No Fim do Inverno - Capítulo 23
Me Deixando Confusa
O dia amanheceu. Observando a luz do sol atravessando as grades da janela, Eunice pensou distraidamente:
‘Já é manhã?’ Depois de esperar a noite toda, ele não voltou. Deixada sozinha na cama em sua noite de núpcias. Certamente era uma situação vergonhosa que ela não poderia contar a ninguém.
— Haah…
Sua cabeça latejava.
Por que nada dava certo? Pensar que ela nem sequer conseguiu consumar adequadamente o casamento com o próprio marido.
“Coisa inútil.”
A voz desdenhosa de alguém ecoou em sua mente. Ela não conseguia dizer se era a de Rockford, Deborah, Sophia ou Philip.
Uma coisa era certa, Eunice sentia profunda vergonha da situação atual.
Ela queria chorar.
Puxou o cobertor até o topo da cabeça, fugindo da luz do sol. Encolhida naquela espécie de caverna, as lembranças vergonhosas da noite anterior voltaram de forma desnecessariamente vívida.
Foi a primeira vez em sua vida tentando seduzir alguém. Foi desajeitada demais? Ele não se interessava por mulheres inexperientes? O que exatamente significava “Eu não gosto assim”?
‘Eu disse claramente a ele que estava nervosa porque era minha primeira vez.’
Se ele não preferia mulheres promíscuas, essa reação não fazia sentido. Talvez Johannes preferisse mulheres experientes e sensuais.
Todo tipo de pensamento corria desenfreado em sua cabeça.
O choque foi ainda maior porque não esperava ser rejeitada na cama. Ela se lembrou de uma conversa que ouviu um dia — Philip e seus amigos rindo com comentários cheios de assédio.
“Eunice tem um corpo incrível. Não é à toa que Sua Alteza vive atrás dela.”
“Como você sabe? Já a viu?”
“Preciso vê-la nua? O tamanho já diz tudo.”
“Mas não consigo imaginar o quão incrível ela seria realmente nua.”
“Pare com isso. O príncipe herdeiro Kallian deveria ser o primeiro a ver. Que vantagem teríamos comendo ela antes”
‘Oh, súditos tão leais.’
Ao passar pelo corredor, Eunice ouviu essas palavras acidentalmente através da fresta da porta e congelou como uma estátua. Ela quase chorou com as palavras humilhantes.
Mal controlando seu corpo trêmulo, ela fugiu daquele lugar naquele dia, uma memória que perfurava dolorosamente em sua alma.
Portanto, aprendera uma coisa. Mesmo sendo um conhecimento que nunca quis adquirir, entendeu que tipo de corpo os homens gostavam.
E, mesmo assim, não conseguiu conquistar o coração do marido.
‘Mas é tão ruim a ponto dele abandonar o quarto?’
Era desanimador. Não fazia ideia de como encarar Johannes a partir de agora. De repente, percebeu que não era a primeira vez que se via em tal situação.
Agora que pensava nisso, em seu primeiro dia em Berzan, ela havia adormecido enquanto tomava banho e acabou mostrando seu corpo nu para o homem. Naquela ocasião, ele também não demonstrara nenhuma reação especial.
— Talvez eu não seja o tipo dele…
O que deveria fazer?
Já se sentindo envergonhada e assustada, por ser inexperiente na cama, não tinha ideia de como seduzi-lo. Era assustador.
Pensando nisso, ela nem conseguia lembrar que expressão Johannes tinha quando saiu do quarto na noite anterior. Só recordava vagamente o topo de sua cabeça enterrado em seus seios, o perfil quando ele virou a cabeça, ou suas costas saindo rapidamente do quarto.
Ela estava tão nervosa que sua mente permanecera em completa desordem.
— O álcool também era muito forte.
Aquilo provavelmente tornou possível aquele nível de ousadia. Envolver o pescoço dele com os braços e beijá-lo talvez não significasse nada para algumas pessoas, mas para Eunice foi um enorme passo.
Eunice apertou firmemente o cobertor sobre a cabeça e fechou os olhos com força. Então precisava ser ainda mais ousada daqui para frente…
Toc, toc.
Foi então que ouviu uma batida na porta. Enquanto abaixava lentamente o cobertor do rosto, ouviu uma voz respeitosa do lado de fora.
— Vossa Majestade, é Hannah.
Antes que pudesse dar permissão para entrar, a porta se abriu e três criadas entraram. Hannah, na frente, a cumprimentou com uma saudação matinal alegre.
— Acordou cedo. Bom dia.
— Ah… sim.
Enquanto se sentava desajeitadamente, outra criada, Dorothy, abriu rapidamente as cortinas. A luz do sol que antes ondulava suavemente entrou abundantemente pelas grades da janela.
Fechando os olhos por reflexo, Eunice os abriu lentamente após franzir fortemente o rosto.
— Está um lindo dia.
Hannah manteve a postura impecável enquanto anunciava gentilmente o início do dia.
Eunice piscou lentamente algumas vezes, então olhou para Dorothy amarrando as cortinas com fitas e Julie recolhendo a garrafa de bebida, antes de olhar de volta para Hannah.
— Poderia me trazer um copo de água gelada?
A dor de cabeça que vinha surgindo lentamente piorou com a luz do sol. Parecia que alguém martelava dentro de sua cabeça. Devia ser efeito do álcool forte.
Enquanto segurava a cabeça com uma das mãos, Hannah perguntou perceptivamente:
— Está de ressaca?
— Sim. O que é isso?
— É uma poção.
— …
Em vez de água, um pequeno frasco de vidro do tamanho de um dedo indicador foi colocado diante de seus olhos. Eunice olhou para ele com olhos confusos, Hannah acrescentou uma explicação:
— Sua Majestade pediu que preparássemos isso, só por precaução.
— Sua Majestade Reinhardt?
— Sim. Sua ressaca deve melhorar rapidamente.
Hannah assentiu com um sorriso gentil. Eunice pegou o frasco tomada por uma sensação estranha.
Mesmo depois de sair daquela forma, ainda era tão atencioso assim. Ele realmente deixava as pessoas tão confusas…
“Taylor provavelmente fez isso em meu nome. Aftf.”
Ah, então é isso.
Com aquela voz vindo de repente à mente, Eunice conseguia entender como Avril havia alimentado suas próprias ilusões. Curiosamente, ela sentia que sua situação não era diferente de Avril.
— Obrigada. Vou tomar direitinho.
Após agradecer Hannah, ela despejou a poção na boca. Pensando que não havia necessidade de agradecer Johannes especificamente, Eunice afastou o cobertor e saiu da cama.
Ela iria se arrumar e começar o dia. Não queria desperdiçar tempo encolhida no quarto de forma patética só porque fora duramente rejeitada na noite de núpcias.
Ao mergulhar o corpo na água morna do banho, o rosto de Eunice ficou vermelho de vergonha. Queria se esconder em um buraco de rato, incapaz de encarar as criadas.
‘Meu Deus. Quando foi que ele deixou tantos chupões?’
Havia chupões por todo o seu pescoço, clavícula e seios. Embora Hannah, Dorothy e Julie desviassem habilmente os olhos enquanto cuidavam de seu banho, não havia como escapar da atmosfera peculiar.
Não eram apenas um ou dois. Também era um mistério como ela não percebera até a situação chegar àquele ponto.
Eunice se perguntou se realmente ficara bêbada com apenas uma taça. Normalmente conseguia beber uma ou duas taças de vinho, mas a bebida de ontem era realmente forte.
A sensação ardente descendo por seu esôfago ainda permanecia vívida. Era uma bebida tão intensa que parecia incendiar suas entranhas: por que as pessoas gostavam daquele sabor?
Atribuindo o constrangimento à bebida forte, Eunice terminou rapidamente o banho. Secou a umidade do corpo com uma toalha e vestiu um robe.
As áreas constrangedoras ainda permaneciam visíveis, fazendo o tempo de arrumação parecer passar particularmente devagar. Para piorar as coisas, quando sentou em frente à penteadeira, seu reflexo surgiu claramente no espelho.
— …!
‘É mais provocativo do que imaginei.’
Imaginando como os outros a veriam assim, ela sentiu que estava chegando ao limite da vergonha humana.
Da boca de Eunice, que até agora estava perdida, veio uma voz surpreendentemente calma. Parecia que seu cérebro tinha se acalmado depois de cruzar alguma linha.
— Poderiam preparar um vestido que cubra até o pescoço para hoje?
— Sim, Vossa Majestade.
As três criadas responderam ao mesmo tempo.
— …Obrigada.
O tom delas sugeria que já planejavam fazer aquilo desde o início. Eunice se resignou interiormente. Era algo com que ela teria que se acostumar de qualquer maneira.
Julie, que havia secado completamente seus cabelos molhados, escovava os longos fios loiros. Dorothy procurava vestidos que cobrissem o pescoço no guarda-roupa, preparando-os em um suporte temporário.
Foi então que Hannah lhe entregou algo.
— O que é isso?
Era um papel enrolado.
— Uma carta endereçada à Vossa Majestade. Um corvo a trouxe.
— …
Uma resposta já tinha chegado para a carta que enviara a Tranche? Honestamente, ela pensara que Rockford não responderia.
O coração de Eunice acelerou. Sem dúvida estaria cheia de frases formais e protocolares, mas ainda assim ela queria saber o que dizia.
Mesmo tendo tratado a filha como um vestígio que desejava apagar, talvez tivesse ficado preocupado, ainda que minimamente, depois de enviá-la para Nordish, conhecido como uma terra estéril. Talvez tais sentimentos fossem transmitidos nesta resposta rápida.
Mesmo depois de prometer milhares de vezes que não criaria expectativas, a esperança ergueu novamente a cabeça. Tolamente.
Enquanto segurava a carta amarrada com uma fita frouxa entre os dedos e a virava de um lado para o outro, seus olhos captaram pequenas letras.
[Seu Kallian.]
Seu humor afundou como poeira sob a chuva.
Continua…
Tradução: Elisa Erzet