Solstício (novel) - Capítulo 10
A ponta do dedo do homem tocou os lábios de River. Parecia que ele estava arrumando a borda desalinhada, mas então levou o polegar aos próprios lábios. O dedo manchado de vermelho riscou horizontalmente seu lábio inferior. O estímulo visual da forma esmagada era excessivo.
Como se estivesse soltando um coelho preso numa armadilha, ele sussurrou. Seus olhos e tom de voz eram exatamente como os de um caçador misericordioso.
— O toalete fica por ali.
Era exatamente o tempo que ela precisava para se recompor. Física ou mentalmente.
River se afastou de Alessandro com calma, mas só conseguiu respirar de verdade depois de entrar no lavabo anexo ao banheiro.
Seu reflexo no espelho era uma bagunça. Seus cabelos estavam despenteados, e suas bochechas e pescoço estavam corados. As suaves marcas de batom ao redor de sua boca pareciam vestígios do desejo.
Depois de respirar fundo algumas vezes, River decidiu arrumar a maquiagem primeiro. A mão que abria a clutch continuava tremendo. Era um momento em que ela precisava desesperadamente de um tranquilizante. Ou talvez um pouco de vodca.
— …Droga.
Levou um bom tempo até voltar a ser a Lily perfeita. Enquanto retocava a base e o batom, teve a ilusão de que os lugares tocados pela mão de Alessandro ainda estavam queimando.
— Por que você me trouxe aqui?
Ela não deveria ter avançado de forma tão imprudente.
O tio Ben sempre dizia que River era muito impaciente, mas não conseguia evitar. Era uma missão crucial, mas o tempo simplesmente se arrastava num estado pela metade.
Depois de arrumar seus cabelos despenteados, recuperou um pouco da razão. Aplicando o perfume roll-on na parte interna do pulso, River pensou.
A maneira mais rápida de extrair informações de um homem de poucas palavras e natureza cautelosa seria dar uma espiada em seu celular ou laptop. Para fazer isso, ela teria que aproveitar um momento em que Alessandro estivesse distraído ou ausente, mas ele não parecia do tipo que baixa a guarda facilmente.
Havia pelo menos um caminho fácil. Copiar o celular do homem enquanto ele fosse ao banheiro tomar um banho.
Isso significava que precisaria ter intimidade para ter uma chance de acessar informações confidenciais. O problema era que não havia sinal nem mesmo de cruzar a soleira do hotel.
‘O que diabos ele estava tramando?’
Se havia alguma esperança, era apenas no fato de que ele tinha outros propósitos. Só podia torcer para que a desejasse mais.
Forçando-se a ignorar o calor fictício que permanecia em seu corpo, River saiu do toalete. Alessandro se aproximou primeiro, como se estivesse esperando por perto.
Os lábios do homem estavam limpos. Era como se aquele contato tão intenso nunca tivesse acontecido.
— Você tem outros planos para hoje?
— Não. Por que pergunt—
— Jantar.
Ela estava começando a se acostumar ao seu jeito de falar, dizendo apenas o essencial. O homem provavelmente queria perguntar se ela queria jantar com ele, caso tivesse tempo. Não havia motivo para recusar.
— Tudo bem. Onde?
Mas Alessandro não respondeu, em vez disso, saiu da galeria. Ela não sabia sobre mais nada, mas os modos dele em encontros eram realmente os piores. River o xingou mentalmente e seguiu.
O motorista que aguardava do lado de fora abriu a porta e disse:
— Vou levá-los ao local reservado.
‘Interessante. Ele até fez uma reserva.’
Ele devia ter achado que o convite para o jantar jamais seria recusado. Quem ousaria rejeitar Alessandro?
Sentar ao lado de Alessandro no banco de trás do sedã era estranho. Mesmo mantendo uma distância razoável, uma tensão estranha parecia apertá-la.
Algo semelhante parecia ter acontecido há muito tempo.
Música tocava no carro a caminho do restaurante. A balada de Chopin parecia aliviar um pouco a atmosfera constrangedora. Alessandro continuava em silêncio.
Ele era excessivamente taciturno. Não era difícil de entender. Um homem que, no futuro, engoliria o sul da Itália, ou até uma área maior, não precisava falar. Bastava um olhar e um aceno em concordância ou negação.
Nesse aspecto, ele era completamente oposto à infância. O Alessandro de sua memória era digno, mas brincalhão, e às vezes até fazia piadas. Costumava ensinar a River os nomes de flores e árvores que ela não conhecia… O que mais havia mudado enquanto o garoto crescia e se tornava um homem?
River suprimiu à força o sentimento de se deixar tingir pela nostalgia. Ela tinha uma missão e precisava permanecer sempre fria. Emoções eram desnecessárias. Memórias, compaixão e coisas do tipo também.
Você não foi o único que mudou, Alessandro. Eu também mudei.
O jantar terminou sem grandes incidentes ou informações relevantes. A única coisa realmente boa foi que a granita da sobremesa estava deliciosa.
Ela pensou que talvez depois do jantar eles finalmente iriam para o hotel, mas desta vez também, as expectativas de River estavam espetacularmente erradas.
— Chegamos.
Se fosse ser exigente, de fato haviam chegado a um hotel. O Hotel Fortuna, onde Lily Gray estava hospedada.
— …Eu me diverti hoje.
Alessandro assentiu levemente. Quem abriu a porta do carro para River foi o motorista, não ele. Parecia que o dia tinha sido um fracasso. Justo quando River saiu do carro com passos pesados—
— Só um momento, senhorita Gray. Por favor, aceite isto.
— Sim?
O motorista entregou uma pequena caixa do porta-luvas do banco do passageiro. Quando ela abriu a caixa preta sem decorações, um celular novo apareceu. River sabia muito bem o que isso significava.
Era uma variável inesperada. Ela ainda nem tinha dormido com Alessandro, e já estava recebendo um celular novo.
— Este é um presente do Sottocapo.
River examinou o celular superficialmente. Não havia números cadastrados na lista de contatos. Ela teria de verificar com mais atenção ao voltar para o quarto, mas não parecia haver aplicativos suspeitos de vigilância ou algo do tipo.
— A partir de agora, entraremos em contato com você por este número. Apenas algumas poucas pessoas conhecem o número da senhorita Gray, então, mesmo que receba uma ligação de um número desconhecido, basta atender.
As palavras do motorista deram certeza a River, que ainda tinha dúvidas.
Agora Lily Gray tinha, sem dúvida, se tornado a parceira de Alessandro.
Era um resultado melhor do que o esperado.
Em apenas dois dias, ela havia dado o primeiro passo, agora, só restava extrair informações de Alessandro dentro do período restante. Seria ótimo se conseguisse concluir tudo nas duas semanas em que ficaria em Milão antes da reunião executiva.
Enquanto estava absorta em pensamentos sobre como reportar a Nate, o vidro do banco traseiro do sedã desceu.
— Lily.
Era a primeira vez que ele a chamava pelo nome. O rosto de Alessandro estava visível pela janela do carro. River se aproximou da janela aberta como se estivesse possuída. Ela apenas… sentia que precisava fazer isso.
Alessandro fitou River em silêncio por um tempo. River também permaneceu imóvel, prendendo a respiração, sentindo o fluxo dos segundos sobre a pele.
O homem estendeu o braço para fora da janela e puxou levemente a mão de River. Ela pensou que ele fosse beijá-la, mas o que recebeu foi uma despedida mais elegante.
Parecia que os belos cabelos loiros dele se inclinavam sobre o dorso de sua mão e, em seguida, lábios quentes a tocaram levemente antes de se afastarem.
— Espere. Eu entrarei em contato em breve.
Com isso, a conversa terminou.
Alessandro, que havia soltado a mão de River, fechou a janela novamente. Deixando apenas River, que estava mexendo no celular prateado, o sedã preto desapareceu na estrada que escurecia.
🌸🌸🌸
— …Ela conseguiu receber o celular. Não sabemos o que vai acontecer a seguir, mas pode-se dizer que ela conseguiu dar um passo adiante.
Quando Nate terminou o relatório, o olhar dos membros da equipe mudou sutilmente. Em meio a vários pares de olhos que começaram a nutrir esperança de que as coisas correriam bem, Francesco soltou um suspiro de alívio.
— Que alívio. Fiquei nervoso porque as coisas estavam saindo diferente do esperado.
— O resto depende de Lily Gray. Vamos esperar para ver o que acontece. Então, nos reuniremos novamente amanhã.
Mac Armstrong, que havia sido liberado por um momento de seu papel de vigia, espreguiçou-se. Foi o primeiro a sair da sala de reuniões assim que a ordem de dispensa foi dada. Ele parecia inquieto se não pudesse ver as imagens das câmeras de segurança dentro do seu campo de visão.
— Tenham uma boa noite, todos.
Sofia, que seguia rigidamente o horário de trabalho, foi a próxima a desaparecer.
Enquanto o restante do pessoal se levantava um a um, Jonathan segurou Nate, que organizava seus arquivos apressadamente.
— Miller, você fica.
Oliver saiu por último com uma leve saudação militar, e apenas Jonathan e Nate permaneceram na sala de reuniões. O que estava acontecendo? Nate aguardou que seu superior falasse.
— A Winstead está se saindo muito bem, não é?
Após uma breve espera, o comentário de Jonathan foi inesperado. Nate jamais teria imaginado ouvir elogios a River saindo da boca dele.
— Ela sempre foi excelente em notas e desempenho no trabalho. Era a melhor, e dedicada.
— Teria sido muito mais bem-sucedida se não tivesse colocado seis balas naquele viciado em drogas.
Ao contrário de suas palavras supostamente lamentáveis, não havia qualquer sinal disso na expressão ou no tom de Jonathan. Em um sentimento mais cru, soava até como escárnio.
Na verdade, ele tinha um desagrado especial com River há muito tempo, por algum motivo. Provavelmente teve uma influência considerável em sua suspensão.
— Mas você também… bem, eu passei a te ver de outra forma.
Jonathan sorriu e deu um tapinha nas costas de Nate. O sorriso levemente curvado parecia mais sinistro do que amigável.
— O que você quer dizer?
— Você colocou a mulher por quem tem sentimentos numa bandeja de prata e a ofereceu a Alessandro Ranieri. Não deve ter sido fácil fazer isso.
— …
— Não é mesmo, Miller? Eu não teria ousado fazer isso.
(Elisa: em outras palavras, trouxa.)
Continua…
Tradução: Elisa Erzet