A Tatuagem de Camélia - Capítulo 84
Aquela manhã pareceu peculiar.
Não fazia frio para o Norte, nem calor. O céu estava salpicado de nuvens brancas e fofas, misturadas ao azul límpido.
Com vento, umidade e temperatura perfeitos, era um dia que naturalmente convidava à felicidade.
Cada casa escancarou portas e janelas, sacudindo a poeira acumulada, enquanto as crianças tagarelavam animadas e corriam por toda parte. Comerciantes mantinham-se eretos em vez de se encolherem, e o mercado fervilhava como nunca antes.
Era uma daquelas tardes cheias de esperança infundada, crescendo no peito como pão fresquinho.
Mas, de repente, um buraco escuro surgiu no céu, e um redemoinho começou a girar.
— Olhem, olhem aquilo!
— O que é isso? Um portal?!
— Do nada? Todos, corram!
— Chamem os soldados!
As pessoas reunidas no mercado por causa do clima agradável entraram em pânico e fugiram. Nem mesmo os comerciantes pensaram em proteger suas mercadorias; simplesmente correram, conscientes de que hesitar poderia significar morte.
Regra número um quando um portal se abre:
Não hesite em abandonar tudo, exceto a própria vida.
Se sofrer qualquer perda, o castelo compensará depois. Portanto, mesmo que seus olhos se encham de lágrimas por frutas, peixes ou carnes preciosas, você deve fugir primeiro.
— Esperem? Isso não é um monstro!
— Não, olhem! Aquilo é…!
Em meio à multidão apavorada, alguns permaneceram imóveis, encarando o céu.
Eram abatedores de monstros, e a abertura de um portal significava que algo apropriado para abate estava prestes a descer.
Com machados em ambas as mãos, cada um deles era mais forte que um soldado comum. Talvez não se equiparassem a um cavaleiro, mas ainda assim, eram formidáveis.
De qualquer forma, eram poderosos, sabendo exatamente onde golpear para derrubar um monstro.
Empolgados, olharam para o céu, inclinando a cabeça em confusão.
O que estavam testemunhando não era o espetáculo típico a que estavam acostumados.
Quando o céu se abria normalmente, monstros costumavam cair como chuva em formas esféricas, mas não era o caso agora.
Em vez disso, um pé colossal emergiu.
Com garras longas e curvas, aquele pé revelava o que rastejava para fora.
— Será que é…?
— Nid…hogg?
Escamas negras brilhavam ameaçadoramente. Enquanto um braço monstruoso se libertava do buraco, vento feroz trazido por ele varreu ao redor.
— Ugh!
O vento era forte o bastante para derrubar uma criança ou alguém frágil. Fragmentos de pedra e galhos chicoteavam o ar, atingindo a pele, e aqueles sem armadura adequada gritavam de terror.
Até os soldados de segurança que correram para lidar com o monstro que caía estavam agora perplexos, sem saber como reagir, e o caos crescia à medida que o cheiro de sangue se espalhava pela multidão.
Sem conseguir discernir se aquilo que emergia era de fato Nidhogg ou outra coisa, o medo se intensificava ainda mais. Os humanos naturalmente temem o desconhecido.
Então veio o grito:
— É a Ordem dos Cavaleiros Gigantes de Gelo!
— O Grão-Duque chegou!
— Estamos salvos!
A bandeira azul-escura adornada com o emblema dos Gigantes de Gelo tremulava violentamente ao vento.
Mas não parecia que estavam sendo levados pelo vento. Em vez disso, parecia que estavam segurando a própria rajada e se mantendo firmes.
Afinal, eles eram gigantes.
Naquela situação desesperadora, a presença de Igmeyer era mais imponente do que qualquer outra coisa.
Ele permaneceu calmo, emitindo ordens sem qualquer sinal de pânico ou medo, garantindo a evacuação de todos. Moveu-se pelo mercado e pela praça, conduzindo as pessoas para fora do castelo.
— Fechem os portões do castelo. Sua luta termina aqui.
— Sim!
Com Igmeyer e a Ordem dos Cavaleiros Gigantes de Gelo permanecendo compostos, os soldados se sentiram menos abalados.
Montado em seu cavalo negro, Igmeyer estava na linha de frente do exército, encarando o céu.
O buraco massivo, agora revelando completamente duas patas dianteiras, transmitia a sensação de que algo estava muito errado.
Uma sensação de tontura os dominou, e o coração de todos disparou. Esse temor, que poderia ser chamado de medo, era sentido universalmente por todos, exceto por Igmeyer.
— Ufa, meu coração está disparado que nem um louco. — Gallard murmurou enquanto olhava para o céu escuro.
Se Gallard se sentia assim, já se pode imaginar como os outros cavaleiros se sentiam.
Mas Igmeyer apenas riu da cara deles..
— Não temam. Ele sente o medo.
— Oh? É mesmo?
— Se quiserem subestimá-lo, continuem se mijando.
Diante da provocação de Igmeyer, Gallard caiu na gargalhada.
Continua…
Tradução: Elisa Erzet