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O Carniceiro Poeta de Whitechapel - Capítulo único

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Londres, 1843 – O Inverno das Almas Perdidas

 

O gás dos lampiões dançava como espectros sobre as ruas de Whitechapel, iluminando brevemente os rostos dos condenados pela Revolução Industrial. Entre o cheiro de carvão e sangue velho, **Elias Whitlock** era um farol de civilização — um relojoeiro de mãos delicadas e palavras mais afiadas que qualquer bisturi.  

 

Seus diários, se algum dia fossem encontrados, contariam uma história de amor digna dos romances góticos que ele devorava nas noites insones:  

 

*”15 de Janeiro – Sonhei com Charlotte novamente. Seu pescoço, mais branco que a porcelana da loja do Sr. Huxley. Se eu pudesse tocá-lo sem que ela gritasse… Talvez um dia ela entenderá. Matei a costureira hoje. Suas mãos eram ásperas, nada como as dela. Não chorei desta vez.”*  

 

Ato I: O Artista do Sofrimento

 

Elias não era um assassino comum. Ele **transformava** suas vítimas.  

 

A primeira fora uma prostituta encontrada no Tamisa. Quando a polícia a descobriu, parecia uma estátua de cera — cabelo penteado com cuidado, vestido remendado com linha dourada, lábios pintados com beterraba. Nos bolsos, um bilhete: *”Aperfeiçoada para você, minha dama.”*  

 

Charlotte riu quando o jornal noticiou.  

 

— *”Que cavalheiro romântico”,* comentou, passando os dedos pela página como quem acaricia um amante. Elias, que a espiava da loja em frente, sentiu o coração bater como um martelo contra uma bigorna.  

 

Ato II: O Teatro das Sombras

 

Os assassinatos continuaram. Sempre mulheres de cabelos escuros, sempre “embelezadas” postumamente. A imprensa chamou-o de *”O Alfaiate das Almas”*, e as damas da alta sociedade suspiravam: *”Quem dera um homem me amasse assim, mesmo na morte.”*  

 

Ninguém viu quando Elias seguiu Charlotte até o cemitério na noite do enterro do Dr. Harrow — seu marido. Ela não chorou. Apenas deixou cair um único cravo vermelho no caixão antes de se virar para o túmulo ao lado, onde uma lápide já aguardava:  

 

*”Samuel Greene – Amado até além da morte”*  

 

Elias não entendera. Até que, semanas depois, viu-a beijando o jovem aprendiz do falecido médico. Suas anotações, antes melancólicas, tornaram-se raiva pura:  

 

*”3 de Março – Samuel a toca como se ela fosse comum. Não vê que é uma deusa? Preciso mostrá-lo. Preciso esculpi-lo em algo belo… para ela.”*  

 

 Ato III: A Armadilha de Veludo

 

Charlotte começou a visitar a relojoaria. Trazia-lhe chá, fingia interesse por mecanismos, deixava cair lenços perfumados. Elias registrava cada detalhe:  

 

*”12 de Abril – Hoje, seu dedo tocou meu pulso. Senti o veneno correndo em mim. Finalmente, ela vê.”*  

 

Na noite da confissão, Elias preparou tudo. O porão estava iluminado por velas, uma valsa tocava no gramofone, e no centro da sala — Samuel, acorrentado, com os olhos arregalados de terror.  

 

— *”Vou fazer de você uma obra-prima”,* sussurrou Elias, afiando seu cinzel.  

 

Foi quando Charlotte entrou.  

 

 O Véu Cai: A Verdade por Trás do Espelho

 

— *”Querido Elias… tão previsível”,* ela riu, ajustando as mangas do vestido.  

 

Samuel gritou ao vê-la pegar o martelo das mãos do relojoeiro — não para libertá-lo, mas para **esmagar os dedos de Elias** com um golpe preciso.  

 

— *”Você pensou mesmo que eu não sabia? Que não *planejei* cada passo seu?”*  

 

Os diários de Elias caíram no chão, abertos em páginas que ele não lembrava de ter escrito. Riscadas sob suas próprias anotações, em letras microscópicas:  

 

*”Aguardando o 12º assassinato. Então a polícia virá. E você, meu caro, será minha obra-prima final.”*  

 

Elias entendeu tarde demais.  

 

Charlotte envenenara o marido. Manipulara Samuel para despertar seu ciúme. **E agora, com suas próprias mãos mutiladas e as provas plantadas, Elias seria o Carniceiro de Whitechapel — enquanto ela herdaria a fortuna do médico e o amor do aprendiz.**  

 

Epílogo: A Última Peça do Quebra-Cabeça

Na forca, Elias olhou para a multidão. Viu Charlotte, de luto impecável, segurando o braço de Samuel. Seus lábios formaram uma palavra que ninguém ouviu:  

 

*”P… poeta…”*  

 

E então a trapdoor cedeu.  

 

Nos jornais no dia seguinte, uma crônica anônima (assinada *”L.C.”*) descrevia o assassino como *”um homem de coração partido, cujo amor foi sua ruína”*. Ninguém notou a dedicatória escondida no canto:  

 

*”Para E.W. – Suas palavras sempre foram minhas favoritas.”*  

 

FIM…

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