Solstício (novel) - Capítulo 03
A paisagem tipicamente italiana do interior passava borrada pela janela. O sedã preto deslizava por uma estrada bem conservada, apesar de se tratar de uma propriedade privada. O cenário de telhados de telhas alaranjadas e mansões de tijolos, característico do sul do Mediterrâneo, já lhe era familiar.
Paolo Verolini estacionou o carro em frente à mansão. O ar quente e a luz do sol antes do anoitecer queimavam seu rosto, braços e o dorso das mãos. O calor seco do fim do verão liberava seu último acesso de fúria.
— Você chegou, Paolo.
— Marta, está tudo bem?
Uma mulher de meia-idade, meio cheinha, o recebeu calorosamente no jardim da frente. A julgar pela grande sacola de papel que carregava, ela tinha ido ao mercado.
— Alessandro está…?
— Você se atrasou um pouco. Ele já está no escritório.
— Ele chegou mais rápido do que o esperado. E o Silvio?
— Ficou exausto de limpar a piscina durante o dia, então entrou para tirar uma soneca. Já está na hora de acordá-lo.
Paolo assentiu levemente e seguiu direto para o escritório no segundo andar.
Dos degraus de pedra cobertos por carpete ao piso de madeira, o ar foi ficando mais pesado à medida que avançava. Uma rajada repentina de vento percorreu sua nuca, arrepiando os pelos.
Depois de passar rapidamente a mão pelos cabelos e enxugar a umidade da testa e dos olhos com um lenço, bateu três vezes à porta do escritório, em intervalos regulares.
— É o Paolo.
— Entre.
Ele jamais pisaria lá dentro antes de receber permissão. Era uma das regras de ferro que precisava cumprir.
O interior estava escuro, com as janelas cobertas por cortinas blackout, e as estantes transbordando de livros e ornamentos elaborados exalavam um ar de tradição. O cheiro antigo de algo impregnado de história.
Um homem sentado atrás de uma grande escrivaninha de mogno voltou seu olhar para Paolo. Um par de íris, tão azuis e penetrantes quanto um lago congelado.
Alessandro Michele Ranieri, o dono desta mansão. Seus cabelos loiros e brilhantes ocasionalmente capturavam a luz das lâmpadas, cintilando sutilmente. Seu nariz, lábios, o contorno do maxilar. Cada linha que compunha o homem era impecavelmente perfeita.
Ele encarou Paolo com uma expressão impassível. O rosto, tão semelhante ao do pai, lembrava uma escultura delicada. No entanto, o corpo do homem não tinha a suavidade do mármore. Os ombros eram largos, os músculos dos braços sob as mangas arregaçadas eram firmes, e veias azuladas se destacavam. Alguns poderiam admirá-lo como uma obra-prima de Deus. Mas Paolo sabia muito bem como aqueles membros bem proporcionados e esguios eram capazes de matar alguém.
— Primeiro… gostaria de relatar o andamento do assunto que discutimos mais cedo.
Paolo entrou sem hesitar e parou diante de Alessandro. Servia como seu braço direito havia mais de uma década. Embora o medo fundamental não tenha desaparecido completamente, ele se acostumou com a atmosfera sufocante.
— Recuperamos a mercadoria que aqueles bastardos roubaram na Nigéria. As transações subsequentes estão seguindo pela rota via Marrocos.
— Envie apenas o volume contratado para o Marrocos. Estabeleça um canal completamente novo para o lado nigeriano. Precisamos garantir a África Ocidental de forma estável, a qualquer custo.
— Sim, mas…
As sobrancelhas de Alessandro se levantaram diante da hesitação incomum. Interrompê-lo era uma infração grave, um privilégio concedido apenas a Paolo, seu leal braço direito.
— A organização problemática foi aniquilada. Matamos todos os membros, mas descobriu-se que o território deles abrangia três ou quatro aldeias.
O processo de levar drogas da América Central e do Sul, passando pela África e chegando à Europa, era uma rota crucial. Uma das principais linhas de vida controladas pela Máfia Ranieri.
No entanto, como o lado marroquino tentava sutilmente aumentar as taxas de intermediação, decidiram usar organizações emergentes de pequeno a médio porte para diversificar as opções. No meio disso, ocorreu um acidente.
A quantia que os bastardos roubaram era insignificante. Nem mesmo um dedo mínimo entre dez dedos. Mas rachaduras que começam com trivialidades devem ser prevenidas.
— As famílias deles ainda estão nos vilarejos. O que devemos fazer?
Alessandro desviou o olhar de Paolo. Examinando o monitor novamente, ele disse despreocupadamente.
— Cuidem das mulheres e das crianças. Matem o resto.
— Entendido.
Era uma demonstração. Aqueles que se envolviam em atividades ilegais não ouviam a razão sob pressão comum. Apenas se acovardaram diante de uma crueldade esmagadora, portanto a punição precisava ser severa.
Devolva dez por um, e cem por dez. Mostrar misericórdia levianamente levaria à fraqueza. Essa era a natureza daquele mundo.
— E há uma mensagem do consigliere. Devo recitá-la?
— Do Damiano Giannini?
— Sim.
[Você pode não gostar disso, mas compareça a essa festa. Vamos ao menos ver o rosto um do outro, Príncipe.]
Paolo falou de forma suavizante enquanto a expressão de Alessandro endurecia.
— Eu sei que não quer ir, mas é melhor fazer o que o consigliere diz. Ouvi dizer que haverá muitos novos colaboradores desta vez.
— …
— Sandro, você precisa mostrar a eles que Damiano Giannini, o consigliere da Família Ranieri, está apoiando você.
— Será problemático se alguns começarem a alimentar ilusões.
— Como o Giuseppe, por exemplo.
Giuseppe Cascio, o homem que foi expurgado alguns anos antes. Depois que Antonio desapareceu, tentou audaciosamente disputar poder com Alessandro sem qualquer temor e foi morto em um conflito interno.
A repressão rápida evitou grandes perdas, mas, como Alessandro eliminou completamente todas as forças de Giuseppe, formou-se uma lacuna no efetivo da organização.
— Já que o chefe não está te protegendo ativamente, o padrinho precisa intervir.
— Meu pai me vê como um filhote de leão.
A voz de Alessandro era uniforme e calma. Ele já estava acostumado à “educação” de Antonio. 🥹
Tudo aquilo, na verdade, aconteceu com a aprovação tácita do pai. Não foi apenas por um ou dois anos. Mas desde o momento em que o garotinho pegou uma arma pela primeira vez e começou a matar pessoas. Arrastado para um penhasco e mandado sobreviver por conta própria.
Esse era o único jeito de tornar aquela criança em um líder impecável.
— Sandro, você já cresceu há muito tempo.
Paolo observou seu mestre silencioso. Quando o menino havia se tornado um jovem tão bonito?
As bochechas rechonchudas e rosadas haviam perdido a gordura infantil, revelando um maxilar afiado, e as mãozinhas que antes mal conseguiam segurar uma pistola haviam crescido o suficiente para estrangular alguém facilmente com uma só.
Não — de fato aquele homem já havia quebrado o pescoço de alguém antes.
Foi quando estavam exterminando a gangue de Giuseppe. Alessandro, com apenas um pequeno número de subordinados, invadiu o esconderijo antes mesmo que o homem que ousara desafiá-lo pudesse sequer se preparar. Paolo estava entre eles.
Nunca esqueceria aquele dia, que se assemelhava a um inferno em vida.
Os homens de Giuseppe caíam um a um a cada movimento suave e elegante. Ele colocou buracos de bala na testa dos que se rendiam e, quando ficou momentaneamente sem munição, subjugou os oponentes no corpo a corpo, quebrando seus pescoços com um estalo.
Ele foi ainda mais brutal ao lidar com Giuseppe no final.
“Por favor, me mate…”
“Coloque uma no queixo dele e puxe. Se perfurar a língua, ele não vai mais tagarelar.”
O bastardo provavelmente nunca imaginou que seu fim seria tão miserável. Nunca pensou que morreria lentamente, pendurado em ganchos de carne com todo o corpo perfurado em um armazém vazio no porto. Paolo lembrava da poça de sangue que se formou no chão do lugar.
Levou dois dias inteiros para o que uma vez foi Giuseppe Cascio se tornar um pedaço de carne. Aqueles que foram mortos a tiros pelo caminho tiveram um fim melhor.
O homem à sua frente era um especialista em matar.
Como sottocapo, subchefe e o próximo sucessor, sua capacidade de administrar a organização era impecável, mas ele sabia que a forma mais fácil de controlar e dominar as pessoas era por meio da força esmagadora. De fato, após o aniquilamento horrível da gangue de Giuseppe, ninguém dos executivos-chave ousaria desafiar Alessandro, não é?
— O que devo dizer ao consigliere?
— Eu mesmo entrarei em contato com o padrinho. Apenas transmita o resto das instruções.
— Sim. Então vou reduzir adequadamente a lista de convidados. Incluirei informações detalhadas, com foco nos novos rostos.
Alessandro assentiu. Ao gesto dele para que se retirasse, Paolo saiu rapidamente do escritório.
‘Uma festa… então, as coisas ficaram quietas por um tempo.’
Desta vez, eles se reuniriam de forma irritante como piranhas famintas. Os executivos não eram exceção. Em uma situação onde estava claro quem herdaria a Família Ranieri, todos estavam ocupados tentando encontrar uma maneira de sobreviver.
Tudo isso era desinteressante para um homem poderoso que não precisava se comprometer. Então era inevitável que fosse desgastante e tedioso.
As mulheres que se aproximavam dele tinham todas algo em comum: desejavam sexo, dinheiro e afeto. Ele podia facilmente oferecer os dois primeiros, mas Alessandro não tinha o último. E mesmo que tivesse, não o daria. Porque uma imitação jamais poderia se tornar genuína.
Deixado sozinho novamente, Alessandro suspirou languidamente.
(NOTA: O sottocapo é um cargo de liderança na Cosa Nostra americana e na Máfia siciliana, funcionando como subchefe da organização. Ele atua como substituto do chefe, assumindo o comando caso este fique doente, seja preso ou morra, e muitas vezes é alguém de confiança, como um membro da própria família.)
Continua …
Tradução: Elisa Erzet