A Tatuagem de Camélia - Capítulo 87
Ela simplesmente não conseguia acreditar na situação.
— Nós vamos ficar aqui. Esta é a nossa casa.
— Isso mesmo! Não queremos ir embora. Por favor, diga que não precisamos.
— Queremos continuar vivendo como sempre. Em tempos de crise, precisamos manter a compostura, certo?
— Se um monstro que os soldados deixaram passar se aproximar do castelo, a senhora vai precisar de nós!
Desta vez, os criados deram um passo à frente, cada um acrescentando sua voz.
Mesmo sem saber absolutamente nada sobre lutar, suas declarações corajosas eram incrivelmente comoventes.
Amber respirou fundo e acalmou o coração acelerado.
Ela nunca havia antecipado ou desejado uma situação como essa.
Mas agora que as coisas haviam chegado a esse ponto, ela sabia exatamente o que fazer.
— Não sabemos quanto tempo esta guerra vai durar.
— Sim.
— Até o dia em que o dragão maligno for derrotado e o Norte for libertado, precisamos economizar recursos e cuidar uns dos outros, preparando suprimentos para os cavaleiros e soldados.
— Basta dar a ordem.
Com um grupo de pessoas unidas por um propósito, aquela situação seria muito melhor do que se ela lutasse sozinha.
Eram pessoas que haviam escolhido ficar, acreditando nela e comprometidas em defender o Norte ao seu lado, então ela podia compartilhar seus planos sem hesitação.
Postando-se com confiança diante de todos, Amber colocou as mãos sobre a barriga.
— Eu estou carregando o herdeiro do Norte.
— !
— Um herdeiro legítimo que herdará estas terras. Eu lhes peço, por favor, me ajude a proteger esta criança.
O apelo sincero de Amber tocou o coração de todos os que ouviam.
Por que a Senhora estava falando daquele jeito?
Isso não deveria ser óbvio?
Se existe um herdeiro, isso deveria ser motivo de celebração, e proteger o herdeiro deveria ser uma missão coletiva pelo futuro do Norte.
Então, por que ela estava fazendo tal pedido?
Todos sentiram alegria e confusão ao mesmo tempo.
E então suas perguntas foram respondidas momentos depois.
[Se quer salvar o Norte, deve oferecer sua esposa e seu filho!]
Aquela voz soou como um trovão.
Todos se encolheram, tapando os ouvidos, e caíram no chão, enquanto apenas uma pessoa permaneceu firme. Amber.
Ela já esperava que isso acontecesse.
Sabia que Nidhogg podia “falar”… então aquilo não a surpreendeu.
[Me entreguem a Senhora do Norte e o herdeiro. Em troca, concederei a primavera.]
Ah, como poderia esquecer aquela voz arrepiante?
A humanidade desaparecia do coração das pessoas, restando apenas um único objetivo. Aqueles que se consideravam racionais armavam-se com sua própria lógica e forçavam outros ao sacrifício.
Esse é o Nidhogg do presente.
Em outras palavras, era o antigo Grão-Duque.
O brado que ecoou duas vezes era forte demais para ser descartado como um mal-entendido, levando as pessoas a trocarem olhares em silêncio.
Raphael, que estava atrás dela, deu um passo à frente e levou a mão ao punho da espada, pronto para derrubar qualquer um que ameaçasse Amber.
Não importava o que Nidhogg estivesse dizendo, Raphael tinha apenas uma ordem:
Proteger Amber.
Ele não queria desobedecer a essa ordem nem uma única vez.
Mas então, uma voz se levantou.
— Como podemos confiar nas palavras de um dragão maligno?!
Surpreendentemente, foi Lotty quem falou primeiro em meio à atmosfera tensa.
— Isso só pode ser mentira! Primavera? Se pudesse concedê-la, já teria feito isso há muito tempo!
Enquanto gritava com raiva, Betty aproximou-se silenciosamente e sussurrou para Amber.
— Lotty perdeu o pai e a irmã mais nova para o monstro. O rancor dela contra Nidhogg é mais profundo do que o de qualquer outra pessoa.
— …Entendo.
Embora Amber não soubesse disso antes, aquilo certamente ajudava na situação atual.
— Comer pessoas, enviar monstros para destruir nossa cidade natal. E agora quer a nossa Senhora? Até o precioso herdeiro? E oferece primavera em troca? Há algum tolo aqui que acredite nisso?
Os olhos de Lotty brilhavam com loucura enquanto ela falava com paixão, apertando o peito com força.
Algumas pessoas, à beira de vacilar, se firmaram e assentiram em concordância.
A maioria compartilhava dos sentimentos de Lotty desde o início.
— Não há garantia de que as palavras do dragão maligno sejam verdadeiras e, mesmo que fossem, não seriam para o bem do Norte. Já temos a competição de esqui, certo?
Betty falou com calma, trazendo a atmosfera de volta ao controle.
— Além disso, temos nosso próprio modo de vida, nossas tradições e nossa história. Oferecer um sacrifício pela primavera seria um insulto às vidas que suportamos.
As palavras de Betty, sustentadas pela confiança e respeito que havia conquistado dentro do castelo, ressoaram em todos.
Quem concluiu foi Huvern.
— Palavras doces sempre escondem armadilhas. Ações que traem a humanidade sempre vêm com um preço. Em meus anos de vida, vi isso se provar verdadeiro. Só quando alguém permanece fiel à sua humanidade pode ser chamado de pessoa.
Com Huvern, Betty e Lotty ao seu lado, Amber sentiu as lágrimas se acumularem enquanto observava aqueles que haviam escolhido apoiá-la.
‘Ah… no passado… se eu tivesse agido apenas um pouco diferente, eram essas as pessoas que teriam ficado ao meu lado.’
O pensamento atravessou seu coração, enchendo-a de dor e, ao mesmo tempo, trazendo-lhe felicidade.
Continua …
Tradução: Elisa Erzet