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A Tatuagem de Camélia - Capítulo 66

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​— Se eu soubesse que você ficaria tão feliz em ver o Nicholas Eaton, talvez o tivesse convidado antes… embora uma parte de mim deseje que ele nunca tivesse vindo. É bem contraditório.

​Só então Igmeyer percebeu o que aquele sentimento era.

​Ciúme.

​Afinal, ele sentia ciúme de praticamente tudo ao redor de Amber, então não era estranho que Nicholas também despertasse isso.

​— Mesmo assim, obrigada por tê-lo convidado, meu amor. Pelo que diz a carta, Nick deve chegar em uma semana!

​— Então providenciarei uma carruagem para que ele chegue com todo o conforto.

​Pelo menos agora ele sentia tranquilidade suficiente para pensar assim. Ultimamente, o homem tinha a sensação de que seu relacionamento com Amber nunca estivera tão bom. Dormiam juntos todas as noites e acordavam na mesma cama.

​Durante o dia, levavam vidas diferentes, mas ainda assim ele sempre dava um jeito de ir vê-la. E Amber o recebia, todas as vezes, com o mesmo sorriso caloroso. Um sorriso e um olhar que o aquecia instantaneamente. Talvez por isso Igmeyer estivesse envolto em uma sensação de estabilidade que jamais havia experimentado.

​Ele nunca soubera o quão maravilhosa uma família poderia ser. Se não fosse por Amber, talvez nunca tivesse descoberto. Por isso, ele era incrivelmente grato a ela.

​‘Espero que tudo permaneça assim para sempre.’

​Com um olhar amoroso para Amber, que estava empolgada, Igmeyer fez uma prece ao céu. Esperava que não perdessem a felicidade que tinham acabado de encontrar.

​Assim que um método para tornar o Norte autossustentável fosse estabelecido, ele poderia matar o Nidhogg atual. Se o atual Grão-Duque matar Nidhogg sem um herdeiro, a maldição será quebrada com a geração dele. Até lá, ele só podia torcer para que nada desse errado.

​Enquanto Amber trabalhava na autossuficiência do Norte, havia uma coisa que Igmeyer não devia esquecer: continuar com a contracepção eficaz.

​🌸🌸🌸

​Dizem que coisas boas acontecem em sequência. No dia anterior à visita de Nicholas ao castelo, quase milagrosamente, Nora retornou. E não trouxe apenas alguém que conhecesse os jogos de esqui, mas alguém da própria terra onde os jogos se originaram.

​— Senhoooooora! Senti tanto a sua falta!

​— Nora, bem-vinda de volta! O que aconteceu? Por que não mandou nenhuma notícia?

​— Então… é que…

​Enquanto abraçava Nora, que chorava e fungava sem parar, Amber ouviu atentamente toda a história. No caminho de Nilfheim para Shadroch, Nora e seu pai foram sequestrados. Presos em uma carruagem, Nora entrou em pânico, mas conseguiu manter a sanidade porque estava com o pai.

​Apesar do terror, Nora nunca esqueceu sua missão e expressou sua preocupação sobre como deveria investigar o esqui com seu pai.

Por acaso, naquela mesma carruagem havia alguém que conhecia o esporte. Embora não falassem a mesma língua, a pessoa entendeu o termo “esqui” mencionado por Nora e os dois acabaram cooperando.

​— E então… e então… snif… nós escapamos… eu fiquei responsável por distrair… fui corajosa!

​— Céus…

​— Mas essa pessoa acabou sendo um nobre, e logo alguns cavaleiros vieram e me resgataram. Mas insistiram que eu fosse com eles… snif, fui levada à força, não sabia como mandar uma carta… não conseguia me comunicar…

​Lágrimas brotaram nos olhos de Nora. Vendo o quanto ela tinha sofrido sozinha, Amber deu a ela um abraço caloroso e acariciou suas costas.

​— Sinto muito que tenha passado por tudo isso por minha causa.

​— Não foi nada! Até que foi emocionante. Eu vi os jogos de esqui pessoalmente! Os esquiadores ouviram minha história e quiseram vir… então eu os trouxe comigo.

​Embora inesperados, eram convidados ilustres. Amber enxugou os olhos de Nora com um lenço e a ajudou a assoar o nariz. Enquanto isso, Igmeyer conversava com os convidados, com Jean atuando como tradutor. Embora Niflheim não tivesse intérpretes oficiais, Jean conseguia se virar bem.

​— Eles estão elogiando o clima daqui. É a primeira vez que ouço alguém dizer que gosta do clima de Niflheim.

​A tradução não era perfeita, mas transmitia a ideia geral. Jean transmitia a mensagem com sua maneira e tom únicos.

​— Eles dizem que o clima é tão agradável que gostariam de morar aqui para sempre, apesar da neve nas monthas. Eu também nunca ouvi isso antes.

​— Elogiando Nilfheim? Gosto bastante.

​Os homens eram altos, corpulentos, de cabelos quase brancos e olhos azuis surpreendentemente gentis, contrastando com seus físicos imponentes. Vinham de uma terra chamada Kroneden. Apesar de distante de Niflheim, ficava relativamente próxima de Shadroch.

​Cinco esquiadores, o Lorde Heraldry, que foi sequestrado com Nora, e o Conde Heraldry, que veio com seu filho. Além deles, dez criados. Dezessete convidados no total. O castelo ficaria bem movimentado.

​Sentindo-se cheia de energia, Amber abriu rapidamente os quartos de hóspedes já preparados, providenciou acomodações separadas para os servos e ordenou à cozinha que preparasse mais comida. O vinho reservado seria servido no banquete daquela noite. Com a chegada de Nicholas no dia seguinte, parecia que ela ficaria ocupada conversando com novos visitantes por um bom tempo.

​— Com licença, senhora… e, hum…

​Depois que a situação caótica se acalmou, Nora se aproximou de Amber silenciosamente e sussurrou:

​— Eu também trouxe a pessoa de Shadroch que a senhora mencionou. Mas ela é bem idosa e parece não querer ser vista por mais ninguém, então pedi que ficasse na carruagem… o que devo fazer?

​— Vou vê-la agora. Obrigada pelo seu esforço. Não esquecerei o que você fez.

​— Hehe, não foi nada. Foi minha primeira viagem, então eu também gostei. Meu pai ficou assustado no início, mas agora se enturmou com aquelas pessoas e até tomou algumas bebidas.

​Nora sorriu radiantemente. E, à distância, estava um jovem observando Nora nervosamente com um olhar ansioso: Lorde Heraldry. Ele era exatamente a pessoa que havia sido sequestrada junto com ela.

​‘Então eles devem ter levado Nora para o país deles porque ele gostou dela, mesmo sem conseguir se comunicar?’

​Ele era bem-apessoado, alto e tinha uma expressão gentil. Até parecia um pouco brincalhão. Mas Nora não demonstrava o menor interesse.

​‘Minha nossa.’

​Era claramente um sentimento unilateral. Por estar apaixonada, Amber percebia essas coisas com muita clareza.

​— A propósito, o que aconteceu com aquela mulher insuportável? A senhora a expulsou, não foi?!

​O jovem, que persistia em olhar para Nora, foi finalmente levado embora pelo pai. Apesar disso, ele continuava olhando para trás. Era até fofo. Amber sorriu levemente e respondeu a Nora:

​— Não sei para onde Iona foi. Ela simplesmente desapareceu… temo que tenha fugido.

​— O quêêê? A gente devia ter capturado ela! Se eu estivesse aqui, teria vigiado sem dormir por quarenta e oito horas…!

​— Está tudo bem. Já acabou.

​Olhando para trás, tantas coisas aconteceram enquanto Nora estava fora. Na época, fora doloroso e frustrante, mas agora parecia apenas parte do passado. E qualquer problema futuro também acabaria passando. Se ela não esquecesse disso, sentia que poderia suportar qualquer coisa.

​— É aquela carruagem.

​— Certo. Vou falar com ela em particular. Vá descansar.

​— Sim!

​Nora parecia transbordar de felicidade por estar de volta. As outras criadas, que aguardavam por ela, estavam reunidas um pouco mais adiante. Amber observou Nora correr até as amigas e respirou fundo. Agora, era hora de investigar as bênçãos que desciam de Shadroch.

​Creeeec.

​Com o som da porta da carruagem se abrindo, a idosa lá dentro virou a cabeça lentamente. Apesar da idade, ela ainda tinha um rosto bonito. Seus lábios, embora marcados por rugas, estavam suavemente fechados. Suas costas eram curvadas, mas havia uma graça sutil e digna na maneira como ela apoiava as mãos sobre as coxas.

​Amber se apresentou à mulher, que não podia enxergar.

​— Faz tanto tempo, Vovó Linda. Sou a Amber… você se lembra de mim?

​— Como poderia esquecer nossa princesinha? Estou verdadeiramente feliz em vê-la antes de morrer, velha como estou.

​A mulher era conhecida como Vovó Linda. Ela fora a babá da falecida rainha, mãe de Amber, e permanecera no palácio até que Amber completasse dez anos. Embora a protagonista tivesse sua própria babá, Linda era conhecida como a babá-chefe; cuidava das situações que as mais jovens não conseguiam lidar.

​Como quando Amber fazia birra ou chorava sem parar… Vovó Linda resolvia tudo com facilidade. Ela sempre soubera compreender os sentimentos de Amber. Antes que a porta se fechasse e Amber se sentasse, Vovó Linda falou com carinho:

​— Fiquei muito preocupada quando soube que você se casaria. Mas, ao vê-la agora, percebo que minhas preocupações eram infundadas. Você parece feliz, princesa.

​— Ah… dá mesmo para perceber?

​— Com toda certeza. Até seus passos estão diferentes. Quando a princesinha ficava zangada, pisava com tanta força…

​— É verdade, eu fazia isso.

​Amber relembrou brevemente seus dias de infância, quando segurava a barra da saia e marchava vigorosamente quando chateada, e riu baixinho. Embora tenha passado muito tempo, sentar ali com a Vovó Linda parecia um retorno a um passado querido.

​— Mas… a julgar pela urgência com que você veio procurar esta velha, parece que você já voltou no tempo uma vez.

​— !

​— Não precisa ficar tão surpresa. A bênção do arrependimento não é algo que deva ser mantido em segredo.

​A velha senhora começou com uma expressão genuinamente feliz. Amber temia que aquele assunto devesse permanecer em segredo; agora, sentiu um enorme alívio.

​— Existem histórias sobre essa bênção, sabia? Parece que esta velha conseguiu viver tempo suficiente para contá-las a você.

​— Há algo diferente do que eu ouvi?

​— Talvez haja. Talvez não. Então, princesa… o que exatamente você mais deseja saber?

​Sim, a Vovó Linda sempre foi direta assim. Ela não dava voltas, mas perguntava diretamente, algo que Amber sempre apreciou.

Continua…

Tradução: Elisa Erzet

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