Solstício (novel) - Capítulo 08
— Então, não aconteceu nada entre vocês dois, certo?
— Quantas vezes vou ter que dizer para você entender?
River finalmente explodiu com o questionamento repetido de Federico. Por mais que ela explicasse em detalhes o que aconteceu na sala privada, ele parecia não acreditar.
Na verdade, para ela também era difícil de acreditar. Quem imaginaria que ela não teria nem mesmo um beijo rápido, muito menos sexo? River ficou remoendo as informações que havia decorado na sede.
Alessandro geralmente ia direto para um hotel com uma mulher que lhe apresentavam, caso gostasse dela. Se uma mulher que passava a noite com ele recebesse um celular novo de um de seus subordinados, isso era sinal de que ela havia se tornado sua parceira.
Mas tudo o que ela tinha em mãos era o cartão de visita do motorista. Isso podia mesmo ser chamado de sucesso? Seus sentimentos eram complicados.
— Eu estava escutando do lado de fora, mas não saiu um pio. Achei estranho.
— Você estava escutando de novo?
— Olha, Dolce. É meu trabalho garantir que tudo esteja correndo bem.
Ele não estava errado, mas vindo da boca desse cara, soava apenas como uma desculpa de um espião pervertido.
Assim que chegaram ao destino, River rapidamente desatou o cinto de segurança. Ela estava planejando subir para seu quarto antes que Federico pudesse usar a desculpa de acompanhá-la para apalpar sua cintura novamente.
Como esperado, Federico assobiou para chamar River. Ela ia fingir que não ouviu, mas acabou se virando. Nunca se sabe onde olhos poderiam estar escondidos.
— Tio, você não vai para casa? Está tarde.
— Tem certeza de que vai ficar bem subindo sozinha? Se precisar de alguém para fazer uma reunião estratégica à noite…
Ela não precisava ouvir mais nada. Assim que essa missão acabasse, ela protestaria formalmente contra as besteiras de Federico.
— Boa noite, Tio. Se você me seguir, vou arrebentar suas bolas.
O último aviso foi sussurrado em italiano, então ele certamente entendeu muito bem.
O quarto 817 do Hotel Fortuna era uma suíte de canto no último andar. Era chamada de suíte, mas o hotel era antigo, então havia muitos pontos desgastados aqui e ali, ainda assim, o pequeno número de hóspedes o tornava um lugar ideal para ser usado como residência temporária.
Assim que entrou no quarto, River jogou os saltos altos de qualquer jeito. Não poderia ter ficado mais feliz ao ver os chinelos descartáveis de sola fina. Ela queria lavar primeiro a maquiagem pesada, mas havia algo que precisava fazer antes.
River pegou o celular que havia recebido da sede e ligou para a pessoa que a esperava. O nome salvo era de uma mulher, mas quem atendeu foi um homem com uma voz familiar.
[Estive esperando, River.]
Nate deveria receber o relatório de trabalho de River. Era apenas o primeiro dia dela na missão, mas soava estranho ouvir seu nome verdadeiro.
— Desculpa, Federico pegou um caminho errado no trajeto…
[Tudo bem. E ele? Você o encontrou?]
— Consegui encontrar o alvo. Ele não falou muito, então não tivemos muita conversa.
[Sobre o que conversaram?]
— Nada especial. Ele perguntou coisas como meu nome e idade… e por quanto tempo eu ficaria na Itália. E eu recebi o cartão de visita do motorista. Ele disse para entrar em contato se eu estivesse pronta amanhã às 16h30, e que viria me buscar.
[Você soube para onde vão?]
— Não, ainda não. Mas provavelmente será dentro do que eu esperava.
Um hotel, um cruzeiro ou, na pior das hipóteses, o carro dele. Ela não queria fazer isso onde o motorista pudesse ouvir. Não sabia como eram as paredes de Alessandro, mas esperava que ele não tivesse o hobby de se esfregar na frente dos outros.
Nate ficou em silêncio por um momento. O fato de ele, que vinha disparando perguntas sem parar, ter fechado a boca podia significar que estava decepcionado por não haver muito a aproveitar. Era ambíguo dizer que a culpa era de River, mas ela sentiu que precisava dar algum tipo de explicação.
— Desculpe por não ter nada a relatar. Se eu encontrá-lo amanhã, tentarei—
[Houve mais alguma coisa que você não me contou?]
— Hã?
[Exatamente como eu disse. Se houver algo que você não relatou, diga honestamente. Ou eu vou te conectar com a Sofia…]
Só depois que o nome de Sophia surgiu é que River entendeu o significado oculto nas palavras de Nate. Ele estava perguntando se ela tinha feito sexo com Alessandro. Mas ela estava perplexa. Mesmo se tivesse realmente transado com ele, não havia motivo para não relatar isso.
— Eu sou uma agente, Nate. Mesmo que eu tenha sido suspensa, não sou uma amadora.
Uma rachadura sutil se espalhou pelo orgulho que ela havia construído como agente. Por mais merda que fosse essa missão, considerando as conquistas de River antes da suspensão, era uma palavra que não podia ser dita levianamente.
— Não sei por que você está dizendo isso, mas o que aconteceu hoje foi realmente só isso. Nem ficamos juntos por muito tempo, para começo de conversa.
O silêncio do outro lado da linha ficou mais longo. Sentindo-se ansiosa sem motivo, River trocou o telefone para a outra orelha e enfatizou novamente.
— Eu sei o quanto essa missão é importante. Vou relatar tudo o que acontecer entre Alessandro e eu, sem deixar nada de fora, então eu agradeceria se você simplesmente ouvisse exatamente como é.
[…Desculpa.]
Na verdade, ela podia imaginar por que ele disse isso. Ele devia estar preocupado. Devia ter passado o dia todo preocupado. Nate gostava muito de River, realmente muito…
Não havia necessidade de adicionar outra pedra desnecessária a um coração que não conseguia aceitar isso. River tirou as meias-calças e mudou deliberadamente de assunto.
— Aconteceu alguma coisa na sede?
[Está chato sem você. A Sofia diz que sente sua falta também. A propósito, e o Federico? Como ele é depois de conhecê-lo?]
— Ele é terrível. É grosseiro, não consegue ficar um segundo sem falar, e…
Ela engoliu as palavras sobre como ele havia apalpado sua pele exposta e a assediado.
Um pouco porque seu orgulho tinha sido ferido. E também porque não queria preocupar Nate.
[Ele pode parecer assim, mas é uma pessoa competente. Vai te ajudar muito de várias formas, então é bom que vocês dois se aproximem.]
Era a resposta que ela esperava. Nate sempre tentava ver o lado bom das pessoas. River não gostava disso, mas escolheu uma resposta adequada.
— …Vou tentar.
River terminou a ligação com algumas reclamações sobre Federico e algumas piadas bobas.
Ela olhou para o relógio de parede e viu que já era quase uma hora da manhã. Ela encontraria Alessandro amanhã à tarde, então conseguiria dormir bem.
— Haa…
De qualquer forma, ele não era uma pessoa muito agradável de se estar junto.
River deitou no colchão de calcinha e sutiã e fechou os olhos. A imagem dele na sala privada surgiu de forma vívida na escuridão. Finalmente, conseguiu reconstruir as partes do homem que não havia conseguido ver nas fotos.
Diferente do garoto magricelo da infância, ele agora era bastante robusto. Ele já era alto naquela época, mas nunca imaginou que ficaria tão alto assim. Agora, teria que levantar bem a cabeça para encontrar seu olhar.
A mão que agarrou seu queixo era muito grande e os nós dos dedos eram bastante grossos. Federico e os outros membros da organização tinham pequenas tatuagens cada um, mas ela não conseguiu encontrar sequer uma letra comum no corpo de Alessandro.
Ele mudou muito.
Mas mesmo nessa estranheza, ela conseguia sentir um fragmento que não era desconhecido. Por quê? Por que não era difícil identificar os vestígios do passado, mesmo naquela atmosfera fria e nos olhos lânguidos?
Parecia que ela voltaria àquele tempo ao acordar. Nos dias em que podiam se chamar de amigos… No momento em que esse pensamento cruzou sua mente, River bateu com força na própria bochecha. Sua bochecha queimou com uma sensação que ela não sabia se era vergonha ou dor.
Ela quase se perdeu em um sentimentalismo inútil. Agora não era hora disso, mas de se concentrar em planejar o próximo passo. Para ser direta, ela ainda nem era sua parceira oficial.
Estava tão cansada que queria dormir imediatamente, mas River exerceu uma paciência sobre-humana e se levantou. Foi ao banheiro, colocou pasta na escova de dentes e tirou os brincos. Sentia como se os lóbulos de suas orelhas fossem cair de tanto usar brincos pesados de cristal o dia inteiro, mas agora se sentia um pouco melhor.
Enquanto removia a maquiagem com lenços de limpeza, River foi traçando lentamente os planos para o dia seguinte.
🌸🌸🌸
Em frente à entrada principal do Hotel Fortuna, River esperava pelo motorista que deveria buscá-la. Faltavam dois minutos para o horário combinado.
O vestido cor de vinho que ela usava naquele dia era um pouco mais comprido do que o do dia anterior, mas ainda assim curto. Era uma das roupas que havia recebido da sede. Quem diabos havia escolhido aquelas roupas precárias, quase como trapos? Jonathan? Ou talvez Sofia?
Ela esperava que Nate não tivesse participado da escolha quando um elegante sedã preto se aproximou de River do outro lado. Eram exatamente 16h30.
Um esplendor que não combinava com o exterior decadente do Hotel Fortuna. River percebeu intuitivamente que era o carro enviado por Alessandro.
O motorista que havia lhe dado o cartão de visita no dia anterior abriu a porta traseira. Se perguntou se Alessandro estaria lá dentro, mas não havia ninguém.
— Por favor, entre, senhorita.
O motorista falou em inglês fluente novamente, assim como no dia anterior. Isso também teria sido instrução prévia de Alessandro? Para River, era algo positivo. Ela não queria dar a impressão de que era fluente em italiano. Também seria mais fácil escutar informações vazadas por outros membros da organização que baixassem a guarda diante dela.
O carro era espaçoso, limpo e tinha um aroma refrescante. Era um contraste gritante com o SUV sujo de Federico. River, que por um momento admirava o céu nebuloso pela janela, perguntou naturalmente:
— Para onde estamos indo?
— O Sottocapo pediu que eu a levasse à Galleria Fiore.
— Uma galeria de arte?
— É um lugar que ele visita frequentemente. Não é longe daqui, então chegaremos em breve.
‘Uma galeria, não um hotel. Ele não deveria levar as mulheres direto para a cama?’
Como pouco se sabia sobre suas antigas parceiras, a maior parte das informações sobre mulheres vinha do que Federico havia fornecido. Ele teria passado informações erradas, ou o gosto de Alessandro havia mudado nesse meio-tempo? Se tivesse que apostar, ela diria que era o primeiro…
Mas estava tudo bem. Fosse um hotel ou uma galeria, não importava, desde que as coisas seguissem como River queria.
O carro que levava River parou em frente a um edifício branco e austero com uma estrutura um tanto experimental. Era bastante grande, mas não havia mais ninguém à vista. O saguão além das portas automáticas estava igualmente vazio.
O motorista acompanhou River até a entrada, mas não parecia ter a intenção de segui-la para dentro. Ele se curvou educadamente e disse:
— Estarei esperando do lado de fora. Sottocapo ordenou que ninguém fosse autorizado a entrar.
‘Ninguém é autorizado a entrar.’ Isso significava que ele e River seriam os únicos naquele prédio.
Continua…
Tradução: Elisa Erzet