A Batalha pelo Divórcio - Capítulo 46
Após o banquete de Estado, uma música de dança elegante preenchia o salão. Daisy observava, distraidamente, enquanto casais giravam pela pista ao som da melodia. Ela sabia que música e dança eram elementos essenciais em eventos sociais, mas, para ela, parecia observar outro mundo completamente diferente.
Um-dois-três, dois-dois-três. Um-dois-três, dois-dois-três.
O ritmo era familiar.
É uma valsa.
Daisy recordou os passos instintivamente, movendo os pés de leve sob o vestido, onde ninguém poderia notar.
‘Afinal, não esqueci. O que se aprende, o corpo lembra, mesmo depois de anos.
Eu costumava valsar muito bem.’
Mas de que adiantava habilidade para dançar agora? Eram pensamentos inúteis.
Ela havia adquirido um entendimento geral da dança de salão como parte de seu treinamento, sem jamais saber que tipo de missão poderia exigir aquilo. O mesmo valia para etiqueta à mesa e boas maneiras. Como uma agente que poderia ser infiltrada na alta sociedade, precisava saber lidar com interações da elite, especialmente com homens.
A viúva disse ter reconhecido uma amiga de infância, apresentou brevemente a Daisy, e depois se retirou para conversar em particular. Quando Daisy tentou segui-la, a tia insistiu para que ela ficasse, dizendo que havia assuntos importantes a discutir. Parecia muito uma manobra deliberada.
“Você também deveria se misturar com os outros. É assim que se garante seu futuro, não é?”
Ao recordar aquelas palavras anteriores, o significado tornou-se claro. Planejar o futuro devia significar considerar a vida após o divórcio, cultivando conexões com figuras influentes em vez de passar tempo com idosos, ampliando sua rede de contatos.
‘De que me serviria socializar com a alta sociedade?’— pensou Daisy. ‘Assim que o divórcio for concluído, voltarei para o orfanato de qualquer forma.’
Adornada com joias caras e usando os sapatos cravejados de joias que o marido lhe dera, ela deveria aspirar a uma existência mais grandiosa. Mas Daisy não tinha tais ambições.
Ou melhor, o conceito de uma vida grandiosa para Daisy não era luxuoso e extravagante. Desejava um lugar aconchegante e tranquilo onde pudesse simplesmente ser Daisy, cercada pelas crianças e pelas Irmãs. Então nada daquilo importava.
No fim, Daisy acabou sozinha no magnífico salão.
‘Falando nisso, aquele canalha não vai dançar?’
Ela olhou em direção à mesa principal, curiosa sobre o que o marido fazia.
A música continuava fluindo, mas Maxim permanecia sentado, bebendo champanhe em vez de se juntar aos dançarinos. Seu olhar permanecia fixo em Daisy.
‘Por que ele continua me encarando…?’
Isso a deixava profundamente desconfortável. As palavras da tia mais cedo ainda perturbavam sua mente.
“Ele não consegue tirar os olhos de você. Isso não vai tornar as coisas bem difíceis?”
Não era apenas imaginação de Daisy que a atenção de Maxim estava voltada para ela. Se até a Viúva conseguia perceber, então devia estar óbvio. Daisy olhou novamente, como se quisesse confirmar suas suspeitas.
‘Sim, eu estava certa.’
Seus olhos inevitavelmente se encontraram novamente.
‘E se for genuíno? E se… ele ainda estiver completamente obcecado por mim?
Bem, ele a perseguiu tão incessantemente que quase chorou de exaustão. Não seria estranho se, de repente, o homem mudar de ideia e começasse a ter casos?
Daisy se entregou a uma hipótese inútil.
Mas então por que ele continuava ficando fora toda a noite?
Por que lhe deu esses sapatos, símbolos de separação?
E aquela carta… não estava cheia de desejos sinceros pela sua felicidade após o término?
Isso a estava deixando louca!
Na mente de Daisy, duas teorias incompatíveis colidiram ferozmente. Sua cabeça estava tão emaranhada que achava que iria explodir. Desejou ter papel e caneta para organizar os pensamentos.
Ambas parecem plausíveis… Qual está correta?
Espere, talvez ambas estejam certas.
Por que não pensou nisso antes?
Ao chegar àquela conclusão, Daisy uniu as mãos, em sinal de compreensão.
Se lembrou dos escandalosos casos amorosos da alta sociedade sobre os quais frequentemente lia nos jornais sociais. Veja Lady Gladys, que acabara de cumprimentar; embora fosse apenas uma amante, desfrutava de maior notoriedade do que a própria Condessa McCarthy.
Muitos nobres eram hipócritas que mantinham o hábito obscuro de ter amantes e esposas. Ocorreu a Daisy que Maxim talvez fosse um desses hipócritas também.
‘Inacreditável. Quem ele pensa que é…?’
Tendo crescido com as Irmãs, Daisy possuía visões bastante conservadoras e acreditava firmemente em monogamia estrita. Ela era meticulosamente cautelosa até mesmo quanto à intimidade com o próprio marido. A simples ideia de relações fora do casamento era absolutamente repulsiva, suficiente para fazê-la estremecer.
Mas ao contrário da virtuosa Daisy von Waldeck, Maxim admitia abertamente ser um libertino incurável.
E se Maxim pretendesse manter tanto Daisy quanto sua amante não identificada? Ele sequer lhe concederia o divórcio se ela exigisse?
Daisy se imaginou confrontando Maxim com ousadia.
“Como ousa ter um caso? Eu absolutamente não vou tolerar isso. Exijo o divórcio imediatamente, Maxim von Waldeck!”
“E por que eu concordaria com isso?”
Que canalha descarado. Considerando seu comportamento passado, aquele libertino certamente era capaz de tamanha crueldade.
Seus punhos se fecharam só de pensar.
“Eu não te falei”— ele dissera, “que meu último desejo é morrer dentro de você, Izzy?”
“Se continuar dizendo essas baboseiras, eu acabo com você antes que tenha a chance.”
O homem não tinha consciência nenhuma. Ela não se importava com céu nem nada, seu orgulho era mais importante. Se conseguisse eliminar Maxim antes que ele pudesse tocá-la, nem sequer se sentiria arrependida pelas consequências.
— O que está fazendo, minha querida?
Daisy se virou ao ouvir a voz familiar. O Conde Thereze, o mentor de toda essa situação, a cumprimentou com um sorriso gentil.
— Apenas parada aqui.
— Por que não dança com seu pai?
— Estou bem. Se vai apenas dizer bobagens… por favor, me deixe em paz.
Daisy respondeu entre dentes.
— Algo está te incomodando?
— O que quer dizer?
— Ouvi dizer que vocês ainda não… consumaram o casamento.
‘Rose, aquela fofoqueira! Eu disse para ela não contar nada…’
Daisy sentiu uma veia pulsar em sua têmpora enquanto encarava diretamente o Conde Thereze.
— Não é que eu não posso, eu não quero. Informe-se direito.
— Se fazer de difícil é uma coisa, mas não exagere. Você pode acabar afastando ele completamente.
— Sim, claro.
Não tinha sentido discutir. Daisy respondeu sem entusiasmo, com metade do espírito já ausente.
— Especialmente com homens apaixonados como ele. Eles têm… apetites. Dez ou vinte mulheres, pegam qualquer uma que estiver disponível.
— Imagino que sim.
— Só porque ele está apaixonado não significa que você deva ficar acomodada. Lembre-se do que eu disse.
‘Eu deixei perfeitamente claro que não vou dormir com ele.’
Desde quando dividir a cama com Maxim se tornou obrigatório? Já era ruim ser forçada a essa situação, mas ter que aturar a preocupação indesejada dele fazia seu estômago se revirar de ressentimento.
Daisy queria desesperadamente levantar a barra da saia, pegar a pistola fria amarrada em sua coxa e atirar nele.
— Vá embora. Agora. A menos que queira causar uma cena.
— Que gênio difícil. Tudo bem.
Quando Daisy o repreendeu, o Conde Thereze deu um tapinha encorajador em seu ombro e se juntou novamente aos seus conhecidos.
Que tedioso.
Várias outras músicas tocaram, mas a situação permaneceu a mesma. Maxim continuava bebendo champanhe enquanto conversava ocasionalmente com quem se aproximava dele.
‘Eu também quero champanhe.’
Daisy chamou um servo que passava com uma bandeja e pegou uma taça, esvaziando-a de um só gole. Seu espartilho estava tão apertado lhe causando indigestão.
Enquanto saboreava o suave borbulhar descendo pela garganta e batia levemente no peito, alguém se aproximou e a cumprimentou.
— Boa noite.
Quem era este mesmo?
Ela havia tomado apenas uma taça, mas sua memória parecia confusa. Daisy tentou desesperadamente recordar a lista de figuras importantes da sociedade que estudara com tanto empenho. O homem diante dela aguardava calmamente, como se esperasse ser reconhecido.
— Ah… boa noite.
— Aquele discurso mais cedo foi emocionante. Você tem uma voz bonita. Invejo o Grão-Duque por ter uma esposa tão maravilhosa.
— Obrigada.
O homem estendeu educadamente a mão para Daisy, que permanecia rígida e desconfiada.
— Me concederia a honra de uma dança, bela dama?
Era um convite para dançar. Daisy forçou um sorriso desconfortável e acenou negativamente.
— Sinto muito, mas não sei dançar.
-— Tudo bem. Eu conduzirei.
— Não, quero dizer que realmente não sei dançar. Tenho medo de ser um desastre.
— Então talvez possamos compartilhar uma bebida…?
O homem era persistente, seu flerte desajeitado se tornando cada vez mais irritante. Daisy estava completamente incomodada com a situação.
— Vocês dois se conhecem?
Nesse momento, outra presença indesejada interrompeu.
Era seu marido, Maxim von Waldeck.
Continua….
Tradução e Revisão: Elisa Erzet