Solstício (novel) - Capítulo 09
Ela respirou fundo e avançou. Cada passo ecoou pelo salão conforme seus saltos estalavam contra os pisos de mármore.
O interior era branco e amplo. Lembrou-lhe a arquitetura de Le Corbusier que havia visto em uma aula de artes liberais. A luz do fim da tarde que penetrava pelas janelas de vidro tingia o lobby com um tom acolhedor.
Como esperado, a galeria estava inteiramente alugada. A única pessoa que River encontrou foi uma funcionária em pé na recepção. A funcionária, ereta como as obras de arte que compunham esta galeria, cumprimentou-a.
— Senhorita Gray?
Novamente, inglês. Alessandro certamente os havia instruído. Já não era uma suspeita, mas uma certeza.
— Seu acompanhante está aguardando dentro do salão de exposições.
River assentiu levemente e seguiu conforme indicado.
Ao atravessar a entrada em arco, o primeiro salão de exposições estava repleto de diversas pinturas e esculturas. Era um espaço maravilhoso, do tipo que ela teria apreciado se não estivesse em uma missão. O homem que deveria estar aguardando ali não estava à vista.
Diminuindo deliberadamente o passo, River seguiu com calma para o segundo salão. Não queria passar a impressão de uma mulher ansiosa para encontrá-lo. Não era necessário assumir sutilmente o controle do relacionamento?
Claro, havia outro motivo. Ela queria adiar o máximo possível o momento de encarar Alessandro. A lembrança do dia anterior, na sala privada, ainda estava muito vívida
Era uma sensação que nunca mais queria sentir. Encontrar uma onça selvagem durante uma caminhada teria sido menos assustador. Seu corpo paralisou de terror cru, que uma fera poderia infligir.
Mas River Winstead não era uma presa, e sim uma agente do FBI. Se necessário, ela tinha que ser capaz de atacar Alessandro primeiro e, se possível, subjugá-lo. Como se para lembrá-la disso, a figura do homem finalmente surgiu à vista assim que ela virou uma esquina.
Suas costas, diante de uma pintura enorme, exalavam um peso imponente. Embora a tela tivesse facilmente mais de quinhentas dimensões, Alessandro não parecia pequeno; ao contrário, irradiava uma presença inegável.
Ele nem sequer olhou para a convidada. Deve ter ouvido claramente a chegada de Lily com o estalo de seus saltos, mas só lançou um olhar por cima do ombro depois que ela parou bem ao seu lado.
Seus olhos se encontraram. Ela quis sorrir naturalmente, mas apenas um canto da boca se ergueu de leve, devido à tensão. Os dedos que seguravam a clutch estavam firmemente cerrados.
‘Controle-se, River Winstead.’
Alessandro vestia um terno novamente naquele dia.
Diferente de ontem, ele estava até usando um colete, o que foi inesperado. Se quisesse ser formal, o local da festa teria sido mais apropriado, então aquele encontro devia ser um encontro de verdade.
Mas ele sequer ofereceu uma saudação leve e desviou o olhar. Em seguida, moveu suas longas pernas e parou diante de outra pintura.
Ela não esperava uma cortesia amigável, mas esta reação era inesperada. No entanto, sua missão era se tornar parceira deste homem indecifrável e extrair informações. River escolheu segui-lo em silêncio.
— ….
Apenas o som de seus passos ecoava na sala de exposições. Era tão silencioso que era perfeito para apreciar arte. Era bom, mas… conforme ele se movia para a terceira e quarta pinturas sem uma palavra, ela começou a se sentir perdida. Ela não voou até a Itália para apreciar arte em silêncio.
Quando Alessandro voltou o olhar para a quinta pintura, River finalmente decidiu falar primeiro. Isso também era uma aposta, de certa forma.
Por algum motivo, ela sentiu que mesmo se abrisse a boca sem sua permissão, ele não a rejeitaria. A intuição não deve ser cegamente confiada, mas desta vez parecia diferente.
— Você tem um artista favorito?
Claro, ela não havia antecipado que a resposta seria assim.
— Você tem?
— Waterhouse. John William Waterhouse. Ophelia, ou A dama de Shalott… Ah, também gosto de Dante Gabriel Rossetti.
— Então você gosta dos ¹pré-rafaelitas.
— Se classificar pelo movimento artístico, pode-se ver assim, mas o que mais me atrai é a atmosfera única dessas obras.
A resposta saiu facilmente. Graças aos sentimentos sinceros de River, não ao gosto de Lily Gray. Foi significativo no sentido de que tiveram a primeira conversa de verdade, mas ainda não era suficiente.
River decidiu tentar fazê-lo falar de alguma forma. Não diziam que quem não chora não mama?
— Agora é a sua vez de responder.
Talvez ela já tivesse se adaptado um pouco, ou talvez sua mente estivesse entorpecida pela tensão, mas o olhar dele já não era tão opressor quanto no dia anterior.
— …Claude Monet, Joaquín Sorolla, Henri Harpignies.
À suas palavras, River suspirou de alívio internamente. Ela não conhecia Harpignies bem, mas conhecia Monet e Sorolla. Não seria difícil continuar a conversa.
— Ah, eu também gosto das obras de Joaquín Sorolla. Ele expressou perfeitamente a luz do sol e a felicidade com seu pincel. Se eu tivesse que escolher uma favorita, seria…
Ela respondeu apaixonadamente, mas internamente estava ansiosa. Será que estava falando demais sobre pinturas? Se Alessandro considerasse Lily uma curadora entediante, estaria tudo acabado. Mas ele não parecia entediado nem divertido. Apenas ouvia as palavras de River com o mesmo olhar lânguido de antes.
Infelizmente, quando terminaram quase toda a visita ao último salão de exposições, a única informação que River havia obtido era o gosto artístico de Alessandro. Não era para isso que ela tinha vindo. A impaciência começou a crescer.
Quando chegou à última obra, Doubting Thomas, ela jogou seu trunfo. Tudo o que restava era um confronto direto.
— Alessandro.
Foi a primeira vez que ela o chamou pelo nome.
— Por que você me trouxe aqui? — O homem, que apreciava a pintura em silêncio, voltou seu olhar azul penetrante para ela. — Não pode ser simplesmente porque precisava de alguém para apreciar pinturas com você.
— Precisa haver um motivo?
Sim, River precisava desesperadamente de um motivo. O motivo pelo qual ele ainda não a havia levado para a cama.
— …Porque eu não sei o que você pretende fazer comigo.
Não era uma pergunta que uma jovem inocente faria, mas era melhor ser uma femme fatale do que agir como uma garota do interior. Uma isca precisava agir como isca. Ele olhou para River com interesse e perguntou:
— O quê, está ansiosa porque não consegue encontrar outro propósito em mim?
Agora River ficou em silêncio. Porque às vezes o silêncio é a afirmação mais forte.
Então Alessandro subitamente agarrou o pulso de River. Ele se aproximou passo a passo como um predador diante de sua presa. O salto de River, que recuara inconscientemente, eventualmente atingiu a parede.
Prendendo-a entre seus braços fortes, o homem abriu a boca.
— Por exemplo…
Ela sentiu um toque ousado em suas nádegas. Não era doloroso, mas o aperto era bastante firme. A mão grande massageou a carne uma ou duas vezes, depois subiu, acariciando seus quadris e cintura.
Era uma situação onde ela não poderia resistir de qualquer forma, e nem deveria. Mas River nem conseguiu soltar um pequeno suspiro. Porque seus lábios, que tremiam de tensão, foram instantaneamente bloqueados… pelos dele.
— Hng…
Ele separou lentamente seus lábios fechados com a ponta da língua e entrou. Conforme River abriu a boca naturalmente, Alessandro envolveu a língua da mulher, que recuava em vez de recebê-lo, e a entrelaçou com a sua.
Não era um beijo rude nem violento. Pelo contrário, foi um beijo limpo e quase educado, sem apegos excessivos.
Alessandro envolveu firmemente a cintura de River com o braço. Ela sentiu as pontas dos dedos pressionando suavemente suas costas e cintura, como se não quisesse deixá-la escapar. Aquela sensação pequena e aparentemente insignificante acendeu um fogo.
Como se estivesse acostumado àquilo, ele puxou o braço de River com a outra mão. Seu braço, que estava tenso e perdido, acabou envolvendo naturalmente o pescoço dele. A clutch que ela segurava escapou de sua mão, mas não houve tempo para pegá-la.
— Hmm, ugh…
Ela estava sufocando. Sabia como subjugar um suspeito com uma faca, mas não sabia como respirar enquanto beijava. Tudo o que podia fazer era bater desesperadamente em seu ombro.
Felizmente, ele entendeu o sinal e abriu um espaço para que ela respirasse. Mas foi apenas por um momento. Assim que River respirou uma única vez, seus lábios se encontraram novamente. Quanto mais suas línguas se entrelaçavam, mais suas pernas tremiam.
Enquanto isso, o homem acariciava o peito de River sobre a seda macia. Usava a palma inteira da mão para envolver seus seios fartos e estimulá-los com movimentos lentos e circulares. Também os erguia levemente por baixo. Mesmo que o forro tivesse enchimentos, a sensação de seu toque provocante roçando seus mamilos era excessivamente vívida.
Era claramente apenas um beijo, mas…
Por que ela sentia como se estivesse sendo violada por ele?
Pensou estar preparada o suficiente, mas não estava. Os estímulos desconhecidos — fossem beijos ou carícias — vieram todos de uma vez, fazendo-a sentir que estava enlouquecendo. Seus dedos dos pés nos sapatos e o interior de sua vagina contraía sem parar.
Justo quando lágrimas lentamente brotavam em seus olhos, o beijo que parecia nunca terminar cessou. O rosto de Alessandro surgiu na visão de River, enquanto ela ofegava por ar.
— É isso que você quer dizer?
A primeira coisa que notou foi sua testa bonita e olhos afiados. O olhar frio parecia fixo no objeto à sua frente.
Cílios delicados projetando longas sombras, e batom vermelho borrado em seus lábios abaixo de seu nariz elegante.
— …Sim.
River baixou o olhar, sentindo que poderia ser cegada por aquela visão terrivelmente erótica.
Alessandro era um homem que sabia se conter. Ele soltou o peito e a cintura que vinha desfrutando e apanhou a clutch, entregou a River.
— Não se preocupe. Não é que eu não tenha… outros propósitos.
(NOTA: Pré-Rafaelismo refere-se ao movimento artístico surgido na Inglaterra no século XIX que defendia o retorno à arte anterior a Rafael, valorizando detalhismo, cores intensas, fidelidade à natureza e forte expressão emocional, com temas medievais, literários e religiosos. Acreditavam que a arte havia se tornado rígida e artificial. Não só influenciaram a pintura como também a literatura e o designer. (Artistas mais conhecidos: Dante Gabriel Rossetti, John Everett Millais e William Holman Hunt.)
Continua…
Tradução: Elisa Erzet