O Marido Malvado(novel) - Capítulo 196
A Condessa estava doente havia muito tempo. O Conde Domenico, em sua busca desesperada por algo que aliviasse o sofrimento extremo da esposa, encontrara Eileen pela primeira vez no pequeno quarto do segundo andar de uma velha pousada. A ligação entre eles continuou mesmo depois de Eileen se tornar Arquiduquesa. Ela escolhera a Condessa como a segunda receptora de Morpheu; embora seu estado tivesse piorado além do alcance de qualquer analgésico existente, o medicamento, por um tempo, lhe trouxe alívio..
A imagem do Conde Domenico, com o rosto suavizado pelo alívio ao ver a esposa finalmente respirar sem dor, ainda permanecia vívida na mente de Eileen. E, ainda assim, no fim, o corpo frágil da Condessa não resistira por muito tempo. Eileen sabia que sua morte não era inesperada, que a qualquer momento ela poderia retornar aos braços de Deus. O próprio Conde Domenico também vinha se preparando para a despedida inevitável e para o funeral que se seguiria. Mas, não importa o quanto alguém se prepare, a morte é uma separação dolorosa, um fardo difícil de suportar. Eileen não conseguia sequer imaginar a devastação que atingira um homem que amava tão profundamente a esposa.
— Providenciarei para que possa comparecer ao funeral — disse Sonio com voz gentil.
Eileen assentiu devagar, percebendo que ele ainda tinha algo a dizer, e falou primeiro:
— Imagino que será difícil para o Conde comparecer ao julgamento hoje.
O Conde Domenico, como Presidente do Senado, estava programado para comparecer como uma testemunha crucial em favor de Eileen. Já que a Condessa fora uma receptora direta de Morpheu, seu testemunho era extremamente importante. Mas era impossível exigir algo assim de um homem que acabara de perder sua amada esposa. Naquele dia, o Conde estaria lutando apenas para conseguir processar seu luto.
Sonio sabia disso, é claro, mas era o mordomo do Arquiduque Erzet. Sua lealdade pertencia à Arquiduquesa a quem servia. Eileen, entendendo seus pensamentos, sabia que ele provavelmente desejava correr até a residência do Conde e arrastar o homem devastado até o tribunal. Quando necessário, Sonio era alguém de propósitos frios e cruéis, um fato que Eileen conhecia muito bem, embora ele raramente mostrasse isso a ela. Querendo poupar o homem daquela humilhação, ela tranquilizou Sonio, explicando que acreditava poder vencer o julgamento mesmo sem o testemunho dele.
O olhar de Sonio permaneceu sobre ela enquanto falava, carregado de preocupação:
— Eu acredito em você, Eileen — disse ele, usando seu nome em vez de seu título.
Ela lhe ofereceu um sorriso suave. Sonio pegou uma das folhas de papel que ela deixara cair e a entregou de volta.
— Estarei esperando — falou ele, com a voz reconfortante. — Quando retornar… prepararei chá com bolo de laranja.
Em tom brincalhão, acrescentou que deixaria muitas sobremesas prontas caso ela voltasse cedo. Eileen prometeu que voltaria, embora soubesse que era uma promessa impossível de cumprir. Mas por enquanto, naquele momento, queria falar apenas de coisas agradáveis com Sonio, sabendo o quanto ele estaria se preocupando com ela, naquela enorme residência.
Com os preparativos concluídos, Eileen foi acompanhada por Sonio até as escadas. Do patamar, olhou para baixo.
No salão, Cesare, já vestido com o uniforme completo, conversava com Senon. Atrás dele, Diego, Lotan e Michelle permaneciam em postura rígida, ouvindo atentamente.
O olhar de Cesare lentamente se moveu para as escadas, encontrando-a. Foi um momento semelhante ao do passado — o dia do festival de caça — quando ele estivera no salão com seus cavaleiros e ela o observara do alto. Naquela lembrança, ficara hipnotizada por ele em suas roupas de caça; não era diferente agora. Estava completamente fascinada por ele em seu uniforme de Comandante Supremo.
Um leve sorriso surgiu nos lábios de Cesare. Ele abriu a boca e chamou seu nome:
— Eileen, vai continuar apenas olhando?
Eileen desceu as escadas lentamente. Durante os dias em que esteve confinada em seu quarto, ela estivera com Cesare quase constantemente. Ele permanecera ao seu lado, deixando-a apenas para o estritamente necessário. Mas desde que fora libertada, ele só voltava para ela muito tarde da noite, vindo para sua cama apenas depois que ela estava profundamente adormecida, saindo novamente antes que ela acordasse. Eileen só soube disso quando acordou brevemente de madrugada e o viu trocando de roupa para dormir e deitando ao seu lado. Ele acariciou suavemente seu cabelo e sussurrou:
“Você deveria dormir mais”
Ela voltara a dormir ao som de sua voz, apenas para acordar pela manhã diante de uma cama vazia. O homem a estava evitando, como se fugisse, temendo acabar acorrentando-a novamente. Eileen achava esse medo exagerado, mas, sem ter como saber ao certo, simplesmente esperara por este dia.
Finalmente, ela o encontrou sob a luz do sol, caminhando em sua direção, parando bem a sua frente.
Os cavaleiros, posicionados um passo atrás de Cesare, fizeram continência para ela, os movimentos tão afiados e precisos como se saudassem seu próprio comandante.
Eileen se assustou, seus olhos arregalados como os de um coelhinho.
Cesare fez um gesto, um movimento simples, e eles abaixaram as mãos. Mas suas expressões permaneceram sérias.
Normalmente, eles a olhavam com o carinho afetuoso que se tem por uma irmã mais nova. Hoje, no entanto, a atmosfera era diferente. Existia algo misturado em seus olhares que não podia ser explicado apenas pela seriedade.
‘É como se eu fosse a senhora deles…’
Ela descartou o pensamento como algo absurdo e passageiro.
— Garantiremos que a Arquiduquesa vença hoje — declarou Senon educadamente e com grande respeito.
Enquanto Eileen ainda estava desnorteada com essa nova reverência, Cesare naturalmente a acompanhou e a conduziu para fora da residência. Cinco veículos militares pretos estavam alinhados em frente à entrada. Eileen e Cesare entraram no terceiro.
Conforme o veículo seguia rumo ao tribunal, uma tensão começou a crescer dentro dela. Eileen mexia inquieta os dedos, cada vez mais nervosa, até que Cesare silenciosamente pegou sua mão. O olhar do homem estava levemente baixo, fixo na janela, como se estivesse perdido em pensamentos. Sua mão grande cobria completamente a dela, como uma fortaleza quente envolvendo seus dedos pequenos e trêmulos. Como um animalzinho buscando abrigo numa caverna, ela escondeu a mão sob a dele.
De repente, Cesare falou:
— Eu pretendia usar uma indulgência. — Eileen ouviu, olhando para o dorso de sua mão coberta pela luva de couro. Cesare murmurou como se falasse consigo mesmo: — Você escolheu deliberadamente o caminho mais difícil.
Se ele tivesse usado uma indulgência, ela escaparia da pena de morte, mas nada além disso. Isso significaria abandonar a honra do nome Erzet e Morpheu. Eileen não queria isso. Cesare riu baixinho, ainda segurando sua mão:
— É por isso que precisava ser você.
Eileen, que observava suas mãos, ergueu lentamente a cabeça para encará-lo. Mas não houve tempo para mais nada. O veículo parou.
Como se despertasse de um sonho, Eileen se assustou com os sons ao redor. O rugido de uma enorme multidão ecoava tão alto que parecia sacudir os céus e a terra — um som cheio de emoções e de fúria.
Ela sentiu as pernas tremerem de nervosismo, mas Cesare calmamente abriu a porta do carro pessoalmente.
Quando a porta se abriu, o som ficou ainda mais alto. Cesare, que saira primeiro, estendeu a mão para Eileen, que estava paralisada no lugar. Ela a segurou e saiu do carro.
— …!
Eileen ficou atordoada com a cena diante de seus olhos. Era uma multidão que lembrava a procissão triunfal de Cesare. Ao longo da vida, ela estivera diante de muitos nobres, mas jamais fora o centro das atenções de tantas pessoas. O número era muito maior do que a multidão reunida na farmácia quando Aspiria foi lançada.
Os cidadãos do Império, alinhados interminavelmente, entoavam o nome Erzet.
Ela foi dominada pela energia deles.
De repente, tornou-se extremamente consciente de seus olhos expostos sem a franja ou os óculos. Tudo aquilo que odiava em si mesma, todas as inseguranças que havia esquecido, retornaram de uma só vez. Sequer conseguia compreender se a multidão gritava a favor ou contra ela, e estava prestes a baixar a cabeça quando Cesare se inclinou, os lábios roçando sua orelha.
— Está com medo?
Eileen olhou para ele com olhos trêmulos.
Cesare a beijou na bochecha e perguntou novamente:
— Você estava disposta a fazer um acordo com um deus para me salvar… e isso aqui é suficiente para te deixar com medo?
Continua…
Tradução e Revisão: Elisa Erzet
Leah
Nossa isso que Cesare disse é verdade que se ela pensa em barganhar com um Deus, mas treme diante dos mortais, ela já perdeu a guerra 🥺🥺🥺🥺