O Marido Malvado(novel) - Capítulo 225
O calor do verão no Império Traon costumava ser seco e suportável à sombra, mas, naquele dia, um ar espesso e úmido parecia grudar em tudo. Aquela atmosfera sufocante era o fantasma persistente das chuvas de monção, que haviam cessado havia pouco tempo. O céu permanecia coberto por um manto cinzento e opaco, aprisionando o ar pesado e abafado e fazendo com que até respirar parecesse um esforço.
Cesare se movia com um passo lânguido. Ao seu lado, seu irmão gêmeo Leone lançou-lhe um olhar preocupado.
— Ela está pulando as refeições? Disseram que nem água você está bebendo — disse Leone, com a voz mesclada de preocupação e frustração.
Já fazia quatro dias desde que a mãe deles havia se trancado em seu palácio, isolando-se voluntariamente e recusando-se a receber qualquer pessoa. Corria a informação de que ela estava deixando de comer e beber, consumida inteiramente por sua feitiçaria. Até então, eles a tinham deixado com seus rituais estranhos.
Leone, porém, estava ficando cada vez mais ansioso. Por isso procurou Cesare, esperando que os dois enfrentassem juntos aquele isolamento perturbador da mãe. Ele estava preocupado, mas a ideia de ir sozinho o aterrorizava. E se acabasse interrompendo algum feitiço? No fundo, Leone esperava que, caso a ira da mãe recaísse sobre ele, ao menos fosse dividida com seu irmão.
Apesar de ambos os rapazes terem atingido a maioridade naquele ano, Leone ainda se agarrava a uma certa dependência infantil, especialmente quando se tratava da mãe. Ele alegava desprezá-la, mas nutria um desejo desesperado e secreto de receber seu afeto. Ao contrário de Cesare, Leone conhecera uma medida do amor materno. Ela favorecia seus olhos azuis, que tanto se assemelhavam aos do Imperador, enquanto enxergava os olhos vermelhos de Cesare como um presságio amaldiçoado.
Cesare permanecia completamente indiferente ao favoritismo descarado da mãe.
Ele simplesmente não possuía disposição para esse tipo de agitação emocional. A única coisa que realmente o incomodava era quando ela o importunava por seu sangue ou o arrastava para sua feitiçaria excêntrica. Ele via tudo aquilo como uma perda de tempo monumental.
Ressuscitar os mortos? Que estupidez. Cesare zombou mentalmente. Quando ela estava obcecada por superstições para reconquistar a afeição do Imperador, pelo menos havia uma chance remota, por mais ínfima que fosse, de que o velho Imperador pudesse mudar de ideia. Claro, isso não teria nada a ver com os rituais ridículos dela.
Essa nova obsessão por necromancia estava além da compreensão. Para Cesare, era um ato de pura loucura, algo que apenas uma pessoa desprovida de razão e senso comum sequer tentaria. Fez uma careta ao se lembrar de um ritual anterior. Se a incomodasse agora, poderia acabar coberto de sangue de cabra novamente. Inicialmente recusou o pedido insistente de Leone, mas seu irmão foi tão persistente que acabou cedendo.
Depois de uma xícara de chá tranquila, seguiram em direção à residência da mãe.
O palácio, visível à distância, estava visivelmente deteriorado. O Imperador, que adorava seus filhos gêmeos, especialmente Cesare, nutria apenas desprezo pela mãe deles. Para impedir que ela se tornasse arrogante graças ao prestígio dos filhos, fazia questão de humilhá-la deliberadamente, deixando-a viver num palácio que era uma vergonha para o status de mãe de dois príncipes.
Ao entrarem, nenhuma criada apareceu para recebê-los. Era fato conhecido que ela possuía poucos servos, mas parecia que todos estavam ausentes.
— Bem… nós viemos sem avisar. — Leone murmurou, um pouco constrangido, enquanto seguia na frente.
Os dois caminharam até o aposento onde a mãe costumava se trancar para realizar seus rituais.
O corredor estava envolto em uma escuridão perpétua, com suas janelas cobertas por cortinas grossas. No chão, diante da porta, espalhava-se um líquido vermelho-escuro, espesso e pegajoso, escorrendo pela fresta inferior. Era sangue.
Um líquido vermelho, escuro e pegajoso cobria o chão em frente à porta, escorrendo por uma fresta embaixo dela. Era sangue grosso e viscoso, produzia um som repugnante ao aderir às botas deles. Leone recuou visivelmente antes de bater com cautela.
— Mãe… é o Leone.
Silêncio.
Ele girou a maçaneta. A porta abriu sem resistência. encarou a porta destrancada e voltou a falar, agora com a voz levemente trêmula.
— Vou entrar.
Um ruído metálico e desagradável ecoou quando empurrou a porta. Não vinha das dobradiças.
Rang… rang…
Uma forma comprida balançava na brisa vinda de uma janela aberta. O ar, apesar da janela aberta, estava fétido e pesado.
O rosto de Cesare endureceu, e os olhos de Leone se arregalaram. Por alguns instantes, os gêmeos permaneceram completamente imóveis.
— …Ah.
Foi Leone quem finalmente quebrou o silêncio. Um gemido baixo escapou de seus lábios. Cambaleou alguns passos para a frente e caiu de joelhos, vomitando sobre o chão encharcado de sangue.
Deixando o irmão atordoado para trás, Cesare entrou no quarto. Pegou uma faca caída no chão e cortou rapidamente a corda presa ao pescoço da falecida, fazendo o corpo cair no chão. A cena era macabra. Mesmo assim, Cesare sabia que o agente funerário conseguiria deixá-la apresentável.
Seu olhar percorreu o cômodo.
As paredes estavam cobertas de sangue, vestígios do último e desesperado ritual de feitiçaria. Parte era sangue de animais. Provavelmente também havia o dele. Cesare lembrou-se das insistentes exigências da mãe, pedindo cada vez mais do seu sangue.
Leone, coberto tanto de sangue quanto do próprio vômito, apenas encarava Cesare com olhos completamente vazios.
Cesare tirou as luvas de couro sujas e as lançou ao chão.
— Reaja, Leone.
Leone não respondeu. Cesare se ajoelhou, segurou o irmão e o arrastou para fora do cômodo. Em seguida, deu-lhe um forte tapa no rosto.
Só então Leone saiu daquele estado de choque. Piscou algumas vezes, enquanto a névoa em seus olhos desaparecia, dando lugar a uma avalanche de emoções. Fez um enorme esforço para recuperar o controle.
Lutou para se recompor. Como príncipes do Império Traon, sua posição sempre fora instável. Eles eram apenas dois dos muitos filhos do Imperador. Não podiam se dar ao luxo de perder seu favor. Demonstrar abertamente tristeza pela morte de uma mãe que o Imperador desprezava seria um grave erro.
Suprimindo à força seus sentimentos, Leone perguntou com voz trêmula:
— Você… está bem?
Cesare refletiu sobre a pergunta. Testemunhara inúmeras mortes nos campos de batalha. Vira cadáveres em estados muito piores. Comparado a eles, a morte de sua mãe parecia quase tranquila. Quando respondeu simplesmente que estava bem, o rosto de Leone empalideceu ainda mais.
— Como você consegue ser assim?
Sussurrou, com os olhos arregalados em uma confusão que Cesare simplesmente não conseguia compreender. Leone argumentou que aquilo era diferente; afinal era a mãe deles. Mas para Cesare, um cadáver era um cadáver.
Ele guardou seus pensamentos para si. Sabia muito bem que jamais deveria revelar o enorme abismo que separava seus sentimentos dos do irmão.
A notícia do suicídio da mãe dos príncipes gêmeos se espalhou pelo palácio imperial com a velocidade de uma rajada de vento.
Ele recebeu Eileen exatamente no dia em que sua mãe morreu.
O encontro já havia sido marcado anteriormente, mas os criados tentaram mandar a garota de volta. Presumiram que Cesare estivesse de luto e não desejasse ser incomodado por uma criança. Acreditavam que, ao menos, demonstraria alguma tristeza, mesmo que sua relação com a mãe tivesse sido difícil. Mas Cesare não alterou sua rotina. Eileen chegou exatamente na hora combinada.
Ela estava estranhamente quieta, percebendo o clima pesado que dominava o palácio. Normalmente era muito falante, mas naquele dia permaneceu em silêncio. Chegou até a perguntar se havia acontecido alguma coisa. Seus olhos verde-dourados já brilhavam com lágrimas não derramadas.
Enquanto a observava, uma pergunta surgiu em sua mente. Como ela reagiria se contasse sobre a morte da mãe?
Ele sabia a resposta. Ela choraria. Choraria por ele, derramando todas as lágrimas que ele próprio era incapaz de derramar.
Depois faria todo o possível, com sua sinceridade desajeitada, para confortá-lo.
Parte dele tinha curiosidade para ver seus esforços desajeitados, mas não queria vê-la chorar. Não tinha ideia de como consolar alguém. Por isso, limitou-se a dizer que não havia acontecido nada. E passaram o tempo juntos exatamente como haviam planejado.
Ele não percebeu na época, mas agora compreendia. Havia outro motivo para não lhe contar sobre a morte de sua mãe. Simplesmente não queria vê-la chorar por sua causa.
Continua…
Tradução e Revisão: Elisa Erzet