Solstício (novel) - Capítulo 05
— Você está me ameaçando agora?
— Estou apenas dizendo como as coisas são. Nessa situação, se outros fatores externos… não, devo dizer internos? Enfim, se algo continuar me atrapalhando repetidamente, é óbvio quem vai comparecer na próxima audiência, não é?
Era um tipo de aviso. Significava que, mesmo que a missão acabe, eu ainda posso te derrubar, já que sou eu quem segura a faca.
— Eu não sou a desesperada aqui, então pare com essa besteira.
River achou que não dava mais para adiar e começou a se levantar da cadeira.
— Espere um minuto, Winstead.
Será que ele ainda tinha algo irritante a dizer? Ele a deteve e falou como se estivesse declarando algo.
— Todas as suas identidades e registros foram temporariamente apagados. River Winstead agora é uma pessoa que não existe em lugar nenhum do mundo. Precisamos minimizar os danos caso algo dê errado.
Significa que apagariam seus rastros se fosse pega, mas era o esperado. Até a missão ser concluída, ela teria que abandonar seu nome, seu passado, tudo o que pudesse explicá-la.
Assim como seus pais fizeram uma vez.
— Eu não vim até aqui sem estar preparada para suportar esse tipo de coisa.
Quando tudo isso acabar, tudo voltará ao seu lugar. Os dias de sofrimento com frascos de remédios psiquiátricos ou de acordar encharcada de suor por pesadelos recorrentes talvez desaparecessem.
Então ela iria aguentar. Mesmo que fosse para recuperar uma vida normal.
Claro, se falhasse, seria enterrada para sempre sob uma fria camada de terra.
🌸🌸🌸
Tornar-se Lily Gray não foi fácil.
Memorizar o perfil falso foi relativamente simples. River tinha as melhores notas entre os colegas da Academia do FBI, e isso não foi particularmente difícil.
Na segunda noite, Sofia acordou River de repente enquanto ela dormia e mandou que recitasse o número de seguridade social de Lily Gray de trás para frente. Claro, ela passou nesse teste com facilidade também.
O problema foi o que veio depois.
No perfil, Lily se formou em história da arte e, após a graduação, trabalhou como curadora em uma galeria de arte privada. Era um histórico criado para combinar com o gosto de Alessandro, conhecido como amante das artes. Para construir o conhecimento necessário, River teve que devorar cerca de cinco livros de história da arte mais grossos que livros de direito. Se a leitura não fosse seu hobby, teria desistido no meio do caminho.
Desde treinos de atuação para situações inesperadas até como clonar um celular, instalar ferramentas de hacking ou backdoors, encontrar escutas escondidas… os dias passavam rapidamente enquanto ela aprendia e praticava todo tipo de coisa.
E um procedimento obrigatório e indesejado a aguardava.
— É o terceiro dia do seu período, então o momento é perfeito. Acho que um implante seria menos repulsivo do que um DIU, certo?
Antes de implantar o contraceptivo no braço de River, a médica que veio a sede perguntou se ela tinha irregularidades menstruais ou quanta dor sentia durante a menstruação. Até aí, não foi difícil responder.
— Você já sentiu dor durante o sexo ou já teve alguma doença sexualmente transmissível?
— Eu…
River, que estava prestes a dizer que não tinha experiência sexual, fechou a boca. Era uma qualidade básica dos médicos manter as conversas com os pacientes em sigilo, mas, dada a situação, era impossível prever a quem aquilo chegaria.
E, acima de tudo, uma possibilidade que ela não queria considerar a atingiu. E se Jonathan descobrisse isso e a excluísse da missão? Então achou melhor ficar calada.
Não era uma condição obrigatória ter experiência.
Lily Gray era descrita como uma mulher altamente inteligente e elegante. Os superiores exigiam que ela agisse de forma espirituosa, gentil e mostrasse um lado ingênuo. Disseram que isso seria mais vantajoso para atrair a atenção dos homens.
Não teria grande impacto atuar como uma mulher profissional com gostos sofisticados, como exigiam.
River balançou a cabeça. A médica, que não fazia ideia do que ela pensava, simplesmente assentiu levemente.
— O efeito contraceptivo é próximo de 100%. Não há relatos de pacientes que tenham engravidado quando o implante foi colocado corretamente de acordo com o ciclo menstrual, então não se preocupe.
Mesmo que ela acabasse na cama com Alessandro, não precisaria se preocupar em engravidar.
Alessandro, e ir para a cama…
Era uma esperança absurda, mas, se pudesse, ela queria evitar isso a todo custo. Mesmo sabendo qual era seu papel e que tipo de situação se seguiria durante a missão.
River tocou o implante colocado na parte interna do braço. A anestesia ainda não tinha passado, então ela não o sentia, mas parecia algo como o palito de um pirulito chupado até o fim. De repente, arrepios subiram por sua nuca. Era como se aquele pequeno dispositivo, parecido com um fósforo, a estivesse afastando de tudo no mundo.
A médica desejou saúde e foi embora. River, sozinha, desejou que chegasse o dia em que pudesse dizer que não precisava mais do implante.
🌸🌸🌸
Um mês passou rapidamente. Provavelmente foi o mês mais curto da vida de River.
No último dia, Jonathan, que viu River depois de pronta, sorriu finalmente como se estivesse satisfeito. Se ela agradou o exigente Spencer, era seguro dizer que foi um sucesso.
O vestido vermelho que usaria no dia da operação e os saltos altíssimos de scarpins prateados e brilhantes lhe caíram surpreendentemente bem. Parecia que suas preocupações sobre não parecer atraente o suficiente eram infundadas. Até Francesco, que nunca falou mais de três palavras com ela em um mês, ficou impressionado.
Mas River não conseguiu sorrir ao se ver refletida na janela. Tudo era estranho. Como se tivesse perdido todas as memórias dos dias em que insistia em usar moletom e jeans, encostada em um balcão velho, ouvindo um rádio antigo.
Na última noite antes de partir para Milão, River não conseguiu adormecer facilmente. Sofia roncava suavemente ao seu lado, mas não era por isso.
Depois de muito pensar, River pegou o último cigarro e desceu ao primeiro andar.
Ela não poderia fumar até a missão terminar, então era melhor fumar agora. Mas, assim que chegou ao térreo, uma umidade fria bateu em seu rosto. Estava chovendo, o que não estava na previsão. Não sabia quando havia começado, mas a chuva era forte.
Sem guarda-chuva, ela pensava em simplesmente voltar quando alguém a chamou.
— River?
A única pessoa que ainda a chamava pelo nome verdadeiro, mesmo quando todos a chamavam de Lily.
— Você estava acordada?
Era Nate. Ele segurava um guarda-chuva em uma mão e um cigarro na outra.
Ele se aproximou da entrada e abriu o guarda-chuva para que River não se molhasse.
— Você devia dormir um pouco. Tem que acordar cedo amanhã.
Era estranho sentir cheiro de cigarro em Nate. Ele definitivamente não fumava até o começo deste ano, mas quando tinha aprendido a fumar? Era óbvio que não obteria resposta mesmo se perguntasse.
— Só vou fumar um e voltar a dormir. Você não está cansado?
— Costumo dormir tarde, então estou bem. Aqui, fogo.
Assim que River colocou o cigarro na boca, Nate rapidamente estendeu o isqueiro. A fumaça turva se espalhou na chuva.
— Você não tinha parado de fumar? Antes… daquele incidente, tinha largado, não é?
“Aquele incidente”. Devia significar a suspensão.
— Os clientes do camping testam minha paciência ao limite.
Era verdade que tinha voltado a fumar depois disso, mas não faria diferença se dissesse essa mentira a Nate. Afinal, teria que viver cercada de incontáveis mentiras dali em diante. Talvez pudesse encarar isso como treino.
Nate não insistiu. Em vez disso, fez outra pergunta:
— Você está com medo?
— Quando foi que eu disse que estava com medo ao ir para o campo?
— Não é isso que eu quero dizer.
Ele bateu a cinza do cigarro em uma poça e o levou de volta à boca.
— Você vai reencontrar um velho amigo. Você parecia nervosa.
Seus olhos ainda estavam fixos em River. Como se estivesse determinado a obter uma resposta. River sabia que Nate tinha um lado persistente. Mas tudo que ela podia dar era uma palavra ambígua.
— …Você acreditaria em mim se eu dissesse que não?
Nate balançou a cabeça após um breve silêncio. Era assustador ter vivido sob o mesmo teto por dezoito anos. Não importava o quanto ela escondesse suas expressões e fingisse estar bem, ele sempre via através de River.
— Não há nada a temer. Você vai se sair bem.
— …
— Federico Marvich virá buscá-la amanhã. Ele está infiltrado na organização há muito tempo, então pode ficar tranquila. Também colocaremos sua segurança em primeiro lugar. Faremos o máximo para garantir que nada aconteça.
Isso não a confortou muito. Nate, é claro, e Jonathan Spencer, que sempre foi insatisfeito com River, também fariam o seu melhor. Para manter viva a única ponte capaz de extrair informações de Alessandro.
Como se tivesse lido até esses pensamentos autodepreciativos, Nate reforçou:
— Eu falo sério. Se ficar minimamente perigoso, ou se quiser desistir, é só dizer. Eu tiro você de lá imediatamente, custe o que custar. E…
Seu pomo de Adão se moveu visivelmente. Era sinal de que não era fácil dizer aquilo. No silêncio estranho, River virou a cabeça e olhou para Nate. Era o mesmo olhar que já tinha visto antes. Se contasse… cerca de três vezes.
— Seol Ha.
Seol Ha. O nome que estava enterrado há tanto tempo nem sequer parecia mais ser dela. Havia outra razão pela qual o nome que sua mãe lhe deu se tornou tão desconfortável e incômodo quanto areia no sapato.
— Quando tudo isso acabar, espero que você aceite meus sentimentos… então.
River apenas piscou em silêncio. Mesmo sendo uma situação familiar, a confissão dele sempre lhe parecia estranha.
Ela percebeu pela primeira vez que ele tinha sentimentos que iam além da amizade quando estava no último ano do ensino médio. Nate, que era o quarterback mais popular da escola, poderia ter qualquer um como par no baile de formatura se quisesse. Mas fez questão de convidar River para ir. No fim, ela tomou daiquiris sem álcool sozinha e foi para casa.
Naquela noite, Nate, que nem sequer levou seu par para casa, disse:
— Eu gosto de você, River. Não quero mais esconder isso.
E ele foi rejeitado. Com uma rejeição que não deixava espaço nem para uma unha.
Foi o mesmo quando ela estava na faculdade e logo depois de se tornar agente do FBI. A quarta confissão provavelmente não terminaria de forma diferente.
— Você sabe que eu sempre fui sincera com você.
— Não está na hora de você vir para o meu lado?
O olhar verde-oliva fazia seu coração doer. Ela não conseguia dizer não com facilidade. Por que ele não sabia desistir, mesmo sabendo que isso o consumia?
Nate Miller é um bom homem. Bonito, inteligente, compartilhava a mesma dor e era o melhor amigo de River.
Ele definitivamente seria um amante fiel. Com Nate, ela poderia amar e ser feliz como os outros, talvez até se casar e formar uma família.
Ela sabia que seria uma vida perfeitamente feliz, sem espaço para infelicidade… Ainda assim, não podia aceitar essa confissão.
Porque a ferida que foi criada há 18 anos ainda não cicatrizou. Pois nada pode preenchê-la.
— Eu disse para não me chamar por esse nome.
River terminou a última tragada do cigarro. Um aroma fresco mentolado permaneceu em sua boca. Sua mente estava muito clara para dormir. Provavelmente não conseguiria pegar no sono de novo.
Ela esfregou o cigarro nos degraus da entrada para apagá-lo e disse de forma simples:
— Vamos nos encontrar vivos, Nate.
Continua…
Tradução: Elisa Erzet