Solstício (novel) - Capítulo 07
No momento em que Alessandro virou as costas, depois de prender o olhar dela por tanto tempo, o coração de River afundou. Ela tinha falhado? Logo quando uma ponta de ansiedade começou a brotar, Federico, que estava encostado no corrimão do segundo andar, fez um gesto.
— Venha aqui, Lily.
Os membros que restringiam o acesso ao segundo andar abriram caminho prontamente para River. Enquanto ela subia as escadas, Federico a recebeu com passos leves. A julgar por sua expressão triunfante, ela pelo menos tinha conseguido chamar atenção. Ele sussurrou:
— Considere-se sortuda. É a primeira vez que ele escolhe uma mulher tão rápido. Ele parecia mau humorado até agora há pouco, mas não sei que mudança repentina foi essa—
— Por favor, estou implorando, cala a boca a menos que seja algo necessário.
Ainda assim, River não pôde deixar de concordar que tinha tido sorte. Apenas apelar para a existência dele já teria sido suficiente para fazê-la dançar no centro do salão, mas ser escolhida era outra história.
A sala privada em que entrou seguindo Federico se transformou num espaço severamente isolado do exterior no instante em que a porta se fechou. Seja lá quanto esforço tivessem colocado no isolamento acústico, não se ouvia música nem barulho algum.
Janelas com cortinas, iluminação suave. Todo tipo de bebida estava exposta no armário instalado ao longo de uma parede. Era grande demais para ser um espaço para apenas uma pessoa.
— Sottocapo, eu a trouxe.
Além da mesa baixa, Alessandro podia ser visto sentado no sofá.
Ele vestia uma camisa branca, tendo tirado o terno em algum momento. Seus braços, com as mangas arregaçadas, estavam limpos, sem uma única tatuagem, mas isso só o tornava mais ameaçador. As veias proeminentes ao longo dos músculos chamavam atenção.
Seus olhos se encontraram novamente. Alessandro apenas moveu os olhos para indicar o assento ao seu lado sem dizer nada. Devia querer que ela se sentasse. River cuidadosamente tomou o lugar com cuidado.
Federico, que se instalou no lado oposto, começou a tagarelar sobre coisas que ninguém havia perguntado. Talvez consciente de Lily, que era ‘dos Estados Unidos’, ele começou a falar em inglês.
— Deixe-me apresentá-la formalmente. Lily Gray, ela é minha sobrinha. Fez vinte e seis anos este ano… acho que se formou em arte na universidade?
— História da arte.
— Ah, isso mesmo. Até pouco tempo, trabalhava como curadora, mas disse que queria fazer uma pausa até o fim do ano, então eu a chamei para cá. Não dá para deixar Milão de fora quando se trata de arte. Há muita coisa para ver, não é?
Apesar do pedido para que calasse a boca, Federico tagarelava diligentemente. River, sempre ansiosa de que ele não ofendesse Alessandro, lançava olhares furtivos ao homem de tempos em tempos, mas, infelizmente, parecia improvável que a boca dele se abrisse.
— …Ela também fala italiano muito bem, não apenas inglês. Lily, mostre suas habilidades.
Como diabos esse cara sobreviveu na Família Ranieri? Se River estivesse na posição do Sottocapo, Federico já teria afundado no Mediterrâneo.
Mas River sorriu recatadamente e respondeu em italiano. Claro, não se esqueceu de gaguejar um pouco na pronúncia de propósito.
— Não sou tão fluente, tio. Não quero que haja mal-entendidos.
— Sempre tão modesta. Enfim, ela planeja ficar na Itália até o fim do ano, passeando e conhecendo pessoas…
Isso estava enlouquecendo-a. O que ela deveria fazer se ele despejasse tudo o que ela tinha a fazer e continuasse a falar sem parar?
Mas, a menos que Alessandro ordenasse que ele calasse a boca, Federico detinha as rédeas do ambiente. E, como o tampo da mesa era de vidro transparente, ela nem podia pisar no pé dele para pedir que parasse.
— Todos para fora.
Sim, era isso que ela queria ouvir. River quase assentiu inconscientemente.
‘Espere, agora há pouco…’
A ordem de Alessandro foi o tiro de largada para que a boca de Federico se fechasse.
Seja por obediência imediata estar incutida neles, todos os membros estavam apressadamente juntando suas coisas e saindo. O semblante de River empalideceu. No fim, ela só conseguiu ver aquilo como aquele maldito sujeito estragando tudo.
‘Eu disse para você calar a boca!’
River lançou um olhar ressentido a Federico, mas ele não conseguia levantar a cabeça, como se também achasse que fora um desastre. O olhar resignado de River se voltou para Alessandro. Não foi algo consciente. Foi por um impulso estranho de querer ver o rosto dele uma última vez antes de sair.
Por alguma razão, um par de olhos azuis penetrantes também a encarava. O corpo de River congelou sob o olhar frio do homem. Sem desviar os olhos, como se a observasse, ele acrescentou:
— Exceto esta mulher.
Minha nossa.
Só depois que o último membro deixou a sala e fechou a porta o silêncio retornou.
Alessandro se levantou do sofá. O assento do sofá, que havia ficado profundamente marcado pelo peso do homem enorme, lentamente voltou ao normal.
Ele foi até o minibar, alinhado de garrafas, e serviu uísque num copo. O líquido dourado e rico cobriu finamente o fundo do copo. River o observava sem baixar a guarda.
Enquanto se perguntava se seria adequado falar primeiro, Alessandro deu um gole no uísque e se apoiou no balcão.
Com a atitude despreocupada característica de um governante.
Justo quando River estava prestes a mover os lábios, achando que precisava fazer algo, uma voz baixa chegou aos seus ouvidos.
— Nome.
Ele falou em inglês, não em italiano.
— …Lily Gray.
— Idade?
— Vinte e seis.
Parecia que o conteúdo que Federico havia entusiasticamente despejado não tinha entrado direito em sua cabeça. Não, talvez fosse melhor que não tivesse.
— Quanto tempo vai ficar na Itália?
— Cerca de três meses…
E a conversa terminou. Quando as perguntas de Alessandro pararam, River não teve escolha a não ser permanecer em silêncio.
O uísque encheu o copo mais uma vez. Mas Alessandro não bebeu logo, apenas o agitou levemente na mão. Como se estivesse tentando medir River colocando-a na palma de sua mão.
‘Esse homem definitivamente sabe como controlar as pessoas.’
Havia apenas uma coisa que River podia fazer. Não evitar o olhar de Alessandro. Mas os olhos sem emoção grudaram nela e não a soltavam.
De repente, ele colocou o copo de lado e se aproximou de River, que estava sentada no sofá, em um instante. Seu corpo alto, perto de 1,90m, lançou uma sombra sobre ela.
Como se admirasse uma obra de arte, ele se inclinou e ficou na altura de seus olhos.
— …Como o nome sugere.
Era como se ela estivesse completamente capturada por ele, como um espécime de borboleta preso e fixado no lugar. A respiração, o olhar e as ações do homem vinham como uma pressão aterradora.
Por fim, a mão de Alessandro tocou o queixo de River.
Diferente do aroma frio, as pontas dos dedos que tocaram sua pele estavam inesperadamente quentes. Era difícil dizer se a temperatura corporal do outro era alta ou se o corpo dela estava frio.
A mão que acariciava suavemente sua linha do maxilar desceu. A mão que segurou levemente o pescoço de River permaneceu brevemente em sua clavícula, e então cruzou a curva de seu corpo em direção ao ombro.
A mão forte estava inesperadamente quente.
Ela já tinha imaginado algo assim, já que ele não tinha um porte mediano, mas a mão de Alessandro, sentida diretamente sobre seu corpo, era maior que a média. Nate também era bastante grande, mas talvez ele fosse ainda maior.
A mão do homem foi de seu braço até sua cintura. Um toque leve e ao mesmo tempo pesado, traçando sua silhueta e a acariciando. O movimento era como um alfaiate avaliando a textura e elasticidade do tecido a ser cortado, ou como um artista preenchendo uma tela com as mãos em vez de um pincel.
O último lugar onde sua mão parou foi acima de sua coxa. O polegar de Alessandro pressionou o interior da barra do vestido vermelho. Seu olhar nunca desviou ou caiu enquanto suas pontas dos dedos desciam até ali
River engoliu seco. Sua boca estava seca com uma tensão que nunca sentira na vida. Não havia desejo nos olhos azuis dele, mas ela se sentia sufocada, como se a barra do vestido pudesse ser levantada a qualquer momento.
O rosto de Alessandro se aproximou. Mesmo quando chegou a esse ponto, ela não conseguia evitar aqueles olhos, aquele olhar persistente. Quando a distância diminuiu o suficiente para que ela sentisse sua respiração, River mordeu com força o lábio inferior.
‘Não quero beijar esse homem. Também não quero transar com ele…’
E, como se fosse mentira, todos os olhares, todo o calor corporal.
Alessandro se afastou.
O homem que parecia prestes a deitá-la no sofá e tomá-la a qualquer momento retirou o toque num piscar de olhos. E, como se nada tivesse acontecido, levantou-se e seguiu até o minibar.
Só depois de ver as costas de Alessandro River respirou aliviada em silêncio. Um tempo que não chegara a dez minutos pareceu dez anos.
Alessandro pegou o copo que havia colocado de lado novamente. O líquido marrom balançou antes de desaparecer em sua garganta. O homem esvaziou o copo com tranquilidade, então abaixou as mangas que havia arregaçado e vestiu o terno.
E,
— Até a próxima.
Ele saiu da sala privada, deixando apenas essa palavra para trás.
É isso? A missão foi um sucesso? Ou um fracasso?
Enquanto River estava pasma e considerando várias possibilidades, um membro de aparência bastante arrumada entrou de fora. O homem entregou um pedaço de papel do tamanho de sua mão.
— Senhorita Gray?
Papel preto, rígido. Era um cartão de visita. O nome e o número estavam carimbados em folha de prata no cartão que ela inadvertidamente recebeu. Não era do Alessandro.
— Aqui, por favor, fique com isto. É o meu cartão.
Quando ela o encarou com expressão confusa, veio uma explicação educada.
— Vou buscá-la de carro amanhã às 16h30. Marvich me disse que a senhorita está hospedada no Hotel Fortuna, então posso ir até lá, certo?
Foi repentino, mas River entendeu rapidamente.
“Até a próxima.”
Então isso era uma espécie de pedido de encontro, sem qualquer consideração pelas intenções da outra pessoa.
De fato, uma proposta típica de Alessandro.
Continua…
Tradução: Elisa Erzet