Solstício (novel) - Capítulo 04
— Posso abrir a janela, River?
— Claro, vá em frente.
A brisa fresca da Itália trouxe vida ao interior abafado do carro. Parecia que fora ontem que ela segurava com força a mão do tio Ben no avião, mas voltar a um lugar onde nunca mais quisera pisar parecia estranho.
Teria sido melhor se despedir pessoalmente? Ela não conseguiu se forçar a dar um adeus definitivo. Apenas deixou um bilhete sobre a mesa dizendo que voltaria. Se tivesse contado a verdade, ele definitivamente não a teria deixado ir. Seus lábios, carregados de preocupação, soltaram um suspiro.
River mexia silenciosamente na caneta-tinteiro que colocara no bolso junto com o porta-cigarros. Ela a encontrara entre os pertences da mãe dezoito anos atrás. Ao vê-la cuidadosamente embalada, supôs que provavelmente fosse um presente de Natal para River.
Nunca teve coragem de usá-la, mas fez questão de levá-la consigo antes de vir para cá. Para lembrar por que viera e com quais sentimentos.
Cerca de 30 minutos após entrarem nos subúrbios tranquilos, o carro parou em frente a um prédio antigo de cinco andares. As janelas estavam cobertas por uma camada embaçada de poeira, e a hera crescia descontroladamente, dando um ar desolado.
— Obrigada.
River saiu do carro e agradeceu em italiano ao policial local no banco do motorista. Suas habilidades linguísticas, aperfeiçoadas ao longo de muitos anos, brilharam. Os olhos do homem se arregalaram levemente, como se não esperasse ouvir uma mulher de aparência estrangeira falar um italiano perfeito.
O motorista os deixou ali e foi embora. River olhou ao redor do espaço vazio à frente do prédio e disse:
— Perfeito para camuflagem.
— Toda a terra e os prédios ao redor pertencem ao governo italiano. Não precisa se preocupar com ninguém entrando, mas é melhor prevenir.
Nate tirou do bolso um cartão-chave de segurança. Com um bip, o portão de ferro enferrujado destrancou. Alguns passos adiante, havia outra porta equipada com um sistema de segurança biométrico.
O interior era muito mais limpo e moderno do que parecia de fora. Um homem de meia-idade, provavelmente um policial, que guardava a entrada, acenou com a cabeça para Nate. Ele entrou no elevador com River e apertou o botão do terceiro andar, perguntando:
— Nervosa?
— Por que essa pergunta de repente?
— Você está mordendo o lábio desde o aeroporto.
Ela estava? Nem tinha percebido. Tocou o lábio inferior com a língua e percebeu que estava levemente inchado. Ainda assim, River deu de ombros, como se não fosse nada.
— Qualquer um ficaria nervoso indo para um novo local de trabalho.
— …É.
— Não se preocupe demais. Todos aqui são profissionais.
Antes que pudesse argumentar que não estava nervosa com a operação, as portas do elevador se abriram com um som mecânico claro.
Era uma área bastante espaçosa. Mapas e perfis dos executivos da Família Ranieri estavam pendurados nas paredes, sendo as maiores as fotos de Antonio e Alessandro.
Uma mulher com óculos redondos levantou o olhar de trás de uma montanha de documentos e monitores. Seus óculos eram grossos, como se tivesse problemas de visão.
— Nate? E… você é a River Winstead, certo? Eu sou Sofia Rossetti. Pode me chamar só de Sofia.
A mulher tinha um forte sotaque italiano. Pegando a bolsa de River, apresentou os outros:
— Este é Francesco Monti. Somos do governo italiano. Oliver Jones é da DEA e da sua cidade natal. O homem que você encontrou no primeiro andar é o Mac Armstrong.
Francesco, com uma expressão levemente melancólica, e Oliver, com o cabelo curtíssimo, a cumprimentaram de forma breve.
— Aquele perto da janela é o Jonathan Spencer. Vocês já se conhecem, não é? Ele está no comando aqui na sede temporária da Itália.
No comando… Parecia que Jonathan havia sido promovido enquanto River estava suspensa.
— Ouvi dizer que você chegou antes.
— Fui a Milão encontrar o Federico. Ele disse que voltaria esta tarde. Vou te levar primeiro ao seu quarto.
River seguiu Sofia até o quinto andar. Ela explicou que, por razões de segurança, não havia janelas no quarto e quinto andares, usados como acomodações. Ainda assim, o local era bem organizado, com cama e gavetas.
Sofia explicou que vinha usando o quarto sozinha até então, por ser a única mulher entre a equipe residente.
— O banheiro com chuveiro fica no final do corredor, e a sala de reuniões e de jantar ficam no segundo andar. Desculpe, mas não é permitido fumar no prédio. Ah, River, posso ficar com seu celular?
Seu celular, desligado, foi para o bolso da calça de Sofia.
— Você não pode mais usar seu celular pessoal.
Em vez disso, Sofia tirou outro de uma caixa sobre a cama que River usaria e o entregou a ela. Na tela, havia uma etiqueta com o nome “R. S. Winstead”.
— Você vai usar este mesmo depois de ser enviada, então cuide bem dele. Parece comum, mas tem todas as funções necessárias. Por exemplo, isso aqui que parece um aplicativo de mensagens é usado para copiar celulares…
Sofia colocou a bolsa de River sobre a mesa de cabeceira e acrescentou calorosamente.
— O Jonathan vai explicar a missão. Descanse por enquanto. Você vai ter muito o que fazer daqui para frente.
🌸🌸🌸
— Bom te ver de novo, Winstead. Vamos pular as saudações desnecessárias e ir direto ao ponto?
— Parece bom.
Jonathan gesticulou em direção à tela com o queixo.
Uma foto de Antonio, a mesma usada sempre que alguma matéria era publicada, preenchia a tela.
— Antonio Ranieri. Cinquenta e dois anos este ano. Também conhecido como ¹“Il Diavolo”. O chefe incontestável da Família Raineri. Sua esposa morreu há bastante tempo, e ele tem apenas um filho.
River encontrou silenciosamente os olhos de Antonio na foto. Seus olhos verdes, como se procurassem uma presa, pareciam prontos para saltar da tela.
— A Família Ranieri era uma organização pequena, mas cresceu depois que Antonio assumiu a liderança ainda jovem. Ele engoliu gangues locais e forças rivais, e reinou supremo. Não há provas claras, mas presume-se que também esteja envolvido com figuras do meio político e empresarial.
Jonathan bateu a ponta dos dedos na mesa e disse:
— Como você sabe, ele desapareceu subitamente cinco anos atrás… Procuramos por toda parte, tivemos muitas perdas, mas ninguém sabia onde ele estava.
‘Perdas’. Será que a palavra “sacrifício” não seria mais adequada nesse caso? River se sentiu desconfortável com a forma como ele tratava os agentes como descartáveis, mas continuou ouvindo em silêncio.
— Mas o único filho dele é outra história.
A imagem na tela mudou. Um homem que lembrava Il Diavolo, mas com uma impressão mais jovem e fria.
Era a primeira vez que River via Alessandro desde aquele dia, dezoito anos atrás.
— Esta é a imagem mais nítida que conseguimos. Por favor, entenda que foi difícil até mesmo obter uma foto dele.
Ainda assim, River o reconheceu sem dificuldade. De repente, sentiu o coração bater acelerado, com emoções que não sabia dizer se eram raiva ou medo.
— Alessandro Michele Ranieri. Vinte e oito anos. Ele é o verdadeiro poder agora que Antonio se foi.
Ele continuava bonito, mais frio do que antes, e parecia muito mais perigoso do que o pai.
A única diferença em relação ao rosto do pai eram os olhos. Olhos azuis impossíveis de decifrar. Houve um tempo em que aqueles olhos se estreitavam de forma bonita quando ele sorria.
— Ele raramente recebe atenção da mídia em comparação com outros membros, mas o nível de perigo deste homem é totalmente diferente.
Não era surpreendente. River já ouvira falar da notoriedade de Alessandro.
O Anjo da Morte.
Era o apelido que ganhara depois de aniquilar sozinho uma pequena organização. Derivado de seu nome de batismo, “Michele”, que significa Arcanjo Miguel.
— Seu papel é se tornar a parceira dele.
— Eu disse isso em Detroit também, mas não significa que você precise estar com ele 24 horas por dia. — Jonathan acrescentou casualmente.
— Quando ele arruma uma namorada, normalmente fica com ela por um ou dois meses e depois termina. Enquanto o relacionamento durar, você o encontra quando ele chamar, e quando ele declarar o término, você naturalmente encerra a missão. Obtenha todas as informações que puder nesse meio tempo.
— Onde ele costuma levá-las ? Na casa dele? Ou em algum apartamento usado como ninho de amor?
— Ele nunca levou uma parceira para a sua casa. Geralmente chama para hotéis ou cruzeiros.
— Onde fica a casa dele?
— Ele é uma figura tão misteriosa que presumimos que seja no sul da Itália, mas…
Jonathan pigarreou e continuou:
— Em breve haverá uma reunião de executivos em Milão. O Alessandro está confirmado, e dizem que ele participará de uma festa perto de lá duas semanas antes da reunião. Isso significa que ele ficará em Milão por cerca de duas semanas, essa é a nossa oportunidade.
— Existe uma abordagem?
— Claro. Um agente infiltrado pelo governo italiano está disfarçado há vários anos. Ele é o que durou mais tempo, então tem certo prestígio. Ele vai levá-la à festa.
Spencer tirou do bolso do terno um pedaço de papel de cor creme.
Era um convite. O material era levemente rígido, e as bordas eram douradas. Exalava um leve perfume de orquídeas, como se tivesse sido borrifado. No centro, estava escrito em letra cursiva elegante:
Sr. Federico Marvich e sua sobrinha, Lily Gray
— Agora, dê uma olhada na última página dos documentos que a Sofia lhe entregou.
River virou silenciosamente até a última página. Havia algo parecido com um currículo anexado.
Era estranho. A foto era claramente a dela, mas o nome escrito era outro.
‘Lily Gray. Como uma coroa de flores fúnebre, uma cor que não era nem preta nem branca.’
Quem quer que tivesse criado aquilo, fora cruelmente preciso. O nome, que ela pronunciou suavemente em pensamento, soava estranho.
— Nome, idade, histórico, relações familiares, hobbies — todas as informações estão aí. Amanhã vou verificar se você decorou tudo direitinho.
Após dizer isso, Jonathan fez uma pausa e acrescentou:
— Você tem cerca de um mês até ser enviada. Coloque todo o seu esforço na preparação.
Um mês? River praguejou por dentro. Isso não era diferente de correr para o meio de um campo minado. Por mais urgente que fosse, ela precisava de pelo menos três meses.
Mas não queria demonstrar fraqueza ali. Se não podia negociar, então só lhe restava fazer tudo perfeitamente.
— É o suficiente.
— Oh, está confiante? Posso esperar algo desta vez?
Jonathan perguntou, os olhos brilhando como os de um gato animado para brincar com um rato.
— Esqueci de mencionar algo importante. Desta vez, não faça buracos no corpo do alvo como da última vez. É um grande prejuízo se ele morrer antes de cuspir todas as informações que tem.
Ele deve estar zombando dela por atirar naquele maldito viciado. Mas River não vacilou.
Seu coração já havia sido desgastado e machucado o suficiente sob superiores como Spencer e entre colegas homens que não a reconheciam como igual. Não era difícil lidar adequadamente com esse tipo de provocação.
— …Eu também sei disso. Se não fosse pelo rótulo de “mulher asiática”, você não teria precisado vir até mim, que estava suspensa, com tanto constrangimento.
A testa de Jonathan se franziu levemente, como se ela tivesse tocado num ponto sensível. River recolheu os materiais que recebera e continuou de forma neutra:
— Também sei por que todas as operações estão sendo conduzidas com tanto sigilo, mesmo sendo uma equipe especial. Se viesse à tona que, embora seja por uma causa maior, os direitos humanos de uma pessoa estão sendo violados nesta missão, e que isso foi imposto como condição para a reintegração…
— …
— O que aconteceria então?
Continua …
Tradução: Elisa Erzet