ela reduziu lentamente a distância entre eles.

Os olhos azuis do homem acompanharam naturalmente cada passo. Ela parecia caminhar em linha reta, mas então contornou a mesa que os separava e parou bem diante dele.

Eunice levantou seu rosto bonito para olhá-lo.

— Vim dizer que vou me esforçar mais.

— O quê?

Antes que seu cérebro compreendesse o significado daquelas palavras, ela demonstrou suas intenções com ações. 

Com delicadeza, sua mão macia segurou a mão áspera de Johannes e a colocou sobre um de seus seios.

Por vários segundos, Johannes não conseguiu compreender o que estava acontecendo com ele. Um instante depois, um gemido rouco escapou entre seus dentes.

— Ah…

— …

— …

Um silêncio pesado tomou conta do ambiente. O ar esquentou rapidamente.

— Estou de volta, Rei!

Foi nesse momento que uma voz animada ecoou.

Bang!

Rowell, que havia ficado para investigar a Terra da Morte, acabara de retornar. 

Ele piscou vagamente para a cena que se desenrolava diante dele.

— …O que vocês dois estão fazendo aí?

O homem e a mulher estavam parados a uma distância estranhamente suspeita um do outro. Com as orelhas completamente vermelhas.

Continua…

Tradução e Revisão: Elisa Erzet 

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