O Marido Malvado(novel) - Capítulo 168
Mesmo que perguntassem aos cavaleiros ou soldados, a resposta não seria muito diferente. Era raro ter a oportunidade de interrogar alguém que não fosse leal a Césare.
Mas quando Eileen perguntou, Alessia pareceu querer desesperadamente fazer uma pergunta. Depois de hesitar por um momento, ela falou com cautela:
— Por acaso… você costuma se dirigir a Sua Graça, o Arquiduque, dessa forma?
Eileen percebeu que vinha se referindo a Cesare pelo nome diante de Alessia. Considerando aquilo um erro, assentiu. Os olhos de Alessia se arregalaram de surpresa. Eileen, surpreendida com a reação repentina, também ficou desconcertada.
O motivo da reação era óbvio. Além do Imperador, Eileen era a única que chamava o Arquiduque pelo nome com tamanha naturalidade.
Eileen sabia disso também. No começo, ela mesma não conseguia dizer o nome de Césare facilmente. Até hoje, tentava ter cuidado em público. Mas o tratamento “Césare” já havia se tornado natural e às vezes escapava sem querer.
Até então, só estivera entre pessoas que não estranhavam aquilo. Ver Alessia reagir assim a fez perceber — aquela era a reação normal.
Alessia rapidamente apagou a surpresa do rosto, retomando sua expressão neutra. Em seguida, pediu desculpas brevemente.
— Não sei de muita coisa.
Ela começou a trabalhar como guarda-costas quando Marlena deixou a taverna na Rua Fiore e passou a se apresentar em eventos da nobreza. Mas disse que sua relação com Marlena vinha de muito antes — eram amigas desde a infância.
Por meio de Malena, Alessia observara Cesare de longe. E o havia visto pessoalmente uma vez. A sensação ao encarar seus olhos vermelhos, desprovidos de emoção, era algo que jamais esqueceria.
— Ele não tem noção de bem ou mal.
— Eu sei — respondeu Eileen.
— Para ser franca, acredito que ele esteja mais próximo do mal.
Eileen mordeu o lábio, parecendo extremamente frágil. Havia desfrutado de todos os luxos de ser Arquiduquesa e, ainda assim, fugira, mesmo sabendo que enfrentaria a fúria do Arquiduque. Era difícil de acreditar.
Agora, Alessia compreendia por que sua amiga e senhora, Malena, se preocupava tanto com Eileen. Aquela mulher ingênua e gentil amava genuinamente o Arquiduque. Malena provavelmente temia o dia em que esses sentimentos puros seriam destruídos por alguém tão vazio.
— Você nunca presenciou a crueldade dele diretamente, não é?
— …
— O dono da taberna que foi forçado a fechar por ordem de Sua Graça foi encontrado morto na Rua Fiore. O corpo apresentava sinais claros de tortura e espancamento.
Alessia considerou descrever o quão horrível a cena havia sido, mas o rosto de Eileen já havia empalidecido.
— E uma vez, quando fui buscar Malena após ela reportar-se a Sua Graça…
Alessia hesitou por um instante, mas então falou sem reservas:
— Eu o vi cortar os tendões dos braços e das pernas de pessoas, jogá-las na floresta e soltar cães de caça atrás delas.
Enquanto Alessia falava, uma cena surgiu vividamente na mente de Eileen. Uma floresta profunda e escura. Uma pequena casa repleta de diferentes tipos de rifles de caça.
— Fossem inocentes ou culpados, isso é crueldade excessiva. Não é como se houvesse tantos criminosos que merecessem um ódio tão profundo por parte de Sua Graça.
Alessia suspirou ao olhar para Eileen, completamente rígida. Nunca tivera a intenção de assustá-la. Só queria dizer a verdade.
— Se os sentimentos dele alguma vez mudar, a Senhora Malena e eu estamos prontas para virar presa dos cães também. Então, se quiser ir embora, agora é sua última chance.
Mesmo com o rosto pálido de medo, Eileen não disse que fugiria:
— …Não posso.
Ela tremia, mas permanecia firme.
— Há algo que preciso fazer, mesmo que custe a minha vida.
Alessia estreitou levemente os olhos. Não compreendia. Por que tamanha devoção ao Arquiduque?
Era o suficiente para fazê-la pensar se Eileen havia sido manipulada. Enquanto a observava em silêncio, Eileen murmurou algo quase indecifrável:
— Por minha causa, o Cesare…
O resto da frase se perdeu. Mas mesmo aquilo já era difícil de acreditar. ‘Por minha causa?’ Cesare não era alguém que mudava por causa de outros.
Ainda assim, Alessia não expressou seus pensamentos. A conversa de hoje já havia sido mais do que suficiente.
Com o tempo, Eileen descobriria por si mesma que tipo de homem o Arquiduque Erzet realmente era.
Alessia lançou um olhar para o caminho que havia bloqueado para impedir Eileen de sair e depois desviou o olhar novamente.
🌸🌸🌸
Era raro todos os cavaleiros se reunirem na capital, a menos que fosse em um campo de batalha. Cada um tinha suas responsabilidades, o que tornava difícil tal encontro. Especialmente Senon, o vice, que cuidava da maior parte da administração — ele sempre estava ocupado ao retornar à capital.
Era algo sério os cavaleiros se reunirem duas vezes em tão pouco tempo. Isso por si só mostrava a gravidade da situação. Quando Eileen foi pega no colapso do Templo dos Deuses, todos se reuniram às pressas. Agora, estavam se reunindo novamente por causa dela.
— …
Normalmente tagarelas entre si, os cavaleiros agora estavam em silêncio. Permaneciam imóveis, lábios cerrados, olhos baixos.
À frente deles estava seu senhor, Césare. Ele vestia um terno em vez de seu uniforme, olhando pela janela. Seu olhar repousava sobre uma laranjeira no pátio central, de folhas verdes e vibrantes.
Cesare fitou a árvore por um tempo antes de finalmente falar:
— Ouvi dizer que foi a última vez que a viram.
— Sim —respondeu Lotan, representando os demais.
Césare lentamente virou a cabeça. Seus olhos se moveram da laranjeira para os cavaleiros.
Senon estremeceu. Michelle permaneceu imóvel, paralisada pelo medo. Seu uniforme estava encharcado de suor frio. Diego não parava de engolir em seco.
Até mesmo Lotan, normalmente difícil de ler, não conseguia esconder sua tensão. Césare não levantou a voz. Ele apenas perguntou calmamente:
— Por que Eileen foi embora?
Ele realmente não compreendia a situação. Lotan não sabia como explicar, mas também sabia que não podia ficar em silêncio.
— A Senhora Eileen… queria trazê-lo de volta ao seu verdadeiro eu. Ela pediu nossa ajuda, mas sugerimos que talvez fosse melhor seguir sua vontade, Vossa Graça…
Lotan parou no meio da frase, surpreendido pelo olhar penetrante de Césare, afiado como uma lâmina. O homem riscou um fósforo. Acendendo um cigarro, ele soltou uma baforada de fumaça e fez um leve gesto com o queixo — continue.
— Talvez ela pensasse que não alcançaria seu objetivo se ficasse na propriedade. Então ela partiu..
Césare fumou em silêncio por um tempo. Os cavaleiros permaneceram imóveis, esperando ele falar. Era raro ele fumar um cigarro inteiro, pois geralmente o apagava na metade.
Mas desta vez, continuou fumando. Apenas o som do tabaco queimando preenchia o ambiente.
Então, finalmente falou:
— Então ela não queria… estar ao meu lado?
Lotan suspirou.
— De forma alguma. A Senhora Eileen—
— Sim, eu sei. Ela fez isso por mim.
— …
— Não precisa explicar mais, Lotan. — Cesare esmagou lentamente o cigarro. — Eu mesmo ouvirei dela.
Continua …
Tradução: Elisa Erzet