A Tatuagem de Camélia - Capítulo 90
Talvez, se Igmeyer tivesse nascido e crescido como um nobre, poderia ter pensado de maneira semelhante.
Mas ele cresceu como filho de uma açougueira de monstros, testemunhando o fundo mais profundo da sociedade e aprendendo que a vida existia mesmo ali.
Para ele, a lógica de que vidas insignificantes deveriam ser sacrificadas por uma causa maior era totalmente incompreensível — especialmente quando essas vidas pertenciam à sua esposa e filho.
‘Saudades da minha Amber.’
Com esse pensamento em mente, ele golpeou com sua espada, finalmente decepou a cauda de Nidhogg.
Foi o terceiro sucesso, depois de ter cortado uma das patas traseiras e uma das dianteiras.
Kraaaah!
Nidhogg rugiu furiosamente, mas agora não tinha mais cauda para balançar.
Sem ela, mal conseguia manter o equilíbrio.
‘Uma oportunidade.’
Julgando friamente, Igmeyer firmou o punho da espada e a ergueu bem alto.
Em um instante, sua forma se multiplicou em várias, e logo depois elas desapareceram, deixando Nidhogg confuso sobre qual era a real.
E no momento seguinte…
Thwuck!
Com Nidhogg sem sua cauda irritante, Igmeyer cravou a espada em um de seus olhos e recuou rapidamente antes que ele pudesse se debater.
Aaaah! Kraaaah!
No céu já escurecido, um redemoinho se formou. Nidhogg estava prestes a abrir outro portal para liberar mais monstros.
Mas era exatamente isso que Igmeyer esperava.
‘Se o número de monstros que descerem for suficiente, será o bastante para os próximos dez anos.’
Os ossos, peles, corações e chifres dos monstros eram produtos únicos encontrados apenas no Norte. Eram duráveis e fortes, muito procurados para diversas finalidades.
Até agora, eles os vendiam sem limitar a quantidade, mas isso mudaria daqui para frente.
‘Como não haverá mais monstros… os subprodutos do abate serão usados apenas dentro do Norte. O que sobrar será vendido a um preço alto.’
Esses ossos também ajudariam na construção de edifícios importantes. Uma vez moídos e misturados ao barro tornavam a estrutura resistente o suficiente para suportar terremotos.
‘Amber queria construir uma escola, não é?’
Precisava haver materiais suficientes para isso.
Não importava quais pensamentos cruzassem sua mente, eles sempre voltavam a Amber, o que divertia Igmeyer, fazendo-o sorrir levemente.
— Antes de morrer, por que não me conta de onde está trazendo os monstros? Você não gosta do desenvolvimento do Norte?
Kraaaah!
— O quê, sua sanidade se perdeu completamente?
Não havia outra saída.
A bruxa havia se transformado em árvore, e o dragão maligno protegia aquela árvore.
Dessa situação, podia-se inferir que a ‘árvore’ provavelmente servia como um meio para invocar monstros.
‘Se eu cortar a cabeça do dragão maligno, também devo derrubar a árvore imediatamente.’
Seria o fim completo.
Suas palmas estavam machucadas e seus pés ardiam. Os ferimentos em seus ombros e costas, golpeados por Nidhogg múltiplas vezes, haviam se aberto e infeccionado.
O calor subiu à sua cabeça, e sua visão se turvou com suor e sangue.
Ele podia sentir o gosto metálico do sangue em sua respiração, e uma fadiga esmagadora o pressionava, obrigando-o a cair de joelhos.
Ainda assim, Igmeyer se moveu.
Não pensou em nada, apenas forçou seus braços… suas pernas em ação.
Até que pudesse agarrar a garganta de Nidhogg.
— …
O amanhecer estava surgindo ao longe? Ou era o sol que se punha?
Em um momento de incerteza, sentiu os raios vermelhos do sol subindo o topo da montanha e iluminando o mundo.
A escuridão criada por Nidhogg finalmente começava a se dissipar.
Já não tinha noção de quanto tempo havia passado ou se as estações mudaram, mas Igmeyer estava ali, prostrado sobre um joelho com a cabeça inclinada.
Diante dele estava uma espada quebrada, cravada no chão.
À primeira vista, era difícil dizer se aquilo era vitória… ou derrota.
Um único passo lateral de suas costas largas revelou a verdade.
A cabeça cortada.
A cabeça do dragão maligno.
— Igmeyer.
A primeira a perceber a morte do dragão maligno foi Amber.
Rezando a um deus que talvez existisse ou não, ela vinha recebendo relatórios da situação e olhando na direção de Igmeyer. Naquela manhã, sentindo uma estranha agitação no coração, acordou antes de todos.
— Igmeyer.
Sem acordar as criadas ainda adormecidas, Amber cambaleou até a muralha do castelo e de repente percebeu que o ‘céu’ estava visível.
Não apenas ela, mas também os soldados que guardavam a muralha e Raphael perceberam.
Algo estava mudando. Algo era diferente.
— Querido. Por favor, me responda. Você está bem?
Além da névoa que se dissipava, uma figura imensa surgia.
Aquilo enterrado no chão era provavelmente Nidhogg.
Deve ser Nidhogg.
Raphael a incentivou a ficar para trás, alegando perigo, mas Amber sentiu que sabia.
Que o dragão havia dado seu último suspiro.
Então, o que importava era… Igmeyer.
‘Ele ainda estava vivo?’
Incapaz de suportar, Amber entrou no campo de batalha.
A terra afundada, árvores arrancadas e casas parcialmente queimadas testemunharam os eventos aterrorizantes que haviam ocorrido ali.
E… lá, incapaz de se levantar ou se deitar confortavelmente,
Um homem, apenas apoiando um joelho no chão.
Seu marido.
O pai de seu filho.
— Meu amor… por favor, abra os olhos. Por favor.
Continua …
Tradução: Elisa Erzet