Solstício (novel) - Capítulo 06
— Nossa, você é ainda mais bonita pessoalmente, hein? Achei que as fotos fossem falsas.
Os olhos do homem percorreram River uma vez de cima a baixo. Ele, que havia assobiado baixinho, estendeu a mão para um aperto.
— Federico. Não preciso dizer meu nome completo, certo?
No dia da operação, Federico Marvich, que ela encontrou pessoalmente nos arredores de Milão, era difícil de acreditar que era um policial infiltrado pelo governo italiano. Não importava como se olhasse para ele, parecia um típico marginal. Pensando bem, ele estava sendo muito fiel ao papel.
River decidiu ser sociável e aceitou o aperto de mão. A sensação da palma da mão pegajosa dele era desagradável, mas ela suportou.
— Lily Gray. ‘Tio’.
Como o vestido curto logo acima do joelho, River ficou tensa desde o momento em que entrou no banco do passageiro, certificando que a barra não subisse. Federico, ao vê-la mexer nervosamente na barra do vestido, soltou uma risadinha.
— Não precisa se esforçar tanto para se cobrir. Mulheres devem se exibir um pouco para ficarem bonitas.
Ele precisava ser um canalha tanto por dentro quanto por fora? Ela não sabia se aquilo era atuação ou sua verdadeira natureza, mas uma coisa era certa: River não queria ficar com Federico nem por cinco minutos.
— Vamos falar de negócios.
Então Federico deu de ombros e tirou um pequeno caderno do bolso.
— Preste atenção. O local da festa tem dois andares no total, e a maioria dos convidados ficará no primeiro andar. Apenas dois tipos de pessoas podem subir para o segundo andar. Primeiro, membros importantes da organização. Segundo, mulheres bonitas e fáceis. Você entende o que quero dizer.
Ele apontou com uma caneta para um mapa do local desenhado de forma grosseira, explicando o plano, e então traçou uma seta longa.
— A estrutura tem o centro aberto, então dá para olhar o primeiro andar a partir do segundo. Alessandro provavelmente vai direto para a sala privada assim que chegar. Ele não parece gostar muito de dançar, Provavelmente se moverá por este caminho.
— Então… para chamar a atenção dele, eu deveria ficar por aqui, em vez da pista de dança.
River apontou para um ponto no primeiro andar com o dedo indicador, e Federico assentiu.
— Isso mesmo. Tem uma estátua nua de Vênus ali perto. Fique por aquela área. Assim eu apresentarei a Dolce ao Bambino naturalmente, como um riacho fluindo.
— Bambino? Dolce?
— Bambino é aquele cara, Dolce é você.
— Não ouvi nada sobre codinomes.
— Eu improvisei a caminho daqui. Não posso simplesmente dizer os nomes abertamente ao me comunicar com Spencer ou Miller.
‘Bambino e Dolce, o que é isso, algum tipo de nome de cachorro?’ Federico, vendo a expressão de River, ligou o carro e acrescentou.
— No contexto, é o nome dos cachorros que estou criando. Então, vamos?
Durante o trajeto, Federico alternou entre histórias entediantes e piadas vulgares. River, que nem tinha vontade de forçar um sorriso, substituiu todas as respostas por “Entendo” e “Tá”.
Ao chegarem ao destino, Federico saiu do carro primeiro. Quando River o seguiu, a mão do homem foi naturalmente para sua cintura, como se estivesse fazendo o favor de escoltá-la. O problema era que ela usava um vestido com um decote profundo nas costas.
Enquanto subiam de elevador a partir do saguão do hotel, a palma áspera dele acariciava de forma pegajosa a pele exposta de River.
‘Este filho da puta…’
Ele fazia isso sabendo que ela não podia se irritar nem afastar sua mão, porque chamar atenção arruinaria tudo. River sorriu abertamente e sussurrou:
— É certo fazer esse tipo de coisa pervertida com sua sobrinha?
— Se somos próximos, não é possível? Vou contar a todo mundo que, quando você era pequena, eu mesmo te dava banho, te vestia e até te alimentava—
— Para de falar merda. A menos que queira apanhar depois.
River conteve o impulso de socar o rosto de Federico. Pouco antes de o elevador chegar ao andar desejado, ele sussurrou com uma afeição desnecessária:
— Você só tem uma chance. Não esqueça disso.
O hálito quente grudando nela lhe causou arrepios. Assim que as portas do elevador se abriram, River saiu apressada na frente. Ao olhar para trás, Federico acenou de forma brincalhona com uma mão — a mesma que havia acariciado sua pele.
Essa mão tirou um convite e o entregou ao segurança. O guarda comparou o nome no convite com a lista de convidados, lançou um olhar para Federico, depois para River, e assentiu.
— Confirmado. Por favor, entreguem suas armas aqui antes de entrar.
A visão que os recebeu após passar pela entrada bastante rigorosa era o epítome de uma festa elegante.
Em um canto do salão, decorado com flores e tecidos, uma orquestra tocava música clássica. As pessoas dançavam ou conversavam com taças nas mãos, e garçons circulavam oferecendo petiscos.
Ela era a única mulher usando um vestido que ficava mais de um palmo acima do joelho. É, usar algo assim definitivamente a faria se destacar.
Membros da organização estavam posicionados por todo o local da festa. River automaticamente identificou suas localizações uma a uma. Um no bar, dois em cada escada que levava ao segundo andar, tanto acima quanto abaixo. Esses eram apenas os facilmente visíveis, então haveria muitos se contasse todos.
— Até depois, Lily.
Assim que entrou no local da festa, Federico desapareceu, dizendo que iria marcar o Bambino. Ela pegou uma taça de champanhe e começou a esperar perto da estátua de Vênus. Claro, não deu um único gole na bebida. Homens desconhecidos se aproximaram com simpatia forçada, mas as conversas nunca passavam de duas frases.
Quando o número de homens rejeitados por River chegou a cinco, o burburinho que dominava o ambiente diminuiu perceptivelmente.
A hora havia chegado. Ela percebeu com apenas uma pequena mudança na atmosfera. Não foi difícil encontrar Federico mesmo à distância. Só de olhar para sua boca, que não parava de tagarelar, ela franziu a testa por hábito. Era realmente impressionante que ele não tivesse sido detestado pelos membros da organização apesar daquele comportamento.
Logo, um homem excepcionalmente alto chamou sua atenção. Um rosto pálido, sem expressão, olhos frios e indiferentes. Ainda assim, cada gesto e cada passo dele eram suficientes para dominar o ambiente apenas com sua presença.
River encarou silenciosamente seu alvo. Se ele fosse uma presa, certamente seria uma besta grande e bela. Uma besta que a fazia querer puxar o gatilho mesmo que isso custasse sua vida.
Em um instante, o ponteiro dos segundos pareceu parar. Olhos azuis olhavam na direção dela.
O humor de Alessandro não estava nada bom naquela noite. Ele havia vindo a Milão a contragosto, apenas para ser pego de surpresa por uma ligação tardia de Damiano. Algo urgente havia surgido, e ele não conseguiria vir a Milão.
‘O Don não contaria uma mentira banal. Mas, se não fosse pelo pedido insistente para que mostrasse o rosto, nunca teria comparecido a esse tipo de festa.’
Ele fez uma pausa breve na grade do segundo andar e lentamente escaneou o andar de baixo. Reconheceu alguns rostos da lista que Paolo lhe dera, mas a maioria eram mulheres jovens que ele nunca tinha visto antes — e todas pareciam estar sozinhas.
Havia um motivo para a proporção de gênero ser tão desequilibrada. Era tudo uma manobra para arranjar uma mulher para Alessandro.
Esperavam conseguir uma parceira para o sucessor dos Ranieri — ou até uma esposa — que trouxesse influência. Se isso fosse difícil, ao menos queriam que ele tivesse um filho ilegítimo.
— Ah, e desta vez convidei minha sobrinha. Lily Gray. A filha que minha irmã teve com um americano.
Alessandro ouvia o falatório ao lado com um ouvido e deixava sair pelo outro. Federico Marvich. Um homem tão frívolo e barulhento. Tanto o tom quanto a aparência vulgares eram desagradáveis aos olhos.
— Infelizmente, eles morreram em um acidente de avião, então eu cuido dela há muito tempo…
Ele parecia alguém insignificante, que Alessandro não ousaria falar, mas, por algum motivo, sempre entregava resultados quando recebia trabalho. Se tivesse a virtude de saber quando calar a boca, talvez o mantivesse mais próximo, mas isso jamais aconteceria.
Federico, inclinado naturalmente sobre o corrimão, apontou para um ponto específico no primeiro andar. Olhos frios inconscientemente seguiram a direção do dedo.
— Ela está bem ali. Você a vê?
Uma mulher estava parada onde ele apontava. Cabelos negros, um minivestido vermelho vivo, ombros e costas provocativamente expostos. A intenção era óbvia.
‘Claro, de onde ele arranjou outra mulher asiática?’
Seria errado não corrigir o mal-entendido de que tinha fetiche por asiáticas? Ele vinha pensando nisso ultimamente. Alguns idiotas apenas ouvem falar de seus gostos e acham que qualquer mulher asiática serve…
— Lily! Olhe para cá, sim.
Ao chamado de Federico, uma mulher chamada Lily olhou ao redor e então levantou a cabeça.
Naquele momento, uma mudança ocorreu em seus olhos, que antes congelados pelo tédio.
Sua expressão não vacilou nem um pouco, mas algo se agitou por dentro. Como uma pedra lançada em um lago calmo, como o mar da região ártica quando o degelo começa.
Alessandro inclinou o tronco sobre o corrimão sem perceber.
— ….
Ele nem percebeu que havia ficado em silêncio. Estava ocupado demais seguindo a mulher com o olhar.
A mulher era de uma beleza cativante. Não tinha um ar chamativo, mas seu rosto límpido e os olhos sonhadores lembravam uma flor úmida. Seus lábios carnudos, levemente entreabertos, pareciam estar falando com ele. Sem perceber, ele moveu os próprios lábios, como se fosse responder. 🥹🤏🏻
A outra pessoa permanecia ali, imóvel, encarando Alessandro intensamente. Seus olhares se entrelaçaram no ar. A mulher não desviou daqueles olhos penetrantes e direto.
Era como se um tempo em que ninguém mais podia interferir estivesse passando.
— Sottocapo? Sottocapo? Você está bem?
A voz que o chamava era irritante. Sem tirar os olhos da mulher, Alessandro ordenou em voz baixa:
— Traga, aquela mulher.
Continua …
Tradução: Elisa Erzet